Um Pai em Apuros
Diretor
Carol Durão
Gênero
Comédia
Elenco
Rafael Infante, Dani Calabresa, Babu Santana
Roteirista
Fil Braz
Estúdio
+Galeria
Duração
102 minutos
Data de lançamento
23 de abril de 2026
Enquanto uma mãe cuidar de um (ou mais) filhos sozinha é algo absolutamente comum, e praticamente esperado, as coisas mudam quando é o pai que toma esse lugar. Um pai cuidando de seus próprios filhos vira um evento, enredo de filme, quase sempre com a mensagem de que o pai só precisava de tempo para se acostumar com esse papel, mas depois aprende a amar a paternidade e então passa a fazer o que a mãe já fazia, mas ele recebe louros por isso, enquanto ela está apenas cumprindo sua obrigação. O pai ausente sempre tem a chance de se tornar um pai herói, enquanto a mãe é apenas mãe do começo ao fim – e se agir como um pai, aí será uma péssima mãe. Por ser uma temática constantemente levada para o meio cinematográfico, e raramente com uma abordagem que abranja as nuances desse tipo de relação, é natural encarar “Um Pai em Apuros” com um certo cinismo, afinal, parte do mesmo princípio: um pai é obrigado a se tornar o principal cuidador dos filhos quando a mãe sai em viagem. Como o título já sugere, o que era apenas o dia-a-dia da mãe, para o pai é um grande problema que o coloca em apuros. Apesar de entrar no cinema com todos esses pré-julgamentos, fui surpreendida por uma comédia um pouco mais densa do que a premissa sugeria e com mais consciência social do que o esperado, sem nunca deixar o humor de lado.
Em “Um Pai em Apuros”, de Carol Durão, Rafael Infante é Fred, o típico homem brasileiro de classe média. Ele é casado com Roberta (Dani Calabresa) e tem 4 filhos, dois adolescentes, uma criança e um bebê. Ele cumpre exatamente o papel de um pai tradicional de não muito tempo atrás: acorda, toma o café da manhã preparado pela esposa, coloca seu terno e vai trabalhar. Às vezes volta direto para casa depois do expediente, outras, quando o dia de trabalho foi mais pesado, estica para um happy hour com os colegas de trabalho. Chega em casa para o boa noite das crianças e vai dormir. Ele é gerente de RH de uma casa de material de construção e nem sempre o trabalho é prazeroso, principalmente com uma aguardada promoção que parece mais distante cada vez que ele chega perto. Em casa, ele quer paz e sossego. Para Fred isso faz todo sentido, afinal de contas ele é a metade do casal que trabalha fora, que sustenta a casa e as crianças – financeiramente falando. E não é esse o papel de um homem? Ele até brinca com os filhos às vezes, participa dos eventos da escola – tem dia que até leva à escola, para ele, é o suficiente.
Do outro lado, no entanto, acompanhamos também o dia de Roberta. Ela sempre foi advogada, mas optou, junto com o marido, por deixar a profissão de lado para se dedicar à família. Ela cuida da casa, das refeições, das roupas, de tudo relacionado à escola e às atividades extracurriculares de todos os filhos, coordena os calendários, cuida dos filhos e, para completar, cuida do marido também. Essa divisão de tarefas entre homem e mulher não é nada a se estranhar, é parte de uma cultura enraizada e até poderia dar certo caso fosse mais equilibrada, mas o que vemos é Fred com uma vida fora de casa, com hobbies, amigos e lazer, enquanto Roberta vive para a família, enquanto seu esforço nunca é valorizado, já que não passa de sua “obrigação”. Roberta poderia apenas aceitar sua condição e seguir em frente, mas felizmente ela é fruto de uma sociedade que passa por mudanças e progresso e, ao invés de aceitar calada, aproveita uma viagem de negócios da irmã para “tirar uma folga” de seu trabalho em tempo integral e, de repente, Fred se vê responsável por sua casa e por sua família.
Não é difícil imaginar o que vem a seguir, tanto em relação aos “apuros” do pai, quanto em relação ao desfecho. “Um Pai em Apuros” não reinventa a roda, e nem parece ter intenção de fazê-lo, mas se diferencia pelo desenvolvimento. Em vez de assumir o tom de lição de moral sobre a importância de ser um pai realmente presente, conta a história de Fred de uma forma mais honesta e individual – ainda que possa (e deva) ser considerada de forma generalizada também. Ajuda o fato de que os personagens são carismáticos, com destaque para a babá, que traz uma subtrama igualmente interessante.
Ainda em relação à trama, “Um Pai em Apuros” peca duas vezes pelo mesmo motivo: o excesso, tanto de querer servir de exemplo quanto de ser um tipo específico de comédia. O clímax é mais um final feliz de conto de fadas do que um desfecho realista. O humor físico também vai além do que poderia, com exagero de gritos e gestos para incitar a risada enquanto a situação como um todo já seria suficiente para dar conta do trabalho. Esse é um defeito que acompanha não só essa, mas muitas outras comédias brasileiras, que parecem entender o humor como algo escrachado, sem possibilidade para sutilezas e entrelinhas. Ainda assim, Rafael Infante é uma grata surpresa, conseguindo voltar do exagero e encarar uma cena mais séria com naturalidade e graça. Há certas discrepâncias no que diz respeito às atuações, mas no geral, o conjunto da obra é satisfatório nesse quesito. Não se pode dizer o mesmo, porém, da direção de arte; a casa, que é o cenário central do filme, traz um colorido plástico e parece querer imitar o padrão estadunidense, mas até mesmo seu interior é “genérico” demais, parecendo muito mais um cenário do que uma casa de fato.
“Um Pai em Apuros” está longe de ser um filme perfeito, mas também está longe de ser algo negativo como sua premissa abria espaço para ser. É um filme família, engraçado, honesto e que pode, sim, servir de exemplo, ou ao menos como inspiração, para abrir os olhos de muitos pais que seguem o mesmo caminho inicial de Fred; e se não atingir os pais, que atinja as mães para que se inspirem em Roberta e exijam mais do que o mínimo oferecido pelos maridos e pela sociedade.
Por Júlia Rezende