{"id":73936,"date":"2019-03-20T20:28:38","date_gmt":"2019-03-20T23:28:38","guid":{"rendered":"http:\/\/supercinemaup.com\/?p=73936"},"modified":"2019-06-05T11:03:17","modified_gmt":"2019-06-05T14:03:17","slug":"poderoso-simbolico-e-reflexivo-nos-e-o-reforco-do-auge-cinematografico-de-jordan-peele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/poderoso-simbolico-e-reflexivo-nos-e-o-reforco-do-auge-cinematografico-de-jordan-peele\/","title":{"rendered":"Poderoso, simb\u00f3lico e reflexivo, \u201cN\u00f3s\u201d \u00e9 o refor\u00e7o do auge cinematogr\u00e1fico de Jordan Peele"},"content":{"rendered":"<p>[et_pb_section bb_built=&#8221;1&#8243;][et_pb_row][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.12.2&#8243;]<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Somos nossos piores inimigos&#8221;. Viver em sociedade exige determinadas compreens\u00f5es e respeito. No entanto, os inimigos v\u00eam, cada vez mais, retomando suas for\u00e7as, funcionando como um verdadeiro muro para espec\u00edficas ideologias. Em <strong>Corra<\/strong> (2017), <strong>Jordan Peele<\/strong> mostrou para o que veio de verdade, mesmo depois de j\u00e1 ter feito muita hist\u00f3ria na com\u00e9dia americana. A partir do terror, Peele enxergou uma forma de ser mais incisivo em sua mensagem e vis\u00e3o sobre, n\u00e3o s\u00f3 a sociedade americana, mas tamb\u00e9m sobre o pr\u00f3prio ser humano. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto o cineasta escolheu uma cr\u00edtica mais direta em <strong>Corra<\/strong>, aqui, em <strong>N\u00f3s<\/strong>, ele n\u00e3o cansa de trabalhar simbolismos e met\u00e1foras poderosas, e ainda assim, conseguir cutucar de forma direta a desigualdade e repress\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com determinados l\u00edderes mostrando cada vez mais sua face, o mundo se mostrou um ringue, onde muitos se viram no direito de declarar seu \u00f3dio e o seu pior lado por se sentirem livres das consequ\u00eancias. Como produtor, Peele esteve ao lado de <strong>Spike Lee<\/strong> quando o mesmo decidiu tratar exatamente sobre isso em <a href=\"http:\/\/supercinemaup.com\/sem-super-poderes-tecnologia-ou-ficcao-infiltrado-na-klan-evidencia-os-perigos-do-extremismo\/\"><strong>Infiltrado na Klan<\/strong><\/a> (2018). Preconceitos de s\u00e9culos passados continuam mostrando sua face ainda hoje, e, por mais triste que pare\u00e7a, esses inimigos est\u00e3o tomando o lugar. Do mesmo modo que essas minhas an\u00e1lises n\u00e3o s\u00e3o gratuitas, nada em <strong>N\u00f3s<\/strong> \u00e9 aleat\u00f3rio. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por mais que Peele inicie sua obra seguindo uma cl\u00e1ssica linha do g\u00eanero, nada ali entregue \u00e9 desimportante, nem as informa\u00e7\u00f5es sobre os esgotos e nem a situa\u00e7\u00e3o de desorienta\u00e7\u00e3o de uma jovem crian\u00e7a. Nesse ponto, <strong>N\u00f3s<\/strong> se torna um filme de observa\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Peele n\u00e3o chega ao n\u00edvel de Aronofsky de construir uma narrativa mais complexa, composta 100% com met\u00e1foras b\u00edblicas. A escolha de Peele, no entanto, foi de fazer um filme d\u00fabio, para conversar ainda mais com seu aproveitamento dos <strong>Doppelgangers<\/strong> (ser fant\u00e1stico das lendas germ\u00e2nicas que possui o dom de representar a c\u00f3pia id\u00eantica de uma pessoa). