{"id":74450,"date":"2019-08-28T22:14:15","date_gmt":"2019-08-29T01:14:15","guid":{"rendered":"http:\/\/supercinemaup.com\/?p=74450"},"modified":"2021-02-07T15:09:08","modified_gmt":"2021-02-07T18:09:08","slug":"brutal-poderoso-e-magnifico-bacurau-e-um-comovente-convite-a-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/brutal-poderoso-e-magnifico-bacurau-e-um-comovente-convite-a-resistencia\/","title":{"rendered":"Brutal, poderoso e magn\u00edfico, \u201cBacurau\u201d \u00e9 um comovente convite \u00e0 resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">)A c\u00e2mera come\u00e7a no espa\u00e7o. O campo visual \u00e9 composto pelas estrelas, por um sat\u00e9lite e o nosso planeta, vide cenas de <strong>Stanley Kubrick<\/strong> em <strong>2001: Uma Odisseia no Espa\u00e7o<\/strong> (1968) e uma clara e bel\u00edssima homenagem a <strong>John Carpenter<\/strong>. A cena, por sua vez, n\u00e3o segue o mesmo segmento do cinema americano com a presen\u00e7a de m\u00fasica cl\u00e1ssica ou de uma descomunal nave espacial. O sil\u00eancio do espa\u00e7o \u00e9 trocado pela can\u00e7\u00e3o \u201cN\u00e3o Identificado\u201d &#8211; cantada por <strong>Gal Costa<\/strong> &#8211; e a c\u00e2mera caminha em dire\u00e7\u00e3o ao planeta, mas n\u00e3o persegue o cl\u00e1ssico caminho para Nova York ou Calif\u00f3rnia, mas sim para o pequeno e curioso vilarejo de Bacurau, no sert\u00e3o brasileiro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que ent\u00e3o se demonstra uma cl\u00e1ssica narrativa em uma realidade criada dentro de nosso pa\u00eds, ganha rumos surpreendentes, recheados com uma robusta mensagem de resist\u00eancia em pleno per\u00edodo de culto \u00e0 viol\u00eancia envolta de afiados contrastes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Kleber Mendon\u00e7a Filho<\/strong> e <strong>Juliano Dornelles<\/strong> &#8211; unidos em mais um projeto &#8211; realizam uma cuidadosa observa\u00e7\u00e3o (como o pr\u00f3prio Kleber chamou durante a coletiva) sobre uma realidade brasileira que est\u00e1 longe de ser temporal. O roteiro &#8211; tamb\u00e9m desenvolvido pelos dois &#8211; traduz viv\u00eancias \u00fanicas de um Brasil antigo e t\u00e3o enraizado quanto o de outros j\u00e1 representados no cinema nacional, que ganha ainda mais for\u00e7as ao conversar diretamente com uma realidade atual, mas, como um grande cl\u00e1ssico, <strong>Bacurau<\/strong> conversa com o tempo que quiser, tanto em sua narrativa quanto em sua t\u00e9cnica. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O trabalho composto por contrastes faz do longa uma jornada pelo desconhecido dentre um cen\u00e1rio enraizado na alma brasileira e transporta o espectador para uma experi\u00eancia \u00fanica, diante caracter\u00edsticas j\u00e1 t\u00e3o familiares. Atrav\u00e9s da c\u00e2mera, do uso da trilha sonora, das viradas narrativas, de seus personagens e caminhos tomados, <strong>Bacurau<\/strong> \u00e9 um contraste j\u00e1 por si s\u00f3. N\u00e3o s\u00f3 as distin\u00e7\u00f5es do in\u00edcio demonstram, como servem para introduzir um todo ainda muito maior do que o espa\u00e7o sideral. Com alma brasileira, mas com t\u00e9cnicas americanas, <strong>Bacurau<\/strong> \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de um sonho de aspirantes cineastas, por traduzir tudo o que sempre foi visto produzido por outros, mas agora, com uma alma completamente nossa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Bacurau<\/strong>, por mais forte que seja em sua mensagem de resist\u00eancia, \u00e9 