O HOMEM IDEAL | O ALGORITMO DO ROMANCE INTELIGENTE

Desde que o conceito de Inteligência Artificial se popularizou, ele tem sido tópico não só da ciência tecnológica, mas também da ficção. Filmes como o próprio A.I. – Inteligência Artificial de Spielberg e Ela de Spike Jonze já exploraram também as hipóteses de máquinas desenvolverem – ou aprenderem a replicar, pelo menos – sentimentos humanos. Em ambos os casos, e na grande maioria das outras histórias também, os resultados são desastrosos. Geralmente, o que podemos esperar de histórias assim é uma completa alienação do ser humano ou uma revolta por parte das máquinas. O Homem Ideal apesar de não trazer um conceito propriamente original, consegue fugir dos clichês, ou ao menos abraçá-los com propriedade e inteligência.

O Homem Ideal é uma comédia romântica alemã escrita por Maria Schrader (também diretora) e Jan Schomburg e baseada num conto da autora Emma Braslavsky, que conta a história de Alma (Maren Eggert), uma pesquisadora especializada em escrita cuneiforme que tem os pés no chão e leva tudo muito (talvez um pouquinho mais do que o necessário) a sério. Ela é um tanto quanto solitária e extremamente independente, mas não o suficiente para cair nos clichês das mulheres antirromance, o estudo a que ela se dedica no momento é sobre uso de metáforas e poesias já nas escritas antigas, por exemplo. Ainda assim, Alma não está à procura de um homem, principalmente depois de seu último romance fracassado com um colega de profissão que já tem outra mulher e está prestes a casar.

Feliz e satisfeita solteira, Alma é relutante ao aceitar participar de um projeto proposto por Dr. Stuber (Jürgen Tarrach), mas como sua participação traria recompensas para seu próprio estudo, ela acaba concordando. O experimento consiste em passar 3 semanas junto com um “homem robô” feito especialmente para atender todo e qualquer desejo – ou necessidade – de Alma, ou seja, o homem perfeito. O intuito desse experimento é determinar se esses tipos de robôs criados à perfeição para “substituir” um ser-humano deveriam ter o direito de serem tratados também como seres humanos perante a lei, em todos seus aspectos.

Num salão de dança, num clima de romance e descontração – o ambiento perfeito para um primeiro encontro, Alma é levada pela animada Mitarbeiterin (Sandra Hüller) até sua mesa, onde conhece Tom (Dan Stevens), um homem fisicamente atraente que se mostra agradável e sedutor desde os primeiros momentos de interação, mas ele ainda não é exatamente perfeito e chega até mesmo a dar uma pequena pane que encerra o jantar antes do previsto. Alma percebe também que nada ali é o que parecia ser, o ambiente é todo baseado na tecnologia, os casais felizes que riem e dançam à sua volta não passam de figurantes holográficos para completar o cenário de seu jantar.

Tom passa por um breve conserto e então é mandado para a casa de Alma para que o experimento de 3 semanas possa, enfim, começar. Daqui em diante temos um show de atuação tanto por parte de Dan Stevens quanto de Maren Eggert, que compreendem muito bem seus personagens e dominam o roteiro de Schrader e Schomburg. Dan faz um trabalho primoroso como homem-robô, Tom está sempre atento a tudo que Alma fala aos mínimos detalhes e cada vez que “erra”, como numa cena ótima em que prepara um banho de banheira romântico com direito a velas e pétalas de rosas porque, de acordo com sua base de dados, 93% das mulheres gostariam disso, só para descobrir que Alma está nos outros 7% da população, ele para brevemente, com um olhar desfocado, para recalcular e consertar a informação em seu sistema. Simples assim, Tom aprendeu esse padrão de comportamento e, portanto, não voltará a repeti-lo, problema resolvido. Por outro temos Alma que está sempre ciente de que Tom é um robô e luta constantemente para não cair em seu charme, principalmente ao longo do tempo, quando Tom vai aprendendo mais suas especificidades e vai se tornando cada vez mais único para ela também.

Além de lidar com Tom, que agora ocupa um curioso espaço em sua vida, Alma também lida com seu ex que parece estar se dando bem com seu novo relacionamento e, se tratando de família, Alma enfrenta a doença de seu pai, que lhe causa demência e o distancia de suas filhas cada vez mais, apesar da proximidade que sempre compartilhou com Alma. Seu projeto de pesquisa também tem um local de prioridade em sua vida e todas essas nuances se juntam para fazer de Alma uma personagem multidimensional, e extremamente interessante, transformando essa comédia romântica, que poderia cair na mesmice, num filme diferente e perspicaz.

Ainda que seus três atos sejam fortes e eficientes, o terceiro ato ainda se supera, trazendo um desfecho inusitado para a história, com a conclusão de Alma, que se afeiçoou de Tom durante seu tempo juntos, sobre a importância das relações interpessoais, o valor das diferenças e das imperfeições e sobretudo a singularidade dos sentimentos humanos.

O Homem Ideal é a aposta da Alemanha para o Oscar de 2022 e, ainda que não ganhe um prêmio ou até mesmo uma indicação, ainda é um ótimo exemplo de uma comédia romântica esperta e divertida, com um ótimo equilíbrio entre humor, reflexões importantes sobre a vida e amor.