Bugonia
Diretor
Yorgos Lanthimos
Gênero
Comédia , Ficção Científica , Suspense
Elenco
Emma Stone, Jesse Plemons, Aidan Delbis
Roteirista
Will Tracy
Estúdio
Universal Pictures Brasil
Duração
118 minutos
Data de lançamento
27 de novembro de 2025
Há diretores que constroem carreira como quem testa a resistência do público: cutucam o nervo, alongam o desconforto, insistem na estranheza como método. Yorgos Lanthimos já foi, por muito tempo, esse cineasta do “incômodo obrigatório”, um autor que parece filmar com o prazer ligeiramente sádico de ver a plateia se remexer na cadeira. Bugonia não abandona essa veia — ela está lá, latejando sob a pele do filme —, mas finalmente a coloca a serviço de uma engrenagem dramática mais direta, mais saborosa, mais… cinematográfica no sentido clássico da palavra: premissa clara, cenário que vira campo de batalha, personagens que se enfrentam como lâminas.
A ideia é simples e, justamente por isso, poderosa: dois conspiracionistas sequestram uma CEO acreditando que ela é uma alienígena infiltrada. A partir daí, o filme se organiza como um duelo de lógica torta contra pragmatismo frio — e o melhor é que nunca fica confortável escolher um lado. O roteiro de Will Tracy entende que teoria da conspiração não é só “loucura”; é também uma estética, uma narrativa que dá sentido a frustrações e ressentimentos. Lanthimos filma esse delírio com seriedade suficiente para gerar tensão, e com ironia suficiente para transformar a tragédia em comédia bizarra. O riso não vem de piada fácil: vem da inadequação das certezas, do absurdo apresentado com convicção, do choque entre discursos que se acham incontestáveis.
O grande triunfo do filme, porém, é que ele não depende de complexidade artificial. Pelo contrário: trabalha com economia. Na maior parte do tempo, Bugonia parece um “câmara thriller” sofisticado, em que o confinamento vira tensão e a tensão vira linguagem. A direção não precisa inflar o enredo com reviravoltas a cada dez minutos; ela prefere apertar o parafuso devagar, deixando o clima se adensar até que o humor e o medo passem a ocupar o mesmo centímetro de tela. E quando o filme decide expandir seus próprios limites, o faz com uma coragem rara: o desfecho não é um enfeite, é uma construção — um final que cresce não só por revelações, mas pela maneira como reorganiza a experiência inteira, como se o filme estivesse, discretamente, preparando o terreno desde o começo.
Emma Stone é o eixo disso tudo. Há um tipo de atuação que domina pela energia; aqui, a força está no controle. Ela trabalha com precisão — no olhar, no timing, no modo como a personagem alterna entre vítima, estrategista e predadora sem precisar anunciar a troca. Jesse Plemons, por sua vez, faz do fanatismo algo crível: não como caricatura, mas como ferida aberta que encontrou um vocabulário paranoico para continuar sangrando. E Aidan Delbis dá ao conjunto uma camada de fragilidade que impede o filme de virar apenas uma sátira de “gente doida na internet”: existe humanidade ali, mesmo quando tudo parece absurdo.
No fim, Bugonia funciona como uma espécie de reconciliação possível com Lanthimos: o estranhamento permanece, mas deixa de ser um fim em si mesmo e vira instrumento. Em vez de um cinema que “agride” por esporte, surge um filme que prende, diverte e tensiona — e que prova que uma premissa simples, quando tratada com rigor e veneno, pode render um grande espetáculo de ideias. É Lanthimos com menos pose de laboratório e mais senso de palco: ainda cruel, ainda torto, mas enfim irresistível.