tamb\u00e9m uma fundamental mensagem de positividade \u00e0 cultura, provando, atrav\u00e9s das maiores dificuldades e conflitos, que produ\u00e7\u00f5es nacionais podem sim chegar ao mesmo n\u00edvel, e at\u00e9 superar as chamadas \u201cgrandes produ\u00e7\u00f5es hollywoodianas\u201d. Seria at\u00e9 hipocrisia dizer que o longa de Kleber Mendon\u00e7a e Dornelles \u00e9 o \u00fanico com este poder, j\u00e1 que cineastas como <strong>Glauber Rocha<\/strong> e <strong>Joaquim Pedro de Andrade<\/strong> realizaram o mesmo feitio d\u00e9cadas atr\u00e1s para a cultura do cinema brasileiro. No entanto, h\u00e1 a for\u00e7a de seu tempo. Mesmo com suas observa\u00e7\u00f5es atemporais, <strong>Bacurau<\/strong> \u00e9 um cinema que conversa com um povo brasileiro carente de discursos revolucion\u00e1rios, diante uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e, principalmente, cultural, complicadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A maneira comunicativa escolhida pelos dois pernambucanos est\u00e1 longe de ser algo palat\u00e1vel. O que n\u00e3o necessariamente signifique algo ruim aqui. A viol\u00eancia adotada &#8211; muito relacionada com o estilo de filmagem de <strong>Quentin Tarantino<\/strong> e aproveitada de grandes acontecimentos hist\u00f3ricos &#8211; adota uma crueldade e crueza \u00edmpares lindamente necess\u00e1rias na jornada da hist\u00f3ria criada pelos dois. Jornada essa que transporta o espectador para um ambiente longe do confort\u00e1vel, transformando tudo o que aparenta simples, em algo confuso, mas nunca desinteressante. O brilhantismo dessa aten\u00e7\u00e3o gerada est\u00e1 no fator da narrativa caminhar para o nada e surpreendentemente levar a um todo n\u00e3o esperado, mas que ainda assim faz sentido com todo o desenvolvimento da trama. O que encanta em <strong>Bacurau<\/strong> vai al\u00e9m da escrita pesada dos dois cineastas, chegando ao fato do longa se provar uma obra completa. In\u00fameros longas, muitas vezes, s\u00e3o admirados separadamente, com destaques ou s\u00f3 para o roteiro, ou s\u00f3 para a dire\u00e7\u00e3o ou s\u00f3 para atua\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Bacurau<\/strong>, por sua vez, \u00e9 tudo. E ainda mais um pouco.<\/span><\/p>\n<p>[\/et_pb_text][\/et_pb_column][\/et_pb_row][et_pb_row][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_image _builder_version=&#8221;3.12.2&#8243; src=&#8221;http:\/\/supercinemaup.com\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Bacurau-2.jpg&#8221; \/][\/et_pb_column][\/et_pb_row][et_pb_row][et_pb_column type=&#8221;4_4&#8243;][et_pb_text _builder_version=&#8221;3.12.2&#8243;]<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Claramente n\u00e3o se deve apenas ao bel\u00edssimo trabalho visto em primeira camada, mas tamb\u00e9m aos pequenos, mas fundamentais, detalhes. Antes de entrar em quesitos mais profundos, \u00e9 necess\u00e1ria uma admira\u00e7\u00e3o pelo elenco grandioso selecionado e dirigido por Kleber Mendon\u00e7a e Dornelles. