{"id":74256,"date":"2019-07-10T13:19:03","date_gmt":"2019-07-10T16:19:03","guid":{"rendered":"http:\/\/supercinemaup.com\/?p=74256"},"modified":"2021-02-07T15:24:59","modified_gmt":"2021-02-07T18:24:59","slug":"com-narrativa-proativa-inocencia-roubada-fortalece-sombria-realidade-francesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/com-narrativa-proativa-inocencia-roubada-fortalece-sombria-realidade-francesa\/","title":{"rendered":"Com narrativa proativa, \u201cInoc\u00eancia Roubada\u201d fortalece sombria realidade francesa"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em menos de um m\u00eas, o cinema franc\u00eas ganha holofotes com dois filmes provocadores com um assunto em comum. Se <strong><a href=\"http:\/\/supercinemaup.com\/gracas-a-deus-se-aproveita-de-texto-forte-para-depreciar-pedofilia\/\">Gra\u00e7as a Deus<\/a><\/strong>\u00a0(2019) conseguiu, com sua narrativa, criticar a suja atualidade envolvendo o crime de abuso infantil &#8211; que ganhou ainda mais for\u00e7a com a pol\u00eamica e confusa mudan\u00e7a no C\u00f3digo Penal &#8211; <strong>Inoc\u00eancia Roubada<\/strong> consegue provocar de uma maneira ainda mais cir\u00fargica, mas n\u00e3o t\u00e3o afrontosa quanto o longa de Ozon &#8211; muito pelo fato do mesmo envolver um \u00f3rg\u00e3o t\u00e3o admirado quanto a Igreja Cat\u00f3lica. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, <strong>Andr\u00e9a Bescond<\/strong> e <strong>Eric M\u00e9tayer<\/strong> s\u00e3o diretos em sua mensagem, al\u00e9m de conseguirem realiz\u00e1-la de maneira criativa e din\u00e2mica. Como retratado no texto do filme de Ozon, h\u00e1 maneiras padronizadas de se tratar uma narrativa quando o assunto \u00e9 pedofilia, envolvendo a jornada de descoberta e o drama das v\u00edtimas. <strong>Inoc\u00eancia Roubada<\/strong> consegue trabalhar os dois de maneira org\u00e2nica e bem encaixada na proposta ativa na mistura entre duas artes: o cinema e o teatro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por ser uma adapta\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culo teatral (e da vida real da cineasta) Andr\u00e9a e M\u00e9tayer buscam um equil\u00edbrio entre as duas linguagens, com misturas de cen\u00e1rio e di\u00e1logos org\u00e2nicos entre seus personagens. Ainda que em muitas tentativas, a mistura n\u00e3o funcione, aqui a conversa entre as duas se mant\u00e9m inseridas na proposta. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O trabalho com mem\u00f3rias abre a oportunidade para uma liberdade estrutural muito maior e \u00e9 justamente nesse ponto que momentos mais fant\u00e1sticos como voar (representa\u00e7\u00e3o do sentimento) e a pr\u00f3pria mistura de cen\u00e1rios, funcionam perfeitamente, j\u00e1 que embarcar em uma mem\u00f3ria \u00e9 como reviver o acontecimento. O funcionamento se deve tamb\u00e9m pelo humor \u00e1cido provocado no texto (tamb\u00e9m escrito pelos dois citados), mas, principalmente, pela atua\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9a. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A cineasta francesa, que faz sua estreia como profissional, atinge um amadurecimento significativo com sua personagem e entrega o peso necess\u00e1rio \u00e0 sua dif\u00edcil jornada. Muito pelo fato da pr\u00f3pria atriz reviver acontecimentos verdadeiros, ainda que adaptados.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Jornada essa muito bem explorada pela dire\u00e7\u00e3o, tanto que a vers\u00e3o crian\u00e7a da protagonista (<strong>Cyrille Mairesse<\/strong>) nunca se encontra no mesmo plano que o abusador (aqui, interpretado por <strong>Pierre Deladonchamps<\/strong>), demonstrando o cuidado dos cineastas em tratar de um delicado tema. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Ainda que haja o humor como um toque de leveza, o longa \u00e9 pesado quando precisa ser, e mant\u00e9m um sentimento amargo em diversas cenas. O tratamento em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o melhor escolhido diante outras produ\u00e7\u00f5es do tema, mas consegue manter o peso necess\u00e1rio para o indefens\u00e1vel ato. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse ponto, Deladonchamps surpreende com seu trabalho de atua\u00e7\u00e3o, transmitindo a mal\u00edcia envolta da atitude de seu personagem, al\u00e9m de ser seguro nos momentos mais dif\u00edceis do longa e que exigem uma entrega mais complexa. Apesar de dois trabalhos de interpreta\u00e7\u00e3o dignos de elogio, h\u00e1 um destaque espec\u00edfico \u00e0 presen\u00e7a de <strong>Karin Viard<\/strong>. Apesar de sua participa\u00e7\u00e3o narrativa ter um objetivo clich\u00ea, \u00e9 necess\u00e1ria tamb\u00e9m para uma reflex\u00e3o social sobre abuso e Karin tira do espectador o sentimento objetificado pela constru\u00e7\u00e3o da jornada. Nisso, o roteiro realiza sua fun\u00e7\u00e3o como alerta de maneira concisa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A conclus\u00e3o do longa demonstra essa for\u00e7a. Ainda que n\u00e3o haja a grande cena esperada do enfrentamento, o roteiro exp\u00f5e que n\u00e3o h\u00e1 necessidade. E, ao observar de maneira geral, n\u00e3o h\u00e1 mesmo. No ponto em quest\u00e3o, n\u00e3o existem mais maneiras de apagar um trauma j\u00e1 estabelecido. A busca, por sua vez, passa a ser a justi\u00e7a &#8211; como tamb\u00e9m \u00e9 retratado em <strong>Gra\u00e7as a Deus<\/strong> &#8211; pela necessidade n\u00e3o s\u00f3 de al\u00edvio, mas tamb\u00e9m de impedir futuros traumas. A falta do confronto direto entre a personagem de Andr\u00e9a n\u00e3o prejudica sua jornada pelo fato do espectador j\u00e1 conhecer sua dor, lindamente representada atrav\u00e9s das poderosas dan\u00e7as. Os momentos art\u00edsticos do filme transmitem sentimentos mistos, mas fica claro o peso sobre a v\u00edtima e o quanto isso a prejudica. Sobre esse quesito, o texto escolheu o segmento de \u201cseguir em frente\u201d, mas provando o qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 esquecer. Muito desse ponto est\u00e1 presente na bela din\u00e2mica da protagonista com <strong>Carole Franck<\/strong>, que aqui, faz a fun\u00e7\u00e3o direta do espectador, como a principal ouvinte da personagem.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Inoc\u00eancia Roubada<\/strong> foge do senso comum, mas se mant\u00e9m no b\u00e1sico em sua narrativa. No entanto, consegue provocar os mais diversos sentimentos no espectador, que provocam os mais inesperados pensamentos sobre suas viv\u00eancias e atitudes, gerando assim, um desconforto culminante, por\u00e9m \u00fatil.\u00a0<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em menos de um m\u00eas, o cinema franc\u00eas ganha holofotes com dois filmes provocadores com um assunto em comum. 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