{"id":72696,"date":"2018-06-05T14:37:11","date_gmt":"2018-06-05T17:37:11","guid":{"rendered":"http:\/\/supercinemaup.com\/?p=72696"},"modified":"2018-06-05T14:37:11","modified_gmt":"2018-06-05T17:37:11","slug":"cinepe-racismo-e-explorado-em-curtas-do-festival","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/cinepe-racismo-e-explorado-em-curtas-do-festival\/","title":{"rendered":"CinePE | Racismo \u00e9 explorado em curtas do festival"},"content":{"rendered":"<p>[et_pb_section admin_label=&#8221;section&#8221;][et_pb_row admin_label=&#8221;row&#8221;][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text admin_label=&#8221;Texto&#8221; background_layout=&#8221;light&#8221; text_orientation=&#8221;justified&#8221; use_border_color=&#8221;off&#8221; border_color=&#8221;#ffffff&#8221; border_style=&#8221;solid&#8221;]<\/p>\n<p>O CinePe segue a todo vapor na capital pernambucana, na noite da \u00faltima segunda mais oito obras foram exibidas, entre curtas da mostra de Pernambuco e da competi\u00e7\u00e3o nacional, al\u00e9m do longa Henfil, de <strong>Angela Zo\u00e9<\/strong>, numa sele\u00e7\u00e3o que vai demonstrando maturidade a cada dia. Nesse dia quatro, come\u00e7a a se desenhar curtas que podem ser angariados no festival, mas ainda mais importante que isso, esses filmes revelam profundas reflex\u00f5es no pr\u00f3prio centro de sua feitura, o que fazem deles obras extremamente relevantes, obras cinematogr\u00e1ficas conscientes de sua pot\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Os curtas: apropriando-se de formatos hegem\u00f4nico<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito curioso como muitas vezes uma sele\u00e7\u00e3o e uma programa\u00e7\u00e3o colocam dois curtas t\u00e3o diferentes numa mesma noite e apesar de suas diferen\u00e7as, percebe-se apenas as suas conex\u00f5es e seus di\u00e1logos. \u00c9 justamente isso que acontece com dois filmes que mais impressionam na mostra competitiva, \u201cUniverso Preto Paralelo\u201d, de <strong>Rubens Passaro<\/strong>, e \u201cPeripat\u00e9tico\u201d, de <strong>J\u00e9ssica Queiroz<\/strong>, dois realizadores negros de S\u00e3o Paulo que abordam de formas diferentes o racismo institucionalizado, cada um a sua maneira, cada um beirando o brilhantismo do registro.<\/p>\n<p>Mais do que um tema em comum realizado por quem sente de perto as consequ\u00eancias desse fato, ambos os curtas-metragens utilizam-se de ferramentas de representa\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicas, que ajuda a constituir esse sentimento de racismo constante, para fazer sua pr\u00f3pria cr\u00edtica ao sistema. \u00c9 como se os realizadores tivessem consci\u00eancia de fazer com que o tiro saia pela culatra por uma arma j\u00e1 extremamente utilizada, mais do que isso, mostra como se pode aprender a manusear essas armas a quest\u00f5es libert\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u201cUniverso Preto Paralelo\u201d, atrav\u00e9s de imagens e sons de arquivo, faz um paralelo da escravid\u00e3o com o per\u00edodo da ditadura militar no Brasil. Passagens hist\u00f3ricas traumatizantes que partem da retirada da humanidade atrav\u00e9s da viol\u00eancia, no centro das duas a popula\u00e7\u00e3o negra. Rubens Passaro utiliza na trilha sonora depoimentos da comiss\u00e3o da verdade, enquanto se v\u00ea retratos do per\u00edodo escravagista, de forma que aquilo que se ouve modifica por completo as imagens na tela. H\u00e1 uma reinterpreta\u00e7\u00e3o de retratos que j\u00e1 fazem parte de um imagin\u00e1rio visual do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Rubens Passaro, dessa forma, apropria-se por completo do sistema imag\u00e9tico proposto pelo pr\u00f3prio branco, na