Manual Prático da Vingança
Diretor
John Patton Ford
Elenco
Glen Powell, Margaret Qualley, Jessica Henwick
Roteirista
John Patton Ford
Estúdio
Diamond Films
Duração
105 minutos
Data de lançamento
26 de fevereiro de 2026
O tropo de “eat the rich”, em que personagens ricos acabam morrendo ou, ao menos, perdendo todo seu prestígio, como em filmes como “O Menu”, “Triângulo da Tristeza” e “Parasita” (entre muitos outros), depende primeiramente de um elemento-chave: o desprezo do espectador em relação ao personagem rico. A beleza desse tipo de narrativa é poder acompanhar o opressor provando de seu próprio veneno ao se tornar o oprimido, e não que seu sofrimento seja “simplesmente” por ter muito dinheiro. O restante também tem que se alinhar, mas esse deve ser o fio condutor. O novo filme de John Patton Ford, “Manual Prático de Vingança”, traz a estrutura clássica de um “eat the rich”, mas, diferente de seu primeiro filme, Emily, A Criminosa (2022), falta a conexão do público com o protagonista e o desprezo do público em relação às vítimas. Não porque eles são pessoas boas, mas porque eles não têm tempo de tela suficiente para que possamos sentir algo por eles.
O filme começa com Beckett Redfellow (Glen Powell) na prisão, a quatro horas de encarar a cadeira elétrica e enquanto ele se confessa para um padre, nos conta a história de sua vida e como ele foi parar nessa posição. Os Redfellows são uma dinastia riquíssima, mas quando a mãe de Beckett engravidou antes do casamento, foi expulsa da família e, mais importante, de sua fortuna. Criado apenas pela mãe, apesar de pobre Beckett teve uma educação digna de um herdeiro, pois ela acreditava que um dia ele poderia vir a herdar a fortuna da família, mas quando virou um adulto, a herança permanecia a 7 mortes de distância e Beckett nunca conseguiu elevar seu status social apenas com esforço. Trabalhando numa loja de roupas de luxo, Beckett acaba reencontrando seu amor de infância, Julia (Margaret Qualley). Ela é rica, elegante e inevitavelmente soberba, um combo que a torna inalcançável para Beckett, mas em vez de desistir, decide mudar sua vida, custe o que custar. O caminho mais fácil, é claro, é ir atrás da herança da família. Se o destino não se encarrega de dar fim aos que estão antes dele na linha de sucessão, Beckett vai dar um jeito com suas próprias mãos.
A decisão de matar cada um de seus familiares que estão na fila para receber a herança bilionária é absurda, mas esse é o objetivo. “Manual Prático da Vingança” é uma comédia de humor ácido, que até tenta colocar um pé na sátira, mas nem sempre tem sucesso nesse quesito. Glen Powell tem o desafio de dar vida a um personagem que deve se sair bem como um assassino de sangue frio, mas sem perder o charme e o carisma – e ele quase consegue. Em defesa de Powell, a culpa é principalmente do roteiro, que não dá a Beckett tempo ou desenvolvimento suficiente para que ele se torne um personagem completo, uma pessoa que poderia, de fato, ser real ou ao menos um personagem pelo qual poderíamos torcer; o ator faz o que está ao seu alcance, mas não entrega todo o potencial de sua atuação. Nesse quesito, os maiores destaques são Margaret Qualley, que faz uma espécie de femme fatale com uma naturalidade impressionante e Ed Harris, que interpreta o tio de Beckett e rouba a cena sempre que aparece.
Os membros da família Redfellow também são pouco desenvolvidos, aparecendo muito pouco antes de encontrar seu destino final, uns sendo mais interessantes que outros. No lado positivo, as mortes são (quase todas) divertidas e criativas, rendendo bons momentos e algumas risadas. O problema é que o filme espera que o espectador apenas aceite que um homem sem recursos extraordinários consegue matar diversas pessoas, todas da mesma família, sem ser pego no processo. Ele é pego depois, já que o filme começa com ele na prisão, mas antes disso acontecer, consegue continuar eliminando pessoas pela simples, e extremamente conveniente, incompetência do investigador. Se essa fosse a única conveniência do roteiro, talvez seria mais fácil de deixar passar, isso se repete com uma frequência que é impossível de se ignorar.
Há coisas boas no filme, mas elas aparecem mais como ideias com potencial do que ideias concretizadas. Apesar da premissa “absurda”, o roteiro é estranhamente contido, preferindo manter o pé no chão, em vez de partir para consequência mais extremas, como no filme “A Única Saída”, que parte de um pressuposto parecido. Como sátira, seu comentário social acerca da disparidade de classe também passa despercebido, fazendo com que o filme fique distante do que poderia ser.
Por Júlia Rezende