{"id":73983,"date":"2019-04-10T14:46:59","date_gmt":"2019-04-10T17:46:59","guid":{"rendered":"http:\/\/supercinemaup.com\/?p=73983"},"modified":"2019-06-05T11:01:10","modified_gmt":"2019-06-05T14:01:10","slug":"de-forma-selvagem-e-tocante-border-explora-analise-fantasiosa-sobre-a-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/de-forma-selvagem-e-tocante-border-explora-analise-fantasiosa-sobre-a-humanidade\/","title":{"rendered":"De forma selvagem e tocante, \u201cBorder\u201d explora an\u00e1lise fantasiosa sobre a humanidade"},"content":{"rendered":"<p>[et_pb_section bb_built=&#8221;1&#8243;][et_pb_row][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.12.2&#8243;]<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Festivais de cinema sempre proporcionam experi\u00eancias \u00fanicas. E quando falamos de experi\u00eancias \u00fanicas, Cannes \u00e9 a principal concentra\u00e7\u00e3o de obras singulares. Dentro de seus 73 anos, o festival foi palco de exibi\u00e7\u00f5es de cineastas como <strong>Lars Von Trier<\/strong>, <strong>Gaspar No\u00e9<\/strong> e <strong>David Lynch<\/strong>. Por mais que possam haver cr\u00edticas negativas diante v\u00e1rias obras, \u00e9 inevit\u00e1vel dizer que s\u00e3o experi\u00eancias que s\u00f3 o cinema pode proporcionar. O longa atual desse movimento &#8211; especificamente da sele\u00e7\u00e3o oficial da <strong>Mostra \u201cUm Certo Olhar\u201d<\/strong>, do <strong>Festival de Cannes<\/strong> de 2018 &#8211; \u00e9 <strong>Border<\/strong>. Seu significado explora termos como \u201cfronteira\u201d, \u201cmargem\u201d ou \u201cbordar\u201d, mas o mais pr\u00f3ximo da verdadeira mensagem do longa \u00e9 o significado direto do t\u00edtulo original. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gr\u00e4ns = limite. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, o longa sueco do diretor iraniano <strong>Ali Abbasi<\/strong> n\u00e3o possui tal termo em sua obra, principalmente ao explorar ao m\u00e1ximo sua fantasiosa, mas t\u00e3o real, narrativa. A presen\u00e7a do longa em uma mostra com o t\u00edtulo \u201cUm Certo Olhar\u201d conversa t\u00e3o bem quanto o pr\u00f3prio nome do filme. Afinal, o olhar do espectador \u00e9 direcionado diretamente para o rosto de <strong>Eva Malander<\/strong> como Tina, a for\u00e7a mais significativa de todo o longa. A sublime maquiagem envolta da atriz sueca \u00e9 o primeiro chamariz para a aten\u00e7\u00e3o se manter 100% em tela. A curiosidade passada atrav\u00e9s de seu rosto marcado por cicatrizes e seu olhar profundo, fazem de Tina uma personagem inicialmente impressionante e que transmite estranheza. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A narrativa de Abbasi aproveita disso perfeitamente ao construir uma estrutura impec\u00e1vel para sua protagonista. Em primeiro plano, vemos Tina como um ser diferente, n\u00e3o s\u00f3 pelo seu rosto, como tamb\u00e9m pela habilidade \u00fanica de \u201cler as pessoas\u201d atrav\u00e9s do olfato. A ambienta\u00e7\u00e3o da personagem, com uma moradia no meio da floresta e um trabalho como fiscal em aeroporto transmite a sensa\u00e7\u00e3o de ser uma representa\u00e7\u00e3o do instinto animal presente em cada um dos seres humanos. A sensa\u00e7\u00e3o s\u00f3 cresce ao vermos a personagem em contato com a natureza e sua rela\u00e7\u00e3o com o ambiente onde est\u00e1 inserida, sentindo-se muito mais livre quando sozinha, em contato com a floresta e ao redor dos animais. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O brilhantismo de Abbasi \u00e9 apresentado quando seu roteiro &#8211; escrito junto com <strong>Isabella Ekl\u00f6f<\/strong> &#8211; transforma essa interpreta\u00e7\u00e3o em um incr\u00edvel conto de fadas. Por mais que muitos possam enxergar a revela\u00e7\u00e3o como algo \u201cfora da caixinha\u201d, \u00e9 f\u00e1cil abra\u00e7ar a hist\u00f3ria proposta pelos dois. Apesar de filmes com criaturas fant\u00e1sticas explorarem uma ambienta\u00e7\u00e3o prop\u00edcia a elas, \u00e9 interessante a maneira como os dois trabalham a mesma situa\u00e7\u00e3o em nosso mundo real &#8211; caracter\u00edstica j\u00e1 explorada por Abbasi em <strong>Shelley<\/strong> (2016) e <strong>M For Markus<\/strong> (2011), tornando-o um grande nome das criaturas fant\u00e1sticas do cinema, ao lado de <strong>Guillermo Del Toro<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"> A quebra da expectativa e de tudo aquilo supostamente constru\u00eddo brilha os olhos daqueles que conseguem enxergar a ideia por tr\u00e1s do bizarro. O roteiro consegue muito bem ir apresentando as pistas aos poucos, para quando acontece a revela\u00e7\u00e3o, tudo criar