{"id":72660,"date":"2018-06-01T22:11:20","date_gmt":"2018-06-02T01:11:20","guid":{"rendered":"http:\/\/supercinemaup.com\/?p=72660"},"modified":"2018-06-01T22:11:20","modified_gmt":"2018-06-02T01:11:20","slug":"cinepe-2018-o-que-rolou-na-abertura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/cinepe-2018-o-que-rolou-na-abertura\/","title":{"rendered":"CinePE 2018 | O que rolou na abertura"},"content":{"rendered":"<p>[et_pb_section admin_label=&#8221;section&#8221;][et_pb_row admin_label=&#8221;row&#8221;][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text admin_label=&#8221;Texto&#8221; background_layout=&#8221;light&#8221; text_orientation=&#8221;justified&#8221; use_border_color=&#8221;off&#8221; border_color=&#8221;#ffffff&#8221; border_style=&#8221;solid&#8221;]<\/p>\n<p>O festival de audiovisual de Pernambuco, o CinePE, come\u00e7ou agitado no Cinema S\u00e3o Luiz, sendo marcado por uma plateia extremamente participativa, sem receio de vaiar nomes de autoridades e apoiadores, nem mesmo de demonstrar insatisfa\u00e7\u00e3o com os atuais governos brasileiros, algo que ganha for\u00e7a nos j\u00e1 conhecidos gritos de \u201cFora Temer\u201d. Essa atitude vibrante e provocadora ecoou nas apresenta\u00e7\u00f5es das obras exibidas nessa primeira noite, onde a pol\u00edtica tamb\u00e9m voltava nas palavras dos realizadores e apresentadores. Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando a carioca <strong>Yasmim Dias<\/strong>, diretora do curta &#8220;Marias&#8221;, foi ovacionada ao contar o processo de produ\u00e7\u00e3o deste pequeno grande document\u00e1rio que aborda a viol\u00eancia contra as mulheres, sendo uma das personagens principais ela mesmo, ao narrar a morte de sua m\u00e3e, v\u00edtima de um feminic\u00eddio.<br \/>\n\tOutro momento alto da noite foi a homenagem para a cineasta Pernambucana <strong>K\u00e1tia Mesel<\/strong>, primeira mulher a participar de um festival de cinema brasileiro, algo ocorrido apenas em 1973. Dona de uma filmografia extensa (computa-se mais de 300 obras de sua autoria), Mesel ainda passa abaixo do radar para muitos e uma homenagem \u00e9 uma forma de iluminar sua carreira, principalmente para as novas gera\u00e7\u00f5es. Em sua fala, K\u00e1tia Mesel define-se como uma realizadora de outro tempo e detalhe sua passagem das filmagens em c\u00e2meras super 8 para a realiza\u00e7\u00e3o em 35 mil\u00edmetros. Nesse processo ela traz a mem\u00f3ria de um cinema realizado com extremo cuidado, onde um olhar acertado passava por uma preocupa\u00e7\u00e3o em registrar apenas o necess\u00e1rio naquela m\u00eddia fotossens\u00edvel, onde o racionar, o conceituar e o emocionar vinha antes do que o registrar. K\u00e1tia Mesel com sua fala e seus filmes demonstra que nomes como o dela devem ser resgatados com urg\u00eancia hist\u00f3rica.<br \/>\n\tAp\u00f3s esse primeiro momento o p\u00fablico finalmente teve acesso aos filmes, nas suas sess\u00f5es curtas, separados em duas mostras: a Pernambucana e a sele\u00e7\u00e3o nacional. Al\u00e9m disso, a noite de abertura contou com duas obras fora de competi\u00e7\u00e3o, o curta &#8220;Desculpe, me afoguei&#8221; e o longa &#8220;Mulheres Alteradas&#8221;. Vamos aos filmes. <\/p>\n<p><strong>Cinema \u00e9 compromisso<\/strong><br \/>\n\tTalvez os dois filmes que tenham chamado mais aten\u00e7\u00e3o nesse primeiro dia contenham em sua ess\u00eancia uma necessidade de expor realidades emerg\u00eancias, onde o fazer cinematogr\u00e1fico constitui-se por uma forma de comprometimento social. No curta &#8220;Marias&#8221;, a diretora e personagem de seu document\u00e1rio diz em um momento, ao relatar a tr\u00e1gica morte de sua m\u00e3e pelas m\u00e3os de seu ex-marido, que ela prometeu virar esse jogo, demonstrar que nada daquilo foi em v\u00e3o e que ela ainda faria a m\u00e3e se orgulhar desse compromisso, algo que se reflete imensamente no filme. Yasmim Diaz, mais do que transformar dor em arte, escancara sem medo e sem concess\u00f5es essa realidade. Os depoimentos de outras quatro mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia s\u00e3o duros e secos, chocantes e alarmantes. N\u00e3o h\u00e1 como ficar impass\u00edvel diante de &#8220;Marias&#8221;. A mistura entre depoimentos, narra\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio caso