Anaconda
Diretor
Tom Gormican
Elenco
Paul Rudd, Jack Black, Selton Mello
Roteirista
Tom Gormican, Kevin Etten
Estúdio
Sony Pictures Brasil
Duração
99 minutos
Data de lançamento
25 de dezembro de 2025
Hollywood vive de reciclagem, mas raramente tem a honestidade de rir do próprio vício. Anaconda (2025) escolhe justamente esse caminho: em vez de fingir gravidade, assume a ideia absurda — um filme sobre gente tentando refilmar Anaconda — e constrói sua graça em cima do ridículo. Não é um “reboot” no sentido clássico; é uma autoparódia que transforma a selva, o monstro e a memória do cult dos anos 90 em matéria-prima para uma comédia de sobrevivência que, no fundo, quer ver até onde dá para esticar a piada sem arrebentar o suspense.
O grande acerto é entender que “trash” não significa desleixo — significa direção de tom. Tom Gormican, vindo de uma comédia metalinguística que já brincava com os bastidores do entretenimento, mantém a mão firme no equilíbrio entre aventura, piada e perigo, como quem sabe que a gargalhada precisa de ritmo e de surpresa para não virar esquete repetida. O filme flerta com aquela energia de “produção que deu errado na floresta” — algo que inevitavelmente lembra o deboche de Trovão Tropical —, mas não tenta ser tão ácido; prefere ser debochado e acolhedor, mais interessado em divertir do que em morder.
A química entre Paul Rudd e Jack Black é o motor de tudo, e o longa é esperto o suficiente para deixá-los fazerem o que sabem: um funciona como o desespero “pé no chão” que tenta organizar o caos, o outro como a entrega total à idiotice gloriosa. Jack Black, em especial, joga como quem não tem vergonha do próprio volume — e esse compromisso é meio raro numa comédia grande, onde muitos atores parecem pedir desculpas por estarem num filme bobo. Aqui não: o exagero vira linguagem, e a “careta” vira partitura.
Quando o roteiro tenta esticar um drama mais certinho no meio da insanidade, o filme dá uma engasgada: a engrenagem pede velocidade, e qualquer pausa emocional precisa ser cirúrgica para não parecer um freio de mão puxado no meio da perseguição. Ainda assim, há uma lógica nisso — se o objetivo é satirizar o impulso contemporâneo de “dar tema” a qualquer produto, faz sentido que o filme, vez ou outra, brinque de se levar a sério só para depois se desmentir com a próxima reviravolta boba. É o tipo de comédia que funciona melhor quando troca profundidade por convicção.
E há um tempero extra no recorte brasileiro: a escolha de ambientar a aventura na Amazônia, trazer Selton Mello e cercar a trama de sinais de “Brasil” dá ao filme uma camada curiosa de reconhecimento — ainda que essa brasilidade seja, como costuma acontecer em Hollywood, mais um conjunto de ícones do que uma vivência real. Mesmo assim, é difícil negar o prazer simples de ver um astro brasileiro orbitando uma comédia americana que não se enfeita de importância e, por isso mesmo, parece mais livre para ser diversão.
No fim, Anaconda é um raro caso de blockbuster que entende o próprio tamanho — e escolhe ser grande do jeito mais inteligente possível: não pelo impacto, mas pelo jogo. Entra-se esperando uma besteira e encontra-se uma besteira competente, com timing, com elenco afiado e com a coragem de sustentar o “filme ruim bom” sem pedir licença. Há cinema que quer ser sério e só consegue ser pomposo; aqui, a proposta é ser boba — e a melhor piada é que ela dá certo.