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A qualidade se estabelece quando a poderosa interpreta\u00e7\u00e3o de <strong>S\u00f4nia Braga<\/strong> consegue ser ofuscada pela presen\u00e7a de <strong>Thomas Aquino<\/strong>, <strong>Karine Teles<\/strong>, <strong>Wilson Rabelo<\/strong>, <strong>Barbara Colen<\/strong> e <strong>Udo Kier<\/strong>. A aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deve apenas pela forte atua\u00e7\u00e3o de todos os citados, mas por todos possu\u00edrem personagens \u00fanicos e significativos a sua maneira na narrativa. Ainda assim, \u00e9 necess\u00e1rio um destaque maior para <strong>Silvero Pereira<\/strong>. Apesar de novato &#8211; quando comparado com outros profissionais &#8211; o ator apresenta uma pot\u00eancia singular e cumpre a promessa envolta de seu personagem. Inclusive, personagem esse que j\u00e1 pode ser colocado em compara\u00e7\u00e3o com outros grandes nomes da fic\u00e7\u00e3o que o p\u00fablico ama odiar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>No ponto de vista mais interno da produ\u00e7\u00e3o, <strong>Bacurau<\/strong> \u00e9 preenchido com sua qualidade t\u00e9cnica, aumentando ainda mais a experi\u00eancia de quem assiste.\u00a0<span style=\"font-weight: 400;\">Desde uma fotografia bel\u00edssima, &#8211; que n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 bela pelo visual, mas por sua composi\u00e7\u00e3o &#8211; passando por um figurino apaixonante, at\u00e9 um trabalho impec\u00e1vel de dire\u00e7\u00e3o de arte, a obra dos pernambucanos encanta, ao mesmo tempo que assusta. H\u00e1 tamb\u00e9m um cuidado muito significativo com o trabalho sonoro. Kleber Mendon\u00e7a se provou um admirador e amante da \u00e1rea com <strong>Som Ao Redor<\/strong> (2012), e repete um trabalho t\u00e3o encantador quanto, em <strong>Bacurau<\/strong>. Seguindo uma linha t\u00e9cnica tamb\u00e9m parecida com a de Tarantino, tendo uma preocupa\u00e7\u00e3o significativa com mixagem e edi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma imers\u00e3o maior naquele pequeno universo \u201cfict\u00edcio\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por ser uma obra completa, como citado, <strong>Bacurau<\/strong> n\u00e3o \u00e9 feito apenas de atores formados. Ainda que coadjuvantes e figurantes, muitas vezes, mant\u00e9m-se em seus lugares comuns, aqui, eles ganham tanta import\u00e2ncia quanto qualquer outro. Assim, o filme se prova n\u00e3o ser feito de hist\u00f3ria e nem de pessoas, mas o que as duas coisas juntas representam. Mesmo que armas de fogo funcionem como um s\u00edmbolo de for\u00e7a na narrativa, a verdadeira arma de <strong>Bacurau<\/strong> \u00e9 a identidade &#8211; como bem explicado por Kleber Mendon\u00e7a durante a coletiva de imprensa. Identidade essa que \u00e9 bem representada pelos cidad\u00e3os de <strong>Barra<\/strong>, no <strong>Rio Grande do Norte<\/strong>, que, mesmo sem o profissionalismo de outros do elenco, realizam um trabalho admir\u00e1vel e conseguem representar bem em tela todo o comprometimento com o projeto, como bem apontado pelo elenco na coletiva.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Atrav\u00e9s de <strong>Bacurau<\/strong>, \u00e9 poss\u00edvel identificar um Brasil n\u00e3o identificado. Com sua for\u00e7a bruta em trabalhar a viol\u00eancia, o longa n\u00e3o entrega mensagens, mas funciona como um g\u00e1s para um grito de resist\u00eancia ainda muito preso na garganta dos brasileiros. E o que muitos podem enxergar como puxa-saquismo do cinema nacional, outros podem enxergar como uma an\u00e1lise realizada da maneira como o filme merece, da mesma forma que se \u00e9 criticado quando precisa ser.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>)A c\u00e2mera come\u00e7a no espa\u00e7o. O campo visual \u00e9 composto pelas estrelas, por um sat\u00e9lite e o nosso planeta, vide cenas de Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espa\u00e7o (1968) e uma clara e bel\u00edssima homenagem a John Carpenter. 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