{"id":72348,"date":"2018-03-06T06:31:47","date_gmt":"2018-03-06T09:31:47","guid":{"rendered":"http:\/\/supercinemaup.com\/?p=72348"},"modified":"2018-03-28T21:33:31","modified_gmt":"2018-03-29T00:33:31","slug":"sem-amor-a-russia-precisa-de-maes-e-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/sem-amor-a-russia-precisa-de-maes-e-pais\/","title":{"rendered":"\u201cSem Amor\u201d: A R\u00fassia precisa de m\u00e3es (e pais)"},"content":{"rendered":"<p>[et_pb_section admin_label=&#8221;section&#8221;][et_pb_row admin_label=&#8221;row&#8221;][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text admin_label=&#8221;Texto&#8221; background_layout=&#8221;light&#8221; text_orientation=&#8221;justified&#8221; use_border_color=&#8221;off&#8221; border_color=&#8221;#ffffff&#8221; border_style=&#8221;solid&#8221;]<\/p>\n<p>Se voc\u00ea \u00e9 amante da s\u00e9tima arte e ainda n\u00e3o conhece o trabalho do diretor russo <strong>Andrey Zvyagintsev<\/strong>, est\u00e1 perdendo a chance de acompanhar um dos diretores europeus mais perspicazes e promissores desse in\u00edcio de s\u00e9culo. Sua estreia causou impacto em 2003 com <strong>\u201cO Retorno\u201d<\/strong> \u2013 indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro -, contando a hist\u00f3ria de dois irm\u00e3os que precisam lidar com o retorno do pai autorit\u00e1rio ap\u00f3s 12 anos de aus\u00eancia, os levando a uma tensa jornada de maturidade e remorso pelo cora\u00e7\u00e3o da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Antes de ser indicado ao Oscar pelo \u00e9pico drama <strong>\u201cLeviat\u00e3\u201d (2014)<\/strong>, Zvyagintsev dirigiu mais dois filmes aclamados em importantes festivais, <strong>\u201cO Desterro\u201d (2007)<\/strong> e <strong>\u201cElena\u201d (2011)<\/strong> \u2013 confesso que ainda preciso assistir a esses dois \u2013 e creio que foi aos poucos criando um estilo peculiar em suas obras. Apesar de seus filmes geralmente acompanharem dramas pessoais e familiares, por tr\u00e1s h\u00e1 sempre um reflexo do momento s\u00f3cio-pol\u00edtico do seu pa\u00eds (\u201cLeviat\u00e3\u201d provavelmente seja o exemplo mais claro). Como n\u00e3o sou especialista em pol\u00edtica e nem estou acompanhando muito de perto a situa\u00e7\u00e3o por l\u00e1, n\u00e3o vou me aprofundar tanto nisso.<\/p>\n<p>Mas, para mim a quest\u00e3o \u00e9 a seguinte: qualquer cineasta capaz de criar hist\u00f3rias interessantes e de temas universais (que nos possibilitem \u2018empatizar\u2019 com os personagens, se \u00e9 que a conjuga\u00e7\u00e3o est\u00e1 correta), e ainda consiga levantar quest\u00f5es sobre os problemas do seu pr\u00f3prio pa\u00eds por meio de dramas intensos e envolventes, esse profissional merece total respeito e aten\u00e7\u00e3o. E no seu \u00faltimo trabalho, <strong>\u201cSem Amor\u201d<\/strong>, apesar da quest\u00e3o do envolvimento ser subjetiva de espectador para espectador, acredito que mais uma vez Zvyagintsev \u00e9 uma voz que merece ser ouvida.<\/p>\n<p><strong>Uma crian\u00e7a desaparecida <\/strong><\/p>\n<p>\u201cSem Amor\u201d conta a hist\u00f3ria de um casal, Boris (<strong>Aleksey Rozin<\/strong>) e Zhenya (<strong>Maryana Spivak<\/strong>, impressionante no papel), que est\u00e3o nos est\u00e1gios finais e amargurados do processo de div\u00f3rcio. Ainda precisando viver juntos, enquanto tentam vender o apartamento, e com ambos j\u00e1 tendo encontrado novos parceiros, a conviv\u00eancia torna-se cada vez mais insuport\u00e1vel, cheia de insultos e provoca\u00e7\u00f5es. Infelizmente, os dois n\u00e3o parecem se importar com Alyosha (<strong>Matvey Novikov<\/strong>), o filho de 12 anos que sofre consigo mesmo por se sentir rejeitado e ainda por cima um item indesejado na briga pela cust\u00f3dia que vir\u00e1 pela frente. At\u00e9 que certo dia ele simplesmente desaparece.