constru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O realizador se utiliza do retrato hegem\u00f4nico para mostrar o quanto \u00e9 vazio aquele simulacro pintado no per\u00edodo colonial, no imp\u00e9rio e que voltou a ser escancarado (uma vez que n\u00e3o acabou e ainda segue presente) na ditadura militar. \u00c9 como se \u201cUniverso Preto Paralelo\u201d destitu\u00edsse um lugar de paz racial, que coroa o branco, atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o visual. Imagem tamb\u00e9m \u00e9 discurso, e uma an\u00e1lise sint\u00e1tica dela pode revelar mais mentiras do que verdades e \u201cUniverso Preto Paralelo\u201d escancara essa vers\u00e3o extraoficial, utilizando essas imagens hegem\u00f4nicas.<\/p>\n<p>De forma um pouco mais sutil, Jessica Queiroz faz o mesmo em \u201cPeripat\u00e9tico\u201d, filme que j\u00e1 ganhou grande repercuss\u00e3o e que textos relevantes possam ser mais esclarecedores que este. O curta \u00e9 narrado pela protagonista Simone, uma jovem negra da periferia de S\u00e3o Paulo buscando seu primeiro emprego nos conturbados dias de maio de 2006, em meio aos ataques do PCC na capital paulista. Ela conta a hist\u00f3ria de outros dois jovens, uma amiga preparando-se para o vestibular e outro que ainda pretende ficar no esquema videogame e desenho animado.<\/p>\n<p>Queiroz recha\u00e7a o clich\u00ea do cinema pol\u00edtico: a est\u00e9tica crua, a viol\u00eancia escancara na tela, a c\u00e2mera na m\u00e3o que se confunde com urg\u00eancia, estes artif\u00edcios s\u00e3o substitu\u00eddos por um filme pop, colorido, musical e divertido. A periferia \u00e9 colorida, \u00e9 vibrante, sem deixar de abordar as suas problem\u00e1ticas. Os pensamentos de Simone s\u00e3o ilustrados por efeitos visuais que grafitam as paredes de suas ruas, os di\u00e1logos se refletem em met\u00e1foras presentes bem marcadas, assim como uma c\u00e2mera que chama aten\u00e7\u00e3o justamente para uma constru\u00e7\u00e3o c\u00eanica afetiva, que n\u00e3o faz de seus personagens meros objetos de estudos, mas sim seres complexos, no limite de uma juventude que vive com medo de ser perdida \u2013 seja por n\u00e3o passar no vestibular, por n\u00e3o conseguir passar em um emprego, ou por ser mais um n\u00famero nas estat\u00edsticas de mortes feitas por policiais na periferia.<\/p>\n<p>Com esse apelo popular, Jessica Queiroz faz um filme onde sua forma quebra com uma s\u00e9rie de clich\u00eas presentes nesse retrato perif\u00e9rico, o que torna seu filme diferenciado num amplo cen\u00e1rio, \u00e9 dessa diferencia\u00e7\u00e3o que seu discurso surge com uma for\u00e7a ainda maior. A diretora usa as ferramentas pops que comumente colocam o negro como um simples empregado na televis\u00e3o, a fim de dar for\u00e7a para aquela narrativa comum na periferia, como se ela dissesse \u201colha como tamb\u00e9m podemos nos representar\u201d e \u201colha como somos\u201d. Jessica Queiroz joga com as regras do jogo, num sistema agrad\u00e1vel a um estilo de filme comercial, para no seu final quebrar todas as regras, todos os cen\u00e1rios, literalmente falando, e deixar explicitamente o seu recado. Um basta que passa pelo recado de que negros perif\u00e9ricos tamb\u00e9m podem usar o cinema da forma que eles bem entenderem, e o pop \u00e9 uma dessas ferramentas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Personagem e o filme<\/strong>:<\/p>\n<p>O longa da noite foi \u201cHenfil\u201d, de <strong>Angela Zo\u00e9<\/strong>, document\u00e1rio que foca na vida de seu protagonista t\u00edtulo, o inquieto cartunista que ficou famoso por suas charges no Pasquim, mas que tamb\u00e9m teve relevante trabalhos como jornalista e escritor, figura ic\u00f4nica da cultura