{"id":80708,"date":"2023-01-04T21:19:48","date_gmt":"2023-01-05T00:19:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/?p=80708"},"modified":"2023-01-04T21:20:08","modified_gmt":"2023-01-05T00:20:08","slug":"decisao-de-partir-misterio-e-romance-se-encontram-em-nova-obra-prima-de-park-chan-wook","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cinemaup.com.br\/en\/decisao-de-partir-misterio-e-romance-se-encontram-em-nova-obra-prima-de-park-chan-wook\/","title":{"rendered":"DECIS\u00c3O DE PARTIR | MIST\u00c9RIO E ROMANCE SE ENCONTRAM EM NOVA OBRA-PRIMA DE PARK CHAN-WOOK"},"content":{"rendered":"<p>Sempre que analisamos um filme, ou qualquer produto da arte, mais afundo, chegamos \u00e0quela parte da discuss\u00e3o em que tentamos entender se a cortina era azul porque tinha alguma significado maior ou se era azul porque nenhuma outra cor estava dispon\u00edvel. Talvez a coisa mais satisfat\u00f3ria \u2013 e intrigante \u2013 de analisar uma obra de um artista cujo talento e maestria j\u00e1 s\u00e3o fatos conhecidos e comprovados, \u00e9 ter a certeza de que todas as decis\u00f5es tomadas em sua obra s\u00e3o propositais, calculadas e carregam em si grandes significados, ainda que a gente n\u00e3o consiga entender todos eles. Esse \u00e9 o caso de Park Chan-wook e seu filme mais recente \u201cDecis\u00e3o de Partir\u201d, que j\u00e1 est\u00e1 na shortlist do Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Na trama, que \u00e9 tanto um mist\u00e9rio policial quanto um romance, o detetive Jang Hae-joon (Park Hae-il) \u00e9 um homem casado e um <em>workaholic<\/em>, mas seu relacionamento peca na falta de intimidade e seu excesso de trabalho mais tem a ver com sua ins\u00f4nia latente do que com sua paix\u00e3o pela profiss\u00e3o. Hae-joon vive no autom\u00e1tico, at\u00e9 mesmo o sexo com sua mulher \u00e9 marcado. No entanto, os sentidos do detetive voltam \u00e0 vida quando ele \u00e9 chamado para investigar a morte de um homem que caiu da montanha que estava escalando. A princ\u00edpio a morte parecia um acidente, mas algumas circunst\u00e2ncias duvidosas o levam a chamar a esposa do falecido para interroga\u00e7\u00e3o e a\u00ed entra Song Seo-rae (Tang Wei), uma imigrante chinesa que tem dificuldade com a l\u00edngua coreana e recorre ao aux\u00edlio do tradutor para elucidar suas palavras, mas n\u00e3o \u00e9 apenas seu idioma que gera confus\u00e3o, o comportamento de Seo-rae flutua entre o luto caracter\u00edstico de uma rec\u00e9m-vi\u00fava alternado com uma apatia e indiferen\u00e7a de quem n\u00e3o perdeu nada inesperado, a pr\u00f3pria mulher diz que j\u00e1 esperava que esse fosse seu destino, mas essa rea\u00e7\u00e3o causa suspeita mais em Soo-wan (Go Kyung-Pyo), o assistente de Hae-joon do que no pr\u00f3prio detetive, isso porque desde o momento em que viu Seo-rae se sentiu atra\u00eddo por ela.<\/p>\n\n\n\n<p>A atra\u00e7\u00e3o entre Hae-joon e Seo-rae \u00e9 imediata e inevit\u00e1vel, pelo menos para Hae-joon que v\u00ea atra\u00e7\u00e3o passando para afeto, amor e chegar no ponto de obsess\u00e3o. Os sentimentos de Seo-rae s\u00e3o mais dif\u00edceis de se interpretar e at\u00e9 mesmo de confiar, n\u00e3o s\u00f3 por n\u00f3s, mas acaba plantando a semente da d\u00favida tamb\u00e9m em Hae-joon. Quando isso acontece, no entanto, seu amor pela vi\u00fava j\u00e1 \u00e9 ultrapassa os limites de sua desconfian\u00e7a. Todas essas nuances s\u00e3o acentuadas pela dire\u00e7\u00e3o de Park Chan-wook que, diferentemente de seu \u00faltimo trabalho, A Criada, onde usou (e \u00e0s vezes abusou) da sexualidade e da explicitude, agora tomou o caminho da sutileza e da subjetividade, n\u00e3o h\u00e1 nudez nem ao menos beijos apaixonados, mas o desejo e a intimidade entre eles se revela com pequenos toques ou situa\u00e7\u00f5es de domesticidade, como numa cena em que os dois limpam uma mesa depois de comer numa coreografia exata que s\u00f3 poderia ser realizada por um casal em plena sintonia.<\/p>\n\n\n\n<p>A c\u00e2mera de Park Chan-wook n\u00e3o passa despercebida, o trabalho de movimentos e a cinematografia de Kim Ji-yong criam um espet\u00e1culo visual n\u00e3o no sentido de beleza puramente dita, mas do dom\u00ednio de t\u00e9cnicas de fazem com que as cenas se encaixem como um belo e engenhoso quebra-cabe\u00e7a, desde os pontos de vistas inusitados (como quando vemos a cena pelos olhos do marido morto e, posteriormente, de um peixe morto), da grande quantidade de espelhos ajudando na cria\u00e7\u00e3o da imagem amb\u00edgua da vi\u00fava, o uso criativo e original das telas de celular que contam grande parte da hist\u00f3ria, as cenas em que Hae-joon se sente t\u00e3o pr\u00f3ximo de Seo-rae que o vemos em cena junto com ela at\u00e9 culminar na cena final que \u00e9 um show de cinema \u00e0 parte.<\/p>\n\n\n\n<p>O roteiro (uma parceria entre Park Chan-wook e Chung Seo-kyung) tamb\u00e9m \u00e9 cheio de particularidades, podendo at\u00e9 mesmo ser confuso em alguns momentos, mas nada que a dire\u00e7\u00e3o certeira n\u00e3o consigo te localizar novamente mais tarde. Com reviravoltas, crimes, revela\u00e7\u00f5es e mortes, o filme se mant\u00e9m ativo e revigorante em seus tr\u00eas atos, tanto no que se diz respeito ao suspense policial quanto \u00e0 distorcida hist\u00f3ria de amor entre os protagonistas. Ao mesmo que os crimes se tornam mais intricados, demandando mais da nossa aten\u00e7\u00e3o, as a\u00e7\u00f5es dos personagens tamb\u00e9m se tornam mais complexas e menos compreens\u00edveis uma vez que perturbadas pela intensidade de seus desejos, mas tamb\u00e9m exigem mais de nosso discernimento para refletir sobre moralidade, honestidade, amor e limites.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre que analisamos um filme, ou qualquer produto da arte, mais afundo, chegamos \u00e0quela parte da discuss\u00e3o em que tentamos entender se a cortina era azul porque tinha alguma significado maior ou se era azul porque nenhuma outra cor estava dispon\u00edvel. 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