particular da diretora e sequ\u00eancias coreografadas com modelos representando a viol\u00eancia contra a mulher fazem um filme forte, um testemunho e um testamento emergencial. &#8220;Marias&#8221; fica num lugar lim\u00edtrofe entre o comprometimento e at\u00e9 mesmo a um sensacionalismo, a utiliza\u00e7\u00e3o de trechos de um programa como &#8220;Cidade Alerta&#8221;, a utiliza\u00e7\u00e3o da trilha musical e os elementos sonoros, promovem uma esp\u00e9cie de choque quase for\u00e7ado ao espectador, algo que n\u00e3o apaga a relev\u00e2ncia do curta. Parece que esta quest\u00e3o prov\u00e9m muito mais de uma falta de um ajuste fino, de uma consci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos poderes das ferramentas audiovisuais. Mas talvez n\u00e3o exista tempo para pensar nesse quesito quando a necessidade de expor um problema \u00e9 t\u00e3o grande.<br \/>\n\t O compromisso tem\u00e1tico \u00e9 visto em &#8220;Desculpe, me afoguei&#8221;, anima\u00e7\u00e3o realizada para e pelo programa &#8220;M\u00e9dicos Sem Fronteiras&#8221;, realizado por <strong>Hussein Nakhal<\/strong> e <strong>David Hachby<\/strong>. Talvez aqui exista justamente essa consci\u00eancia da forma f\u00edlmica que algumas vezes n\u00e3o \u00e9 sentida em &#8220;Marias&#8221;, algo que a jovem realizadora com certeza encontrar\u00e1 ao longo de sua carreira. &#8220;Desculpe, me afoguei&#8221; \u00e9 uma esp\u00e9cie de dramatiza\u00e7\u00e3o de uma suposta carta de um imigrante que se afogou no Mediterr\u00e2neo numa tentativa de chegar \u00e0 Europa. A anima\u00e7\u00e3o extremamente precisa n\u00e3o tenta apenas traduzir o que \u00e9 dito na carta em imagens, mas consegue fazer uma an\u00e1lise muito concreta de uma sociedade que deixa faltar o essencial, a falta de humanidade. A anima\u00e7\u00e3o constitui-se a partir dessa n\u00e3o presen\u00e7a, onde as figuras e os locais humanos tomam a forma de ru\u00eddos imag\u00e9ticos, um chuvisco televiso que marca essas imagens humanas. &#8220;Desculpe, me afoguei&#8221; \u00e9 um filme raio-x, onde os tons de cinza mostram um ambiente nocivo e adoecido, uma incapacidade do olhar, uma incapacidade de enxergar esses espa\u00e7os humanos como forma de conectar-se ao outro. Um filme que faz um diagn\u00f3stico preciso utilizando a anima\u00e7\u00e3o como forma essencial de fazer esse exame. <\/p>\n<p><strong>Em Busca de um Estilo<\/strong><br \/>\n\t\u00c9 totalmente comum nos curtas-metragens que exista uma ideia est\u00e9tica, um caminho para encontrar um estilo de cinema a ser seguido, trazendo de forma reconhec\u00edvel refer\u00eancias e escolas cinematogr\u00e1ficas. A sele\u00e7\u00e3o do CinePE n\u00e3o \u00e9 diferente, e a maioria dos filmes vistos nessa primeira noite caminhavam nessa dire\u00e7\u00e3o, culminando na apresenta\u00e7\u00e3o do longa de abertura que em linhas gerais parte de um grande exerc\u00edcio de estilo.<br \/>\n\tAs duas anima\u00e7\u00f5es pernambucanas demonstram em seus tra\u00e7os essa aproxima\u00e7\u00e3o com escolas diferentes, algo que materializa demais essa busca por um estilo. &#8220;Dia-Um&#8221;, de <strong>Nat\u00e1lia Lima<\/strong>, at\u00e9 mesmo por sua pequena dura\u00e7\u00e3o, apenas dois minutos, demonstra um apre\u00e7o por sua forma, o tra\u00e7o que dialoga claramente com o estilo nip\u00f4nico, principalmente dos est\u00fadios Ghibli, \u00e9 o que de fato chama aten\u00e7\u00e3o para o filme. Algo parecido acontece com &#8220;O Consertador de Coisas Mi\u00fadas&#8221;, que atrav\u00e9s de um tra\u00e7o simples chama aten\u00e7\u00e3o para um personagem que busca resgatar coisas antigas, quase uma recusa do diretor, <strong>Marcos Buccini<\/strong>, por uma forma mais sofisticada, onde o estilo acaba chamando aten\u00e7\u00e3o justamente por certo desprendimento est\u00e9tico, at\u00e9 mesmo certa recusa estil\u00edstica \u00e9 uma firma\u00e7\u00e3o de qual cinema quer se fazer.