{"id":74097,"date":"2019-05-22T22:20:15","date_gmt":"2019-05-23T01:20:15","guid":{"rendered":"http:\/\/supercinemaup.com\/?p=74097"},"modified":"2021-02-07T15:44:13","modified_gmt":"2021-02-07T18:44:13","slug":"tolkien-falta-de-foco-prejudica-bela-jornada-historica-e-linguistica-do-autor-de-o-senhor-dos-aneis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/tolkien-falta-de-foco-prejudica-bela-jornada-historica-e-linguistica-do-autor-de-o-senhor-dos-aneis\/","title":{"rendered":"\u201cTolkien\u201d | Falta de foco prejudica bela jornada hist\u00f3rica e lingu\u00edstica do autor de O Senhor dos An\u00e9is"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Trabalhar fatos hist\u00f3ricos no cinema \u00e9 uma atividade complicada. H\u00e1 uma necessidade de equil\u00edbrio entre a verdade absoluta e uma constru\u00e7\u00e3o narrativa cinematogr\u00e1fica. O que n\u00e3o \u00e9 um erro, afinal, trabalhar fatos em fic\u00e7\u00e3o d\u00e1 uma abertura para romantiza\u00e7\u00f5es e cria\u00e7\u00f5es que acrescentam nas ocorr\u00eancias de determinado per\u00edodo ou na biografia de determinada celebridade. O cinema \u00e9 recheado de obras que se aproveitam da hist\u00f3ria de uma pessoa para fazer o p\u00fablico conhec\u00ea-la ou s\u00f3 para realmente deixar uma marca definitiva sobre a vida dela. O problema est\u00e1 justamente nesse pensamento que gera um embate entre p\u00fablico e produ\u00e7\u00e3o. Afinal, um filme n\u00e3o tem a obriga\u00e7\u00e3o de transportar a realidade absoluta, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode vender como uma. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todos esses fatores englobam milhares de obras, incluindo <strong>Tolkien<\/strong>. Neste caso, por sua vez, h\u00e1 uma complica\u00e7\u00e3o maior por ser uma figura popular, diferente da hist\u00f3ria de <strong>Alan Turing<\/strong>, retratada em <strong>O Jogo da Imita\u00e7\u00e3o<\/strong> (2014), por exemplo. Escolher a biografia de <strong>John Ronald Reuel Tolkien<\/strong> \u00e9 aceitar uma miss\u00e3o muito complicada. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isso s\u00e3o s\u00f3 pela dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia &#8211; j\u00e1 que h\u00e1 certos receios quanto a adapta\u00e7\u00f5es, principalmente vindo de Christopher John &#8211; mas tamb\u00e9m pela extraordin\u00e1ria import\u00e2ncia que o escritor, professor e fil\u00f3logo tem para a cultura pop &#8211; gra\u00e7as a cria\u00e7\u00e3o do universo da <strong>Terra M\u00e9dia<\/strong> &#8211; e tamb\u00e9m no c\u00edrculo lingu\u00edstico, j\u00e1 que o mesmo era um grande estudioso e entusiasta. E s\u00e3o nesses fatores mais detalhados que <strong>Tolkien<\/strong> fere a jornada de J.R.R. como um todo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 prov\u00e1vel que uma parte dos espectadores n\u00e3o tomem conhecimento da jornada de John Ronald (como era chamado pelas pessoas mais pr\u00f3ximas) e por isso acabam n\u00e3o percebendo escolhas err\u00f4neas feitas pelo roteiro de <strong>David Gleeson<\/strong>. Mas, quem acaba tendo certo conhecimento sobre a persona, afasta-se ainda mais da narrativa constru\u00edda. Isso porque o longa\u00a0n\u00e3o passa de um recorte da vida do autor, caracter\u00edstica comum em cinebiografias de grandes nomes. No entanto, tanto Gleeson quanto o diretor <strong>Dome Karukoski<\/strong> n\u00e3o tiveram o verdadeiro cuidado de trabalhar aquilo que era realmente necess\u00e1rio e da forma correta. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O roteiro de Gleeson faz um tratamento interessante em conciliar toda a persona do autor com a amizade e seus relacionamentos com as pessoas. Nisso, ele d\u00e1 uma import\u00e2ncia significativa para a forma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do grupo T.C.B.S. (Tea Club Barrowian Society) &#8211; criado entre seus amigos da escola &#8211; e at\u00e9 para sua linda hist\u00f3ria de amor com Edith. Ainda que o foco esteja na for\u00e7a da amizade e que serviu para a emocionante &#8211; mas for\u00e7ada &#8211; conclus\u00e3o que concilia com o in\u00edcio da escrita de <strong>O Hobbit<\/strong> (1937), faltam caracter\u00edsticas essenciais para a forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter do personagem. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste ponto, h\u00e1 uma fraca explora\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o do jovem brit\u00e2nico por outras l\u00ednguas e sua admira\u00e7\u00e3o para criar suas pr\u00f3prias. Ainda que haja, tudo \u00e9 feito sem cuidado algum, algo indefens\u00e1vel ao se tratar de uma figura que viveu na base disso. Inclusive, nem o pr\u00f3prio foco narrativo \u00e9 bem trabalhado. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Da mesma forma que ocorre em <a href=\"http:\/\/supercinemaup.com\/como-um-dicionario-o-genio-e-o-louco-mistura-tudo-em-uma-unica-coisa\/\"><strong>O G\u00eanio e o Louco <\/strong><\/a>(2019), o longa procura trabalhar tudo, mas, ao mesmo tempo n\u00e3o desenvolvendo nada, for\u00e7ando determinadas costuras e relacionamentos, al\u00e9m de fugir da pr\u00f3pria viv\u00eancia do autor. Como o fato de n\u00e3o acontecer um bom desdobramento de seu gosto pela leitura de obras folcl\u00f3ricas e fant\u00e1sticas logo cedo, ou sua longa e forte rela\u00e7\u00e3o com o catolicismo &#8211; que serviu de fundamento para tratamentos de temas como tenta\u00e7\u00e3o, humildade e clem\u00eancia em suas obras &#8211; ou at\u00e9 mesmo a influ\u00eancia passada pelo seu tutor, padre Francis, quanto ao uso de cachimbo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 sim algumas dessas coloca\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, tudo muito inclu\u00eddo de maneira for\u00e7ada, pela necessidade de ter, mas sem introduzir naturalmente na narrativa, ou at\u00e9 mesmo, persistir nas mais importantes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma boa op\u00e7\u00e3o de Gleeson foi construir uma concilia\u00e7\u00e3o da vida pacata de Tolkien com seu per\u00edodo na <strong>Batalha dos Somme<\/strong>, na Fran\u00e7a, durante a <strong>Primeira Guerra Mundial<\/strong>. Visualmente, o filme ganha outra for\u00e7a com seus momentos, trazendo mais pontos dram\u00e1ticos, dando um destaque maior para a dire\u00e7\u00e3o do finland\u00eas. Neste quesito, o roteiro escolhe utilizar o cen\u00e1rio de guerra como o principal influenciador da inspira\u00e7\u00e3o de Mordor e de outras ideologias tratadas nas obras, como poder, industrializa\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o da natureza. Nisso, as cenas resultam belos momentos visuais, que misturam lindamente a realidade com a fantasia, al\u00e9m de serem os \u00fanicos momentos do longa que trazem mais do esp\u00edrito popular da <strong>Terra M\u00e9dia<\/strong>. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, cinematograficamente n\u00e3o \u00e9 o bastante para sustentar o espectador. Com seus diversos n\u00facleos, um para cada segmento &#8211; no caso, amizade, romance e lingu\u00edstica &#8211; tudo \u00e9 realizado de maneira pobre. Sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com <strong>Edith Bratt<\/strong> n\u00e3o consegue encantar. Isso que os dois, na vida real, oferecem uma linda jornada de amor, j\u00e1 que se conheceram bem jovens &#8211; sendo ela tr\u00eas anos mais velha &#8211; e passaram por altos e baixos, tanto que J.R.R. foi for\u00e7ado a ficar separado dela por tr\u00eas anos at\u00e9 atingir a alta idade, e ainda assim, reacenderam o amor. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui, a constru\u00e7\u00e3o precisou tomar medidas diferentes devido ao elenco, j\u00e1 que suas vers\u00f5es mais jovens n\u00e3o sustentavam na interpreta\u00e7\u00e3o. Ainda assim, <strong>Nicholas Hoult<\/strong> e <strong>Lily Collins<\/strong> n\u00e3o entregam uma qu\u00edmica profunda o suficiente para convencer, mesmo que Lily encante mais. Hoult, nesse ponto, tamb\u00e9m n\u00e3o consegue convencer na pele do autor, deixando a desejar quanto a toda a ess\u00eancia do brit\u00e2nico &#8211; o que pode ser justificado a partir da falta de material de estudo e at\u00e9 da falta de ajuda da fam\u00edlia Tolkien. Os pontos agrad\u00e1veis de atua\u00e7\u00e3o est\u00e3o apenas na rela\u00e7\u00e3o entre Hoult e <strong>Anthony Boyle<\/strong>, <strong>Patrick Gibson<\/strong> e <strong>Tom Glynn-Carney<\/strong>, representantes do ciclo de amizade. Isso ocorre porque Karukoski consegue estabelecer um tom mais ameno e mais natural entre os quatro amigos, gerando ent\u00e3o, uma como\u00e7\u00e3o e admira\u00e7\u00e3o por eles, o que funciona para a conclus\u00e3o mais pautada na for\u00e7a da amizade, como \u00e9 a primeira obra de J.R.R. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por mais que os pontos hist\u00f3ricos n\u00e3o sejam a principal import\u00e2ncia de uma cinebiografia, vide o j\u00e1 citado <strong>O Jogo da Imita\u00e7\u00e3o<\/strong>, h\u00e1 uma necessidade de uma narrativa respeitosa e coesa quanto a jornada de uma figura significativa. Apesar de <strong>Tolkien<\/strong> estabelecer bons momentos, sua produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 longe de ser a verdadeira marca do homem por tr\u00e1s de uma das maiores obras da fantasia e, tamb\u00e9m, da hist\u00f3ria.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalhar fatos hist\u00f3ricos no cinema \u00e9 uma atividade complicada. 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