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em <strong>N\u00f3s<\/strong>, Peele trabalha a dualidade do come\u00e7o ao fim. Sua dire\u00e7\u00e3o se aproveita da t\u00e9cnica espelhada para suas concep\u00e7\u00f5es. A c\u00e2mera n\u00e3o cansa de trazer seus conceitos d\u00fabios atrav\u00e9s do expl\u00edcito e do impl\u00edcito, aproveitando-se do espelho para contar uma cena ou colocar dois objetos iguais no mesmo plano, por\u00e9m os dois sendo muito diferentes. Tanto no cinema quanto na vida real, o espelho n\u00e3o representa nossa verdadeira persona. Em filmes, apresentar um personagem atrav\u00e9s do espelho significa mostrar que aquela n\u00e3o \u00e9 sua vida verdadeira, mas sim uma vers\u00e3o dela. Na vida real, n\u00e3o deixa de ser a mesma coisa. Levantar a m\u00e3o direita em frente do espelho, faz parecer ser a esquerda. Por mais inferior que seja, o recente <a href=\"http:\/\/supercinemaup.com\/nao-olhe-abraca-o-terror-psicanalista-e-faz-um-estudo-apreensivo-sobre-o-desejo-humano\/\"><strong>N\u00e3o Olhe<\/strong><\/a> (2019) entregou esse mesmo conceito, mas de uma maneira bem expl\u00edcita, at\u00e9 pelo pr\u00f3prio uso do espelho. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui, Peele faz isso atrav\u00e9s de sutilezas, como quando ele apresenta duas aranhas, uma, de pel\u00facia e grande; enquanto a outra, real e pequena. Ou dois barcos. Um, iate, grande, rico e charmoso, e o outro, bote, pequeno, pobre e deselegante. Ou as pr\u00f3prias fam\u00edlias presentes no longa. As duas, compostas por quatro integrantes, uma negra e a outra branca. Neste ponto, especificamente, o roteiro realiza uma das muitas cr\u00edticas sociais sobre a realidade americana, focando, no caso, na desigualdade socioecon\u00f4mica. Al\u00e9m, claro, de trabalhar na trama central, com o uso dos Doppelgangers de cada indiv\u00edduo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isso \u00e9 s\u00f3 uma primeira an\u00e1lise sobre as diversas camadas que <strong>N\u00f3s<\/strong> estabelece em apenas duas horas de longa. A dualidade impl\u00edcita que Peele traz est\u00e1 na t\u00e9cnica cinematogr\u00e1fica da obra. Com a dire\u00e7\u00e3o, Peele consegue trazer dois filmes em um s\u00f3. Atrav\u00e9s das camadas mais expl\u00edcitas, o cineasta entrega um roteiro mais expositivo e uma narrativa mais popular, com os tons c\u00f4micos bem encaixados. Por outro lado, Peele tamb\u00e9m traz uma outra vis\u00e3o mais impl\u00edcita, n\u00e3o explicando determinadas situa\u00e7\u00f5es, deixando o p\u00fablico refletir por si s\u00f3 sobre determinados pontos. Por\u00e9m, mantendo a narrativa fechada que ele quis contar. <\/span><\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][et_pb_row][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_image _builder_version=&#8221;3.12.2&#8243; src=&#8221;http:\/\/supercinemaup.com\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/N\u00f3s2.png&#8221; \/][\/et_pb_column][\/et_pb_row][et_pb_row][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.12.2&#8243;]<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>N\u00f3s<\/strong>, ent\u00e3o, comprova ainda mais a evolu\u00e7\u00e3o do americano como cineasta. Seu brilhantismo tamb\u00e9m est\u00e1 em sua constru\u00e7\u00e3o do terror. O diretor, produtor e roteirista n\u00e3o s\u00f3 trabalha tudo o que o g\u00eanero prop\u00f5e, com toda a tens\u00e3o envolta de cenas mais nervosas, usando planos fechados e efeitos sonoros fortes, como utiliza do terror para criticar, algo que o g\u00eanero precisa aprender a fazer mais e algo que o p\u00fablico precisa respeitar. Filmes de terror, aos poucos, acabaram perdendo sua for\u00e7a devido a obras vazias, mas tamb\u00e9m pelo fato de um determinado p\u00fablico classificar o g\u00eanero como um produto apenas para tomar sustos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, o estilo sempre estabeleceu uma camada mais profunda para determinados assuntos, o que enfraquece o uso de termos nojentos como \u201cnovo terror\u201d. Como o pr\u00f3prio <strong>Jordan Peele<\/strong> publicou em seu <strong>Twitter<\/strong>, <strong>N\u00f3s<\/strong> \u00e9 um filme de horror. N\u00e3o s\u00f3 por toda a sua profundidade, mas por trabalhar com uma realidade monstruosa, onde os maiores medos est\u00e3o tomando forma e dominando.