<br \/>\n\tAlgo que fica ainda mais forte nos filmes da competitiva nacional, em &#8220;Sob o Del\u00edrio de Agosto&#8221; e &#8220;O Abismo&#8221;. O primeiro partindo de um suspense psicol\u00f3gico faz quest\u00e3o de acentuar na montagem, na composi\u00e7\u00e3o de planos e na atua\u00e7\u00e3o uma constru\u00e7\u00e3o narrativa marcante, a m\u00e3o do diretor \u00e9 sentida, parece justamente uma vontade de se afirmar como mente pensante daquela obra. &#8220;Sob o Del\u00edrio de Agosto&#8221; passa muito mais pela forma de retratar o que seu protagonista sente, um homem marcado pela viol\u00eancia que trabalha no abate e \u00e9 dominado por seus pesadelos e mem\u00f3rias, do que realmente entender o que aquele ser passa. A escolha por fluxos de loucuras, marcados por uma montagem r\u00e1pida, com planos gerais de grande dura\u00e7\u00e3o, demonstram um cinema que deseja se encontrar num mar de refer\u00eancias muitas vezes antag\u00f4nicas, algo sentido a todo o momento no filme.<br \/>\n\t\u00c9 um pouco o que se passa em &#8220;O Abismo&#8221;, claramente um exemplar de cinema de montagem, onde alguns elementos b\u00e1sicos do fazer cinema s\u00e3o acentuados, basicamente o ator, a loca\u00e7\u00e3o e a edi\u00e7\u00e3o do filme. \u00c9 nessa forma simples de fazer cinema que o diretor <strong>Ivan de Angelis<\/strong> constr\u00f3i toda sua fic\u00e7\u00e3o a partir de um filme formal, apoiado justamente nas ferramentas audiovisuais, extrapolando suas utiliza\u00e7\u00f5es e seus significados. A hist\u00f3ria de um porteiro preso numa situa\u00e7\u00e3o surreal, que \u00e9 a de nunca chegar ao t\u00e9rreo, preso entre o elevador e as escadas de servi\u00e7o, passa justamente por um exerc\u00edcio de linguagem, onde a edi\u00e7\u00e3o torna essa impossibilidade fact\u00edvel. Talvez, a grande quest\u00e3o do curta surge por acreditar que desse exerc\u00edcio quase metalingu\u00edstico surja uma conclus\u00e3o t\u00e3o filos\u00f3fica para a narrativa, algo que funciona, mas que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o surpreendente ou pouco \u00f3bvia. Se &#8220;O Abismo&#8221; \u00e9 um filme sobre um sentimento mec\u00e2nico, um se perder no automatismo, h\u00e1 necessidade de afirmar que a pr\u00f3pria obra acredita demais na transcend\u00eancia das ferramentas audiovisuais. Como exerc\u00edcio \u00e9 extremamente funcional, mas falta algo para ser t\u00e3o conclusivo quanto a obra acredita ser.<br \/>\n\t\u00c9 tamb\u00e9m a partir da forma que &#8220;Mulheres Alteradas&#8221; chega a sua personalidade. Se h\u00e1 uma necessidade de renova\u00e7\u00e3o na com\u00e9dia brasileira, vide uma reca\u00edda desse g\u00eanero t\u00e3o popular nas bilheterias, o longa de estreia de <strong>Luis Pinheiro<\/strong> prop\u00f5e isso justamente atrav\u00e9s do estilo. Baseado numa s\u00e9rie de quadrinhos, o filme foca em conflitos comuns da mulher contempor\u00e2nea, e temas que podem ser vistos em uma s\u00e9rie de filmes e seriados brasileiro ganham contornos diferenciados justamente por sua est\u00e9tica. Contaminando-se dos estilos cartunesco das HQs,&#8221;Mulheres Alteradas&#8221; parte de uma hiper-constru\u00e7\u00e3o, onde a fotografia extremamente flu\u00edda com planos-sequ\u00eancias at\u00edpicos, a dire\u00e7\u00e3o de arte extremamente colorida e as atua\u00e7\u00f5es caricatas fazem que o filme fuja de um t\u00edpico recorte naturalista. Se ainda existe a possiblidade problematizar as quest\u00f5es inseridas no filme, como a representa\u00e7\u00e3o da mulher e sua constante depend\u00eancia masculina, ou at\u00e9 mesmo como essas atua\u00e7\u00f5es exageradas ajudam apenas a trocar um estere\u00f3tipo por outro, \u00e9 necess\u00e1rio afirmar como a proposta estil\u00edstica provinda de uma s\u00e9rie de outras refer\u00eancias (quadrinhos, videoclipes e as novas s\u00e9ries) podem gerar um ganho a temas j\u00e1 vistos in\u00fameras vezes. No fim quase tudo se resume a estilo.<\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>22\u00b0 edi\u00e7\u00e3o do festival pernambucano come\u00e7ou na \u00faltima quinta-feira.<\/p>","protected":false},"author":50,"featured_media":72657,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1,9067],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72660"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72660"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72660\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72662,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72660\/revisions\/72662"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/72657"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72660"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}