7,6/10

Cara de Um, Focinho de Outro

Diretor

Daniel Chong

Gênero

Animação , Aventura

Elenco

Piper Curda, Bobby Moynihan, Jon Hamm

Roteirista

Daniel Chong, Jesse Andrews

Estúdio

Walt Disney Pictures

Duração

105 minutos

Data de lançamento

05 de março de 2025

"Cara de Um, Focinho de Outro" (Hoppers) é uma animação da Pixar que segue Mabel, uma jovem amante da natureza que transfere sua consciência para um castor robótico hiper-realista. Ela usa essa tecnologia para se infiltrar no mundo selvagem e proteger os animais de uma ameaça humana

Há algum tempo a Pixar deixou de ser sinônimo automático de genialidade. O estúdio que por muitos anos parecia incapaz de errar, hoje oscila entre lampejos do talento que o consagrou e uma necessidade quase compulsiva de parecer relevante a qualquer custo. “Cara de Um, Focinho de Outro” nasce exatamente desse impasse. Não é um filme ruim, o que talvez seja até mais frustrante. Ele funciona, diverte em vários momentos, encontra um bom centro dramático, mas nunca consegue escapar da sensação de que estamos diante de mais uma animação competente tentando revestir de novidade um discurso que o cinema infantil já vem repetindo há tempo demais.

O longa acerta onde a Pixar historicamente sempre foi mais forte. Existe ali um drama genuíno, e ele está concentrado na relação da protagonista com a avó. É nesse vínculo que o filme encontra sua melhor versão, uma versão menos preocupada em ensinar e mais interessada em sentir. A emoção não chega com a força devastadora dos grandes clássicos do estúdio, mas é honesta, bem conduzida e suficiente para sustentar boa parte da experiência. Quando a narrativa se ancora nessa relação, o filme respira melhor, ganha peso e lembra que uma boa história infantil não precisa gritar para ser tocante.

O problema é que, sempre que o filme parece pronto para se aprofundar nesse núcleo afetivo, ele volta a se ajoelhar diante de uma cartilha temática já exausta. A pauta ambiental, por si só, não incomoda. Seria pueril fingir que a preservação do meio ambiente não importa. O incômodo está em como esse assunto retorna mais uma vez ao cinema infantil da forma mais previsível possível, como se a simples repetição de uma mensagem bastasse para torná-la interessante. Há cerca de duas décadas, “Os Sem Floresta” já trabalhava esse mesmo embate entre natureza, ocupação humana e vida animal. Voltar ao mesmo terreno agora exigiria uma abordagem mais sofisticada, mais afiada, mais criativa. “Cara de Um, Focinho de Outro” até tenta amenizar o tom e evitar um panfleto mais agressivo, mas a mensagem continua ali, martelada com a insistência de quem já não confia plenamente na própria história.

Talvez por isso o filme seja mais convincente justamente quando abandona a pose de manifesto e se permite ser estranho, engraçado e até um pouco absurdo. Há cenas realmente muito boas de humor, e algumas delas surgem de forma tão inusitada que causam uma surpresa rara para os padrões recentes da Pixar. A sequência envolvendo o tubarão é um ótimo exemplo disso. É engraçada de verdade, não apenas simpática, e encontra um tipo de comicidade menos domesticada, mais ousada, quase desconcertante. Nesses momentos, o filme deixa de ser apenas mais um produto bem comportado e revela uma energia própria, como se por trás da embalagem educativa ainda existisse alguma vontade de brincar.

A construção dos animais também funciona. Há carisma, há ritmo, há uma mecânica narrativa que mantém o filme fluindo sem grandes tropeços. Mesmo quando a trama escorrega, ela nunca se torna maçante. Isso tem valor, sobretudo numa fase em que tantas animações parecem incapazes de sustentar noventa minutos sem se afogar em excesso de informação, hiperatividade visual ou sentimentalismo barato. Aqui, pelo menos, existe controle. O filme sabe se mover, sabe alternar momentos de agitação e respiro, e demonstra uma produção tecnicamente segura, com personagens bem resolvidos dentro da proposta que assume.

Mas nem mesmo esse equilíbrio impede outro problema recorrente do cinema atual, a necessidade de enfraquecer a família tradicional para valorizar outros afetos como se uma coisa precisasse anular a outra. A avó funciona muito bem, mas o caminho escolhido para tornar essa relação tão central passa por um esvaziamento incômodo da figura dos pais. Não se trata de defender idealizações bobas da família, mas de reconhecer o quanto esse atalho dramático já está gasto. Há uma diferença entre mostrar conflito familiar e transformar pai e mãe em peças quase descartáveis, como se o amadurecimento só pudesse florescer à distância deles. É um recurso preguiçoso, cada vez mais comum, e que aqui enfraquece parte da força emocional que o filme poderia alcançar com mais nuance.

No fim, “Cara de Um, Focinho de Outro” é um retrato bastante claro da Pixar atual. Um estúdio ainda plenamente capaz de entregar bom drama, boas piadas, personagens agradáveis e uma experiência tecnicamente sólida, mas que já não parece tão capaz de encontrar um tema sem recair em fórmulas ideológicas e emocionais excessivamente conhecidas. Não é um filme constrangedor, não é um fracasso e tampouco é um trabalho sem qualidades. Mas está muito longe daquele tipo de animação que permanece na memória por anos, como acontecia quando a Pixar realmente parecia estar vários passos à frente de todo o resto.

Resta um filme mediano, às vezes divertido, às vezes tocante, frequentemente bem feito, mas limitado por uma insistência em repetir uma mensagem que já não carrega o mesmo impacto de antes. E isso, para um estúdio que já transformou brinquedos, monstros, peixes, ratos e até emoções em cinema memorável, soa menos como um erro e mais como um sintoma.

6

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