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Digger

Diretor

Alejandro G. Iñárritu

Gênero

Comédia , Drama

Elenco

Tom Cruise, Riz Ahmed, John Goodman

Roteirista

Sabina Berman, Jez Butterworth e Alexander Dinelaris

Estúdio

Warner Bros. Pictures

Duração

128 minutos

Data de lançamento

01 de outubro de 2026

O homem mais poderoso do mundo provoca um desastre e embarca em uma missão para demonstrar que é o Salvador da Humanidade.

Não é nada comum hoje em dia poder dizer que um filme não é nada do que o público estava esperando. Na disputa pela atenção do espectador (e pelo seu dinheiro do ingresso), os materiais promocionais têm apostado em compartilhar os melhores momentos das obras nos trailers, imagens e tudo o mais muito antes do lançamento. O oposto também funciona – usar o mistério como aliado -, mas é também muito mais difícil. Em “Digger”, o novo filme do diretor vencedor do Oscar (O Regresso e Birdman) Alejandro G. Iñárritu optou pela segunda opção – e não poderia ter tomado uma decisão mais acertada. “Digger” é o tipo de filme que funciona muito melhor quanto menos você souber sobre ele. Há ao menos dois momentos de grandes reviravoltas, o primeiro deles absolutamente inesperado, mudando absolutamente tudo o que sabíamos do filme até chegar a esse momento; não à toa, antes da exibição foi mostrada uma mensagem pedindo para que spoilers sejam evitados. 

A sinopse do filme diz que “O homem mais poderoso do mundo embarca em uma missão frenética para provar que é o salvador da humanidade.” O homem em questão é Digger Rockwell (Tom Cruise), um magnata do petróleo que tem que “salvar o mundo” depois que uma de suas plataformas de petróleo causa um desastre de proporções absolutamente catastróficas – e isso é tudo que você deve saber sobre a premissa, cobrindo basicamente o primeiro ato do filme. As comparações da crítica internacional com Dr. Fantástico (1964) fazem sentido, Digger é um homem excêntrico e expansivo que se vê rodeado de diversas alegorias contemporâneas, há o presidente sem noção, que não sabe tomar decisões, o pastor evangélico que está lá para marcar presença, o militar que acredita que bombas são a solução para tudo, um cientista desacreditado e mais um bando de homens brancos de meia-idade dispostos a rir de toda e qualquer piada rude. Todos esses personagens são interpretados com base no exagero, no caricato, incluindo Digger. A princípio, é um tanto desconcertante acompanhar esse grupo em diálogos num tom acima, mas acaba fazendo sentido quando chegamos à primeira grande reviravolta. 

Quando chegamos a essa segunda parte do filme, somos obrigados a reavaliar tudo o que acontecera até aquele momento, das atuações aos cenários e motivações. É uma reviravolta que funciona por ser absolutamente disruptiva e inesperada, somando à experiência geral do filme como espetáculo. A direção de Iñárritu é primorosa, assim como toda a técnica empregada na obra; filmado em VistaVision, é um filme que merece as grandes telas dos cinemas, tanto por sua grandeza quanto por sua ousadia. Essa ousadia, inclusive, não aparece apenas na estética – é um filme extremamente ambicioso em suas intenções. É uma pena que seja justamente nessas intenções que “Digger” perde a força. Superficialmente falando, a mensagem do filme é extremamente evidente: as mudanças climáticas vão acabar com a gente mais cedo ou mais tarde, e muito provavelmente aqueles que estão no poder só vão acelerar a situação. Isso é o centro de tudo desde o princípio, o comentário social não é sutil, não está nas entrelinhas, mas ainda é surpreendentemente vago, principalmente quando vamos nos encaminhando para o final.

A segunda parte do filme reserva uma conexão mais profunda entre Digger e o próprio Tom Cruise e, com isso, uma inclinação à metalinguagem. Em meio a catástrofes e figuras polêmicas, o controle da narrativa é essencial para determinar como grandes acontecimentos serão vistos no futuro. O futuro (não tão distante) imaginado por Iñárritu é um futuro de muitas camadas e muita, muita informação. Além de ousado, é um filme ambicioso, audacioso e, por vezes, pretensioso também, variando entre grandes momentos (como um monólogo especialmente inspirado entregue por Tom Cruise e filmado em um único plano contínuo) e outros com mais audácia e força de vontade do que conteúdo de fato. Quando entramos nos momentos mais reflexivos, que deveriam dizer mais, há mais gritos e mais declarações, mas elas não encontram uma base que as aprofundem. A mesma oscilação acontece com as atuações. Muito se diz sobre a possibilidade de Tom Cruise ser indicado e até mesmo ganhar o seu primeiro Oscar, mas sua atuação não é “universal” o suficiente para ter essa potencial indicação como uma certeza: ela dependerá da capacidade dos membros votantes de comprarem as decisões tomadas pelo ator. Digger é um personagem complexo, por diversos motivos, e isso faz com que o trabalho de Tom Cruise seja igualmente complicado, principalmente para ser compreendido por completo. Há outras atuações fantásticas, como a de Sandra Hüller, que interpreta Emma, a irmã de Digger, mas seu papel é tão irrelevante dentro da história que parece mais um desperdício de seu talento – e ela não é a única que não parece ser uma parte integrante do roteiro, e sim um acréscimo posterior, com a intenção de abrilhantar algo já pronto. 

O terceiro ato traz ainda mais uma reviravolta – também impactante – que mais uma vez nos faz reavaliar muito do que veio antes, mas também falha em adicionar um sentido para além do óbvio. Diante da vontade evidente de se mostrar como algo marcante, definitivo e com muito a dizer, é até curioso que “Digger” acabe sendo uma comédia satírica tão “inofensiva”. Muitos assuntos são abordados, poucos são desenvolvidos e, no final, o impacto maior vem mais do espetáculo, da forma, do que do conteúdo, mas ainda é um filme que deixará sua marca por sua singularidade.

 

Por Júlia Rezende

7

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