brasileiro durante a \u00e9poca da ditadura militar. O filme logo de cara exp\u00f5e seu objetivo, trazer para a atualidade a figura de Henfil, numa forma de manuten\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o do pensamento de nomes que nunca poder\u00e3o ser esquecidos pelo povo brasileiro. Angela Zo\u00e9 parte quase de uma obriga\u00e7\u00e3o com a cultura recente do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dessa forma, o document\u00e1rio arma uma ferramenta, certo dispositivo para que essa hist\u00f3ria seja recontada. Uma s\u00e9rie de jovens animadores e ilustradores s\u00e3o convidados para fazerem uma pequena anima\u00e7\u00e3o com os personagens criados pelo cartunista. Assim, a c\u00e2mera filma os garotos pesquisando e aprendendo sobre o protagonista do filme, como se aquele aprendizado passasse para o p\u00fablico tamb\u00e9m. Naquelas salas de encontros surgem pessoas pr\u00f3ximas a Henfil, como Ziraldo, Jaguar e tantos outros, assim o filme tamb\u00e9m foge do jeito que pode das famigeradas entrevistas, partindo para este recurso apenas quando realmente necess\u00e1rio. Fator que d\u00e1 uma din\u00e2mica mais interessante a um document\u00e1rio bastante informativo.<\/p>\n<p>At\u00e9 por esses encontros focarem nos personagens do cartunista, o retrato feito ali parte muito mais para o seu lado profissional, fazendo uma cronologia de sua carreira e import\u00e2ncia. Todavia h\u00e1 um elemento que d\u00e1 uma dimens\u00e3o maior para aquele protagonista, imagens de arquivos de filmes caseiros realizados pelo pr\u00f3prio Henfil, algo que desperta um real interesse por aquela figura, materializando aquilo que s\u00f3 se ouve falar.<\/p>\n<p>Talvez o fator surpresa dessas imagens, que nem a cineasta estava esperando, seja o ponto mais forte do filme, mas tamb\u00e9m algo que reflete certo descompasso naquele document\u00e1rio. A persona de Henfil \u00e9 extremamente interessante, ocupando a tela de forma sem igual, h\u00e1 um desejo de ver mais daquele homem falando, compartilhando com o p\u00fablico seus pensamentos de forma direta, sem a media\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria alheia. \u201cHenfil\u201d \u00e9 engra\u00e7ado, ir\u00f4nico e inteligente, apenas com sua fala entende-se todo seu processo criativo e as coisas que queria fazer. Dessa forma, o filme tem uma queda quando esse protagonista n\u00e3o est\u00e1 em cena, como se fosse mostrado apenas ap\u00eandices textuais, quando o conte\u00fado est\u00e1 de verdade naquele ser.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que muito das imagens que foram gravadas de Henfil se perderam com o tempo, e pensar que ele \u00e9 uma figura recente, s\u00f3 demonstra como a mem\u00f3ria de um pa\u00eds com seus pensadores \u00e9 extremamente fr\u00e1gil, o que torna esse resgate f\u00edlmico ainda mais relevante. \u201cHenfil\u201d tem um personagem incr\u00edvel que pouco aparece, o que faz a obra e o p\u00fablico sentirem demais a sua falta.<\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E tamb\u00e9m, Henfil document\u00e1rio em longa hom\u00f4nimo.<\/p>","protected":false},"author":50,"featured_media":72698,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1,2421,9067,2423],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72696"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72696"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72696\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72699,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72696\/revisions\/72699"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/72698"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72696"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}