6,3/10

“O Morro dos Ventos Uivantes”

Diretor

Emerald Fennell

Gênero

Romance

Elenco

Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau

Roteirista

Emerald Fennell

Estúdio

Warner

Duração

136 minutos

Data de lançamento

12 de fevereiro de 2026

O Morro dos Ventos Uivantes conta a história das famílias Earnshaw e Linton. Centrada em Catherine Earnshaw (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi), um romance intenso surge para destruir a vida dos dois jovens. O filho adotado do inquilino e Catherine entram em um jogo de obsessão, rejeição e vingança, ao mesmo tempo no qual tentam se distrair com essa louca paixão.

Há adaptações que traem por excesso de reverência — aquelas que reproduzem eventos e diálogos como um exercício escolar, incapazes de traduzir a febre do original para a linguagem do cinema. E há adaptações que traem por vaidade: usam o título como grife, o prestígio como salvo-conduto, e a obra como pretexto para um gesto autoral que, no fundo, não sabe o que está afrontando. A versão de Emerald Fennell para O Morro dos Ventos Uivantes cai com estrondo na segunda categoria: uma encenação luxuosa de rebeldia que confunde transgressão com barulho e “atualização” com provocação para agitar as redes sociais.

O romance de Emily Brontë nunca foi um idílio. Sua violência moral, seu rancor de classe, sua pulsão autodestrutiva — tudo ali é excessivo, mas é um excesso que aponta para dentro: para uma arquitetura emocional doentia, para a crueldade como linguagem afetiva, para o amor como instrumento de punição. O filme, porém, parece trocar esse inferno íntimo por um catálogo de estímulos. Há uma erotização insistente, repetida, frequentemente mais interessada em anunciar ousadia do que em construir tragédia. A sensação é a de um longa que quer ser “ícone contemporâneo” antes de ser narrativa: a mise-en-scène grita “perca o controle”, mas o roteiro não tem coragem de perder o próprio controle — apenas repete a ideia em cena, como quem confunde intensidade com insistência.

Nesse contexto, o problema do elenco não é “beleza” — é gravidade. Jacob Elordi pode ser um corpo muito fotogênico para o romantismo gótico de campanha publicitária, mas Heathcliff exige densidade, opacidade, uma espécie de peso que contamina o quadro mesmo quando o personagem está em silêncio. Sem isso, o motor trágico vira pose. E, quando o protagonista não sustenta o abismo, todo o resto vira decoração. Até Margot Robbie — atriz de presença rara, capaz de impor contradições numa única inflexão — parece presa numa direção que a conduz ora como peça de museu, ora como fetiche, raramente como personagem.

É especialmente frustrante porque Fennell já mostrou, em obras recentes, que sabe lidar com moralidade e perversão sem cair no gratuito. Em seus melhores momentos, ela entende que o escândalo só tem valor quando revela estrutura: uma violência social, uma hipocrisia, um jogo de poder. Aqui, o erotismo não ilumina nada; ele distrai. E não há ironia suficiente para salvar o que se coloca em tela com a seriedade de quem acredita estar reinventando um clássico — quando, na prática, está apenas simplificando suas camadas até o ponto em que ele vira um melodrama vistoso, pontuado por cenas que parecem existir para gerar conversa, não para gerar sentido.

O verniz técnico, claro, é impecável. Paisagens amplas, figurinos cuidadosos, uma fotografia que sabe vender “atmosfera”. Mas cinema não é catálogo de textura: quando a história é esvaziada, a beleza vira maquiagem — e maquiagem, por melhor que seja, não ressuscita o que foi amputado. Até escolhas de “modernização” (sejam de aparência, de elenco, de composição social) soam como ruído quando não vêm acompanhadas de uma reimaginação coerente do mundo representado. Mudanças podem ser férteis —  Frankenstein, de Guillermo del Toro, é prova de que desvio e respeito podem coexistir —, desde que o filme entenda o que está preservando. Aqui, a sensação é a de uma obra que muda para incomodar, e incomoda porque muda sem critério dramático.

No fim, a maior ironia é que O Morro dos Ventos Uivantes sempre foi, por natureza, um objeto indomável — e talvez por isso sobreviva melhor em lampejos do que em reconstituições. Às vezes, uma canção de poucos minutos consegue captar a febre, o desvario e o assombro que duas horas de cinema, tomadas por autoconsciência e exibicionismo, não alcançam. O filme de Fennell quer ser tempestade; entrega ventania de estúdio. E, para um clássico que ainda fere e ainda perturba quando lido com atenção, isso não é ousadia: é empobrecimento.

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