<\/p>\n<p>Assim como indica o t\u00edtulo, Zvyagintsev conduz seu filme de forma praticamente insens\u00edvel e fria. O ego\u00edsmo dos adultos desperta n\u00e3o muito mais do que desprezo por aqueles personagens. Pela crian\u00e7a, obviamente, sentimos pena e compreens\u00e3o, pois ela ainda n\u00e3o est\u00e1 pronta para lidar com problemas dos quais n\u00e3o tem culpa. Logo nos primeiros minutos, ap\u00f3s imagens de \u00e1rvores desoladas pela baixa temperatura local, a dire\u00e7\u00e3o acerta ao nos mostrar o quanto Alyosha se sente sozinho. Na sa\u00edda da escola, o vemos fazer um longo e solit\u00e1rio caminho at\u00e9 sua casa, lugar onde sabe que n\u00e3o \u00e9 bem-vindo.<\/p>\n<p>Ele observa da janela o horizonte e outras crian\u00e7as brincando, talvez imaginando o que fez para n\u00e3o ser amado e tratado como uma pessoa que mere\u00e7a ser feliz na sua idade. Enquanto isso, um casal visita o apartamento com interesse em compra-lo. A mo\u00e7a est\u00e1 gr\u00e1vida, e o rapaz \u00e9 quem faz as perguntas. Entre um e outro coment\u00e1rio, fica bem claro que o que ele realmente est\u00e1 interessado \u00e9 o tamanho do apartamento e n\u00e3o necessariamente se \u00e9 uma boa escolha para seu filho(a) que est\u00e1 chegando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[\/et_pb_text][et_pb_image admin_label=&#8221;Imagem&#8221; src=&#8221;http:\/\/supercinemaup.com\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/loveless05182017_large.jpg&#8221; show_in_lightbox=&#8221;off&#8221; url_new_window=&#8221;off&#8221; use_overlay=&#8221;off&#8221; animation=&#8221;off&#8221; sticky=&#8221;off&#8221; align=&#8221;center&#8221; force_fullwidth=&#8221;off&#8221; always_center_on_mobile=&#8221;on&#8221; use_border_color=&#8221;off&#8221; border_color=&#8221;#ffffff&#8221; border_style=&#8221;solid&#8221;] [\/et_pb_image][et_pb_text admin_label=&#8221;Texto&#8221; background_layout=&#8221;light&#8221; text_orientation=&#8221;justified&#8221; use_border_color=&#8221;off&#8221; border_color=&#8221;#ffffff&#8221; border_style=&#8221;solid&#8221;]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um casamento destru\u00eddo<\/strong><\/p>\n<p>Boris \u2013 preocupado em n\u00e3o ser demitido &#8211; e Zhenya \u2013 ressentida com o filho porque lembra o ex-marido (e possivelmente as m\u00e1s decis\u00f5es que tomou) &#8211; levam incr\u00edveis dois dias para descobrir que Alyosha desapareceu. A impassibilidade e frieza com que a narrativa avan\u00e7a desperta cada vez mais desgosto por aquela situa\u00e7\u00e3o (podendo espantar alguns espectadores menos pacientes), e outro elemento que Zvyagintsev sabe explorar muito bem \u00e9 o uso \u201cbanal\u201d da tecnologia e das rela\u00e7\u00f5es interpessoais, que v\u00e3o aos poucos se sobrepondo \u00e0 pr\u00f3pria conviv\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de atitudes e relatos n\u00e3o apenas dos protagonistas, mas de toda a sociedade (funcion\u00e1rias de sal\u00e3o, patr\u00f5es que for\u00e7am as pessoas a viverem de apar\u00eancias mesmo que n\u00e3o se importem mais umas com as outras, mulheres em um restaurante ou a filha que n\u00e3o faz quest\u00e3o de visitar o pai), vemos como as pessoas hoje vivem em busca de distra\u00e7\u00f5es fugazes para disfar\u00e7ar o medo pelo amanh\u00e3. E entre esse mundo de <em>selfies<\/em>, redes sociais e a banaliza\u00e7\u00e3o da infidelidade, por exemplo, a pr\u00f3pria narrativa nos faz esquecer do garoto, colocando teoricamente o tema mais importante (seu desaparecimento) em segundo plano at\u00e9 praticamente metade do filme.<\/p>\n<p>Possivelmente nas m\u00e3os de um diretor mais otimista, a trag\u00e9dia poderia servir de combust\u00edvel para a uni\u00e3o do casal, ou ao menos uma reflex\u00e3o dos p\u00e9ssimos pais que s\u00e3o. Por\u00e9m, Zvyagintsev \u00e9 muito mais duro com o espectador, colocando essa fam\u00edlia disfuncional atr\u00e1s de respostas sem ter a m\u00ednima ideia de como encontrar uma sa\u00edda para os seus problemas. Por outro lado, ser\u00e1 que o desaparecimento do indesejado garoto n\u00e3o resolve boa parte dos seus conflitos? Sem o apoio da pol\u00edcia, resta a eles se unirem \u00e0 boa vontade da pr\u00f3pria comunidade, na esperan\u00e7a de um final feliz &#8211; que talvez nem seja o que eles queiram.