{"id":74165,"date":"2019-06-08T00:22:12","date_gmt":"2019-06-08T03:22:12","guid":{"rendered":"http:\/\/supercinemaup.com\/?p=74165"},"modified":"2021-02-07T15:33:39","modified_gmt":"2021-02-07T18:33:39","slug":"sensivel-e-brutal-olhos-que-condenam-consegue-entregar-um-espetaculo-de-roteiro-atuacao-e-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/sensivel-e-brutal-olhos-que-condenam-consegue-entregar-um-espetaculo-de-roteiro-atuacao-e-fotografia\/","title":{"rendered":"Sens\u00edvel e brutal, &#8220;Olhos que Condenam&#8221; consegue entregar um espet\u00e1culo de roteiro, atua\u00e7\u00e3o e fotografia"},"content":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea tem o costume de consumir conte\u00fado audiovisual, certamente j\u00e1 se deparou com alguma obra baseada em fatos, as quais se utilizam da linguagem audiovisual para ilustrar um acontecimento real e desenvolver uma hist\u00f3ria de identidade pr\u00f3pria; e \u00e9 exatamente o que a Netflix se prop\u00f4s a fazer com\u00a0&#8220;Olhos Que Condenam&#8221;. Em 19 de abril de 1989, cinco adolescentes da cidade de Nova York s\u00e3o injustamente acusados de estuprar e espancar uma corredora durante a noite em um dos parques mais famosos do mundo: come\u00e7a assim a revoltante e triste hist\u00f3ria dos Cinco do Central Park.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s presenciarem um grupo de pessoas se divertindo e indo \u201cfazer arrua\u00e7a\u201d no maior parque de Nova York, os adolescentes Raymond, Kevin, Antron, Yousef e Korey tamb\u00e9m decidem ir, cada um por um motivo, para o Central Park. Nenhum dos cinco, entretanto, planejava fazer qualquer coisa errada no local, mas n\u00e3o foi assim que suas presen\u00e7as foram entendidas: ap\u00f3s um ataque brutal por parte da pol\u00edcia novaiorquina, a vida dos cinco protagonistas nunca mais foi a mesma. Naquela mesma noite, uma corredora foi estuprada e agredida no mesmo local, e as aten\u00e7\u00f5es voltaram para os cinco jovens negros (e um latino), que se tornaram os principais alvos da \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o\u201d, mesmo que n\u00e3o houvesse prova alguma contra o grupo \u2013 valendo ressaltar que, com exce\u00e7\u00e3o de Yusef e Korey, os cinco nem ao menos se conheciam.<\/p>\n<p>A miniss\u00e9rie de quatro cap\u00edtulos consegue, de forma brilhante, contar uma hist\u00f3ria que j\u00e1 seria brutal por si s\u00f3 caso fosse apenas fic\u00e7\u00e3o, mas a simples ideia de que cinco adolescentes de 14 a 16 anos realmente foram acusados, presos, espancados, abusados e desumanizados por estarem no local errada, na hora errada e (muito possivelmente) por ser negros \u00e9 suficiente para impactar qualquer espectador que disponha do m\u00ednimo de empatia. Mas, felizmente, n\u00e3o para por a\u00ed: o roteiro, a dire\u00e7\u00e3o de fotografia e os atores em cena trabalham juntos de forma extremamente harmoniosa e inteligente para contar esta hist\u00f3ria repleta de sentimento e, mais ainda, de dor.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o de planos fechados no rosto dos personagens em cenas de extremo sentimentalismo (como no momento de seus vereditos, por exemplo), demonstra um extremo cuidado com a fotografia da obra, valorizando a atua\u00e7\u00e3o dos atores que, sem sombra de d\u00favida, conseguem transparecer de forma genial o sentimento de cada um dos personagens \u2013 com destaque para a atua\u00e7\u00e3o de <strong>Jharrel Jerome<\/strong> (&#8220;Moonlight&#8221;), que conseguiu carregar o papel de Korey Wise com grande brilhantismo e como\u00e7\u00e3o tanto na adolesc\u00eancia quanto na vida\u00a0adulta. A fotografia tamb\u00e9m se destaca bastante nas transi\u00e7\u00f5es de tempo, principalmente no crescimento dos protagonistas e na indica\u00e7\u00e3o de suas mudan\u00e7as durante a \u00e9poca de pris\u00e3o, como na evolu\u00e7\u00e3o do personagem Raymond, em que a c\u00e2mera est\u00e1 em constante movimento, mostrando o personagem conversando com o pai pelo telefone, e a c\u00e2mera vai se intercalando entre o pai e o filho, s\u00f3 que Ray se encontra mais velho a cada trecho diferente da conversa.<\/p>\n<p>Em vez de continuar falando sobre as qualidades t\u00e9cnicas da obra que, por sinal, s\u00e3o muitas, \u00e9 bastante relevante comentarmos tamb\u00e9m sobre a necessidade desta miniss\u00e9rie no contexto atual n\u00e3o s\u00f3 do Brasil como do mundo, no qual vemos discursos de \u00f3dio serem repetidos incansavelmente \u2013 n\u00e3o que, em algum per\u00edodo da humanidade, tenhamos vivido em uma \u00e9poca realmente pac\u00edfica. Tanto o nome nacional quanto o original da miniss\u00e9rie (\u201cWhen They See Us\u201d) carregam um grande peso em seu significado: o racismo t\u00e3o presente no dia a dia da popula\u00e7\u00e3o negra, vindo de olhares preconceituosos que, por uma postura retr\u00f3grada e sem sentido, os enxergam como criminosos em potencial apenas pela cor de pele.<\/p>\n<p>A obra consegue alcan\u00e7ar muito bem aquilo que prop\u00f5e, contribuindo para o debate em rela\u00e7\u00e3o ao racismo e injusti\u00e7a social na contemporaneidade, satisfazendo toda e qualquer expectativa que grande parte do p\u00fablico criou sobre ela e, ao mesmo tempo, surpreendendo positivamente quem n\u00e3o a conhecia. Uma das provas de que a obra est\u00e1 gerando impacto nas pessoas \u00e9 que a ex-promotora Linda Fairstein, respons\u00e1vel pela acusa\u00e7\u00e3o e pris\u00e3o dos meninos, vem recebendo duras cr\u00edticas e acusa\u00e7\u00f5es de racismo nas redes sociais, sendo que algumas pessoas, inclusive, fizeram um abaixo assinado para que as livrarias parem de vender seus romances policiais. &#8220;Olhos que Condenam&#8221;, portanto, apresenta de forma respons\u00e1vel, sens\u00edvel e, ao mesmo tempo, brutal a hist\u00f3ria dos Cinco do Central Park, mostrando que uma hist\u00f3ria real pode apresentar um cen\u00e1rio ainda mais amedrontador, frio e cruel do que uma obra de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea tem o costume de consumir conte\u00fado audiovisual, certamente j\u00e1 se deparou com alguma obra baseada em fatos, as quais se utilizam da linguagem audiovisual para ilustrar um acontecimento real e desenvolver uma hist\u00f3ria de identidade pr\u00f3pria; e \u00e9 exatamente o que a Netflix se prop\u00f4s a fazer com\u00a0&#8220;Olhos Que Condenam&#8221;. 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