um sentido. A revela\u00e7\u00e3o, no entanto, traz consigo o principal, por\u00e9m pequeno, defeito do longa. Enquanto toda a estrutura inicial caminhava de maneira s\u00f3bria, a virada traz uma exposi\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria. Por mais que a cena em si crie uma justificativa, a presen\u00e7a de Vore (<strong>Eero Milonoff<\/strong>) funciona, neste momento, para explicar tudo o que o espectador precisa entender para continuar naquela correnteza, mas o momento se torna muito expositivo comparado como o roteiro vinha trabalhando at\u00e9 ent\u00e3o, com di\u00e1logos constru\u00eddos com esmero e muito cuidado para criar o mist\u00e9rio em torno daquele universo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir da virada, o brilhantismo do cineasta iraniano n\u00e3o some. Em seguida da proposta j\u00e1 estabelecida, o roteiro entrega a verdadeira ideia sobre aqueles personagens e aquela realidade, e faz com o que inicialmente se mostrava bizarro, transforme-se em algo comum. Dentro de toda essa estranheza, o texto discute muito sobre o instinto humano, provando como temos a tend\u00eancia de ultrapassar limites. Diante da realidade determinada, o roteiro trabalha principalmente o preconceito com o diferente. A presen\u00e7a de Vore, al\u00e9m como expositor, funciona para Tina enxergar o mundo de uma maneira mais realista, fora de sua bolha. Essa narrativa, por mais que se aproveite de personagens fantasiosos, funciona perfeitamente como uma met\u00e1fora para nosso mundo atual, algo que <strong>X-Men<\/strong> realizou nos quadrinhos durante os anos 60. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aproveitar-se de personagens que s\u00e3o minoria para sofrerem as crueldades humanas faz com que passamos a olhar mais n\u00f3s mesmos e nossas atitudes em rela\u00e7\u00e3o a pessoas classificadas como \u201cdiferentes\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A estrutura da anima\u00e7\u00e3o <strong>Shrek<\/strong>\u00a0(2001) apresenta caracter\u00edsticas ainda mais pr\u00f3ximas de <strong>Border<\/strong>. N\u00e3o s\u00f3 pelos personagens em si, mas h\u00e1 um encaixe dentro da realidade preconceituosa. No in\u00edcio, <strong>Shrek<\/strong> vive em seu mundo, muito pr\u00f3ximo da natureza e com seu perfil selvagem &#8211; afinal, estamos falando de um ogro. Por\u00e9m, com o tempo, ele consegue se aceitar, principalmente ao encontrar algu\u00e9m como ele, a princesa <strong>Fiona<\/strong>. Mesmo que <strong>Border<\/strong> n\u00e3o traga caracter\u00edsticas infantis e animadas para sua narrativa, a hist\u00f3ria caminha de maneira semelhante. H\u00e1 uma conversa muito pr\u00f3xima dos mutantes, n\u00e3o s\u00f3 no segmento preconceituoso, mas tamb\u00e9m de vis\u00e3o de mundo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Claramente outras obras j\u00e1 exploraram o mesmo sentido, mas por j\u00e1 ter citado <strong>X-Men<\/strong>, \u00e9 interessante trazer mais uma observa\u00e7\u00e3o. Nos quadrinhos, <strong>Magneto<\/strong> e <strong>Charles Xavier<\/strong> possuem o mesmo objetivo de aceita\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, Magneto com uma ideologia para atingir esse objetivo de forma mais violenta, enquanto Charles, n\u00e3o. Em <strong>Border<\/strong>, por mais distante que esteja dos personagens de quadrinhos, entrega uma reflex\u00e3o parecida. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao todo, Border n\u00e3o s\u00f3 encanta tecnicamente, como tamb\u00e9m faz aquilo que o cinema precisa fazer: provocar e refletir. Aqui, os dois s\u00e3o predominantes, principalmente pela utiliza\u00e7\u00e3o significativa de uma criatura \u00fanica e imagin\u00e1ria, mas que trazem caracter\u00edsticas profundas e t\u00e3o reais quanto a de um ser humano. Nisso, <strong>Border<\/strong> vai al\u00e9m de ser algo bizarro e traz um reflexo sujo sobre nossa humanidade e como nossas escolhas refletem em dif\u00edceis decis\u00f5es tomadas por aqueles que perdem pela ultrapassagem de limite. <\/span><\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][\/et_pb_section]<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[et_pb_section bb_built=&#8221;1&#8243;][et_pb_row][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.12.2&#8243;] Festivais de cinema sempre proporcionam experi\u00eancias \u00fanicas. E quando falamos de experi\u00eancias \u00fanicas, Cannes \u00e9 a principal concentra\u00e7\u00e3o de obras singulares. Dentro de seus 73 anos, o festival foi palco de exibi\u00e7\u00f5es de cineastas como Lars Von Trier, Gaspar No\u00e9 e David Lynch. 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