<\/p>\n<p><strong>Um pa\u00eds em crise<\/strong><\/p>\n<p>Como mencionei anteriormente, o diretor costuma usar temas universais como paralelo para a situa\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Embora \u201cSem Amor\u201d aparente ser bem menos pol\u00edtico que \u201cLeviat\u00e3\u201d, acredito que pode ser considerado uma cr\u00edtica \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria na R\u00fassia (e na sociedade, de modo geral) \u2013 a t\u00edtulo de curiosidade, \u201cLeviat\u00e3\u201d, que fora financiado com ajuda do governo, mas fazia uma cr\u00edtica ao pr\u00f3prio, foi aclamado mundialmente e perseguido internamente, o que fez Zvyagintsev buscar recursos em outros pa\u00edses desta vez.<\/p>\n<p>Como eu disse, n\u00e3o quero especular muito neste campo pol\u00edtico, mas a impress\u00e3o que fica \u00e9 a de que Zvyagintsev esteja mostrando que o povo russo est\u00e1 se sentindo abandonado. Assim como uma crian\u00e7a n\u00e3o pode crescer como um ser humano decente em um ambiente t\u00f3xico como o de Alyosha, Boris e Zhenya, como um povo pode viver com dignidade e se sentir amparado se falta amor por todos os lugares (lembrando que a R\u00fassia est\u00e1 em Guerra com a Ucr\u00e2nia por conta de uma disputa territorial)?<\/p>\n<p>E enquanto guerras e protestos fervorosos acontecem, a maioria parece estar preocupada com seu narcisismo e buscando sua pr\u00f3pria felicidade sem se importar com aqueles que mais precisam. Num dos momentos mais tensos do filme, duas garotas b\u00eabadas surgem dando risadas e fazendo brincadeiras. Para grande parte da popula\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia \u00e9 t\u00e3o comum que parece que nem incomoda mais. No entanto, conforme a procura pelo garoto avan\u00e7a e novos casos v\u00e3o sendo descobertos, os olhos come\u00e7am a abrir.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>Assim como muitos filmes considerados \u201cde arte\u201d, \u201cSem Amor\u201d requer um investimento forte por parte do espectador. N\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria f\u00e1cil e n\u00e3o \u00e9 contada de maneira f\u00e1cil. Eu considero um bom filme e uma indica\u00e7\u00e3o merecida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano pela maneira coerente como a dire\u00e7\u00e3o decide abordar a trama: um drama frio, se passando em um lugar frio sobre pessoas frias.<\/p>\n<p>Entretanto, o filme n\u00e3o \u00e9 ass\u00e9ptico ou sem emo\u00e7\u00e3o. H\u00e1 momentos de ang\u00fastia genu\u00ednas (como ato final), que demonstram que, al\u00e9m da hist\u00f3ria, tecnicamente as escolhas foram extremamente competentes \u2013 o elenco est\u00e1 impec\u00e1vel, a fotografia comp\u00f5e alguns quadros bel\u00edssimos e o uso de ilumina\u00e7\u00e3o, escurid\u00e3o e cores refor\u00e7am a sofistica\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o de Zvyiagintsev \u2013 algo j\u00e1 mais do que comprovado no seu filme anterior.<\/p>\n<p>E \u00e9 isso que eu amo no cinema, essa capacidade de abordar v\u00e1rios assuntos por meio de hist\u00f3rias nem sempre felizes, mas que conseguem nos alertar para todos os problemas acontecendo ao redor do mundo. \u201cSem Amor\u201d pode at\u00e9 parecer uma hist\u00f3ria comum de desaparecimento infantil, mas logo se manifesta como um reflexo no espelho para reconhecermos nosso ego\u00edsmo e neglig\u00eancia para com aqueles que precisam da gente.<\/p>\n<p><strong>E voc\u00ea, j\u00e1 assistiu ou est\u00e1 ansioso para ver? Concorda ou discorda da an\u00e1lise? Deixe seu coment\u00e1rio ou cr\u00edtica (educadamente) e at\u00e9 a pr\u00f3xima! <\/strong><\/p>\n<p><strong>Para mais coment\u00e1rios sobre filmes, sigam-me nas redes sociais:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/danilo_calazans\/\"><strong>https:\/\/www.instagram.com\/danilo_calazans\/<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/calazansdanilo\"><strong>https:\/\/www.facebook.com\/calazansdanilo<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/twitter.com\/danilo2calazans\"><strong>https:\/\/twitter.com\/danilo2calazans<\/strong><\/a><\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Danilo Calazans analisa um dos indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 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