Morte e Vida Madalena
Diretor
Guto Parente
Gênero
Comédia
Elenco
Noá Bonoba, Nataly Rocha, Tavinho Teixeira
Roteirista
Guto Parente
Estúdio