A Morte do Demônio: Em Chamas
Diretor
Sébastien Vanicek
Gênero
Terror
Elenco
Souheila Yacoub, Hunter Doohan, Luciane Buchanan
Roteirista
Sébastien Vanicek e Florent Bernard
Estúdio
Sony Pictures
Duração
110 minutos
Data de lançamento
09 de julho de 2026
“A Morte do Demônio: Em Chamas” não engana o público, não disfarça suas intenções e certamente não pede desculpas. Sébastien Vaniček entrega um terror extremo, acelerado e graficamente agressivo, construído para fazer o espectador se contorcer na poltrona. Corpos são tratados como matéria-prima para um espetáculo de mutilação, enquanto a câmera insiste nas consequências da violência com uma franqueza que transforma cada ferimento em acontecimento. É um filme que entende perfeitamente o tipo de experiência que deseja proporcionar… o problema é que também parece acreditar que proporcionar somente essa experiência seja suficiente.
Há um trabalho técnico admirável na construção da carnificina. Os efeitos físicos, as próteses, a maquiagem e a interação dos atores com os elementos de cena devolvem peso à violência. Nada parece acontecer em um vazio digital completamente higienizado: há textura, impacto, fluidos, fogo e objetos comuns convertidos em instrumentos de destruição. Algumas sequências demonstram criatividade genuína na maneira como aproveitam o ambiente e transformam espaços domésticos em verdadeiros mecanismos de tortura. A preferência pelos efeitos práticos é uma das qualidades mais reconhecíveis da produção e sustenta boa parte de seu poder visceral.
Mas existe um limite para o quanto uma obra pode escalar antes de destruir a própria noção de intensidade. Quando praticamente toda cena precisa superar a anterior em brutalidade, o choque deixa de ser uma ruptura e se torna rotina. Aquilo que inicialmente incomoda, impressiona e provoca uma reação física acaba reduzido a uma espécie de catálogo de atrocidades. O filme permanece barulhento, violento e visualmente perturbador, mas paradoxalmente perde força porque já não existe contraste. Sem silêncio, a explosão vale menos; sem pausa, o desespero vira apenas ritmo.
Essa ausência de variação também expõe a fragilidade narrativa. O conflito familiar, o luto e a violência doméstica fornecem uma base temática potencialmente incômoda, mas funcionam mais como justificativas para a carnificina do que como matéria dramática realmente desenvolvida. Os personagens são apresentados com a profundidade estritamente necessária para que seus corpos possam ser colocados em risco. A narrativa avança porque precisa chegar à próxima mutilação, e não porque as relações construídas em cena conduzem organicamente a algum desfecho emocional. Vaniček havia prometido um filme desagradável, doloroso e capaz de deixar o público exausto. A promessa foi cumprida com uma eficiência quase literal e justamente por isso se transforma na principal limitação da obra.
A comparação com os filmes de Sam Raimi torna essa limitação ainda mais evidente. A violência sempre foi parte fundamental de “A Morte do Demônio”, mas Raimi compreendia o valor do absurdo, da ironia e da crueldade encenada como uma forma particularmente doentia de comédia física. Seus enquadramentos tinham personalidade, os demônios pareciam se divertir com a própria maldade e o exagero encontrava uma energia próxima dos desenhos animados e dos números de pastelão. A brutalidade não era apenas brutal: havia um sorriso perverso escondido atrás dela. Essa combinação entre horror e humor ajudou a transformar uma produção barata em uma linguagem cinematográfica reconhecível.
“Em Chamas” preserva o movimento frenético, o gosto pelos efeitos grotescos e a inventividade na destruição dos corpos, mas perde grande parte dessa malícia. Não se trata de exigir que todo novo capítulo imite Raimi ou transforme possessão demoníaca em comédia. O filme tem o direito de buscar uma identidade mais sombria e cruel. A questão é que, ao eliminar quase todo contraponto, troca o charme anárquico da franquia por uma seriedade opressiva que frequentemente se confunde com monotonia. A ironia aparece em pequenas doses, mas nunca ocupa espaço suficiente para contaminar o espetáculo e oferecer algum alívio verdadeiramente eficaz.
Ainda assim, seria injusto negar a competência de uma produção tão comprometida com sua proposta. Para os admiradores do gore, do horror corporal e das experiências cinematográficas sem fôlego, há muito o que apreciar. O filme é rápido, fisicamente convincente e suficientemente criativo para evitar a sensação de completo automatismo. Também existe algo admirável em uma grande produção de estúdio disposta a ser tão desagradável, tão pouco elegante e tão dedicada a testar o limite do público.
O resultado, porém, é mais eficiente como atração extrema do que como cinema narrativamente consistente. “A Morte do Demônio: Em Chamas” entrega sangue, dor e caos em quantidades industriais, mas confunde excesso com personalidade e intensidade com profundidade. Diverte dentro de um território bastante específico, embora saia dele coberto de vísceras e com muito pouco a dizer. Ao fim, permanece a sensação de ter presenciado uma demonstração tecnicamente impressionante de brutalidade: uma experiência que esgota mais do que assombra e machuca mais do que marca.