Insaciável
Diretor
Natalie Erika James
Gênero
Terror
Elenco
Midori Frances, Danielle Macdonald, Madeleine Madden
Roteirista
Natalie Erika James
Estúdio
Diamond Films
Duração
113 minutos
Data de lançamento
06 de agosto de 2026
Muitas vezes, o que nos desconecta de um filme de terror é o quanto precisamos nos descolar do bom senso e do realismo. Quando vemos um grupo de jovens indo para uma floresta no meio da noite com um assassino à solta, ou uma família se mudando para uma mansão com fama de mal-assombrada no meio do nada, nossa primeira reação é pensar “isso não faz sentido”. São poucos os filmes do gênero que trazem um enredo convincente o suficiente para que o espectador consiga se colocar no lugar das vítimas, um deles, para mim, é “Fale Comigo” e agora, o também australiano, “Insaciável”. O segundo filme da diretora Natalie Erika James une duas tendências do terror: o comentário social e o body horror, ou terror corporal. Apesar da temática sobrenatural, “Insaciável” tem uma premissa extremamente crível e atual, o que o torna instantaneamente mais interessante.
A protagonista da história, Hana (Midori Francis), é uma estudante de medicina que está um pouco acima do peso “ideal” e, apesar de aparentemente não apresentar problemas de saúde, é obcecada em tentar emagrecer. Ela tem um caderno onde anota sua pesagem constantemente, vai para a academia, onde tem um crush por Alanya (Madeleine Madden), uma das treinadoras, mas seus esforços são sempre em vão. A construção do comentário social de Natalie Erika James começa dessa relação de Hana com o peso e com a comida. Hana não faz parte de nenhum extremo, ela não é morbidamente obesa, nem apela para meios menos ortodoxos ou ilegais. Sua obsessão está dentro do que é considerado normal para a sociedade, ainda que seja um ponto de constante ansiedade em sua vida. O ponto de virada, no entanto, acontece quando Hana vai a uma festa com colegas da faculdade e encontra, por acaso, uma amiga antiga. A princípio Hana não a reconhece e o motivo atiça suas maiores inseguranças: a jovem usou uma pílula que fez com que ela perdesse muito peso em pouquíssimo tempo. Não é um remédio com rótulo, muito menos com aprovação da agência reguladora, mas seu efeito milagroso é suficiente para que Hana aceite quando a amiga oferece uma deles – você certamente conhece ao menos uma pessoa (se não é uma delas) que também aceitaria.
O remédio funciona e, aproveitando a estrutura da faculdade, Hana investiga do que ele é feito, e descobre que o pó dentro da pílula nada mais é do que cinzas humanas, então, em vez de parar de consumi-las, Hana passa a produzir suas próprias, utilizando restos de corpos que usavam em uma das aulas, especialmente os de uma mulher, obesa, cujo espírito passa a assombrar Hana. A partir desse momento, há uma guinada do filme para o sobrenatural, num terror um pouco mais tradicional, com direito a jump scares, aparições e situações perigosas, mas a direção de Natalia Erika James nunca deixa que essa nova camada “atrapalhe” a construção do filme até ali. O terror corporal e o desconforto através da comida (com closes e ingestão de quantidades absurdas até que a compulsão da personagem nos gere repulsa) seguem como norte desta história – e é também onde o filme encontra sua força. Com efeitos práticos e manejo eficiente de câmera e iluminação, aliados a atuações potentes, a obsessão de Hana é palpável para o espectador.
Apesar de não ser um filme necessariamente raso, no entanto, se beneficiaria de algumas camadas a mais, especialmente no que diz respeito ao comentário social. Por mais que fique evidente a relação da compulsão alimentar de Hana com os demais aspectos de sua vida (a relação com o pai é um ponto interessante), as consequências disso são usadas mais como um meio para se chegar ao terror e no desconforto visual do filme do que como uma forma de refletir e aprofundar a discussão sobre a realidade desse tema. É inevitável assistir a “Insaciável” e não pensar em “A Substância” por conta do horror corporal, mas o último consegue levar esse horror para outros patamares, como um meio para um outro fim, e não como “único” propósito. “Insaciável” acaba deixando uma impressão de que tinha mais a dizer e preferiu sintetizar, mas isso não anula o que foi, de fato, dito. É mais um filme que prova que o gênero do terror segue evoluindo e melhorando, principalmente com novos olhares, novas perspectivas. E como bônus, tem um final arrebatador, capaz de compensar os deslizes que vieram pouco antes.
Por Júlia Rezende