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao fazer isso, o cineasta \u00e9 tecnicamente formid\u00e1vel. Tanto o roteiro quanto a dire\u00e7\u00e3o s\u00e3o surpreendentes. A forma como seu texto constr\u00f3i a narrativa, trabalhando perfeitamente passado e presente &#8211; brincando novamente com a dualidade &#8211; transporta o espectador para uma experi\u00eancia. Apesar dos diferentes patamares, \u00e9 muito f\u00e1cil lembrar de <strong>David Lynch<\/strong> em <strong>N\u00f3s<\/strong>, principalmente ap\u00f3s a terceira &#8211; e suposta \u00faltima &#8211; temporada de <strong>Twin Peaks<\/strong>. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o vem s\u00f3 a partir dos uso de Doppelgangers, mas tamb\u00e9m pela maneira como os dois trabalham a loucura ou a representa\u00e7\u00e3o da maldade e de nossas piores vers\u00f5es e, principalmente pela conclus\u00e3o niilista existente nas duas obras. Outra compara\u00e7\u00e3o \u00e9 na parte de atua\u00e7\u00e3o. Lynch consegue tirar o melhor de seu elenco e Peele realiza a mesma fa\u00e7anha. Por mais que o jovem <strong>Evan Alex<\/strong> seja o principal ponto negativo do elenco &#8211; devido a uma falta de experi\u00eancia profissional &#8211; todos os outros presentes entregam trabalhos suficientemente maduros. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Winston Duke<\/strong> oferece o principal tom c\u00f4mico que o filme precisa e que consegue ser bem mais equilibrado do que <strong>Lil Rel Howery<\/strong> em <strong>Corra<\/strong>. Isso porque Peele cria uma justificativa bem mais plaus\u00edvel para o uso do humor dentro da sua narrativa. Devido as polaridades do longa, caso o personagem \u201cnormal\u201d de Duke entregue um tom mais c\u00f4mico, realizando constantes piadas, seu Doppelganger \u00e9, necessariamente, mais s\u00e9rio e bruto, fazendo com o que o humor em momentos inoportunos encaixem de maneira mais funcional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O destaque, por sua vez, vai para <strong>Lupita Nyong&#8217;o<\/strong>. A vencedora do Oscar n\u00e3o surpreende pela qualidade da atua\u00e7\u00e3o e encanta em suas duas vers\u00f5es. Lupita apresenta uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria n\u00e3o s\u00f3 na personagem, mas tamb\u00e9m como atriz. Mesmo com um destaque para os dois estilos de atua\u00e7\u00e3o, ela encanta como Red, com quem apresenta uma vis\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 sombria como tamb\u00e9m muito seca e direta, sendo impec\u00e1vel em fala e tamb\u00e9m corporal. Esse holofote merece aten\u00e7\u00e3o, principalmente por Lupita representar o cerne da hist\u00f3ria e ser o centro do verdadeiro significado do longa, o que justifica os constantes planos fechados nela. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>N\u00f3s<\/strong>, ent\u00e3o, apresenta-se como algo muito al\u00e9m de sua superf\u00edcie. <strong>Jordan Peel<\/strong>e decidiu ir al\u00e9m da narrativa direta de <strong>Corra<\/strong> e a partir de simbolismos e met\u00e1foras espirituais, b\u00edblicas e sociais, consegue ser t\u00e3o duro quanto em seu filme anterior. Por essas caracter\u00edsticas, <strong>N\u00f3s<\/strong> demonstra um potencial enorme para ser discutido e analisado por muito mais tempo, por sua demonstra\u00e7\u00e3o seca e brutal da nossa realidade, com retratos sociais dolorosos e reflexivos, envolvendo preconceitos, porte de arma, desigualdade social e a vit\u00f3ria do medo. Peele n\u00e3o s\u00f3 se provou um cineasta capaz, como \u00fanico e prova que ainda tem muito a nos mostrar, como <strong>N\u00f3s<\/strong>\u00a0tamb\u00e9m ainda tem muito o que ser reverenciado. <\/span><\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[et_pb_section bb_built=&#8221;1&#8243;][et_pb_row][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.12.2&#8243;] &#8220;Somos nossos piores inimigos&#8221;. Viver em sociedade exige determinadas compreens\u00f5es e respeito. No entanto, os inimigos v\u00eam, cada vez mais, retomando suas for\u00e7as, funcionando como um verdadeiro muro para espec\u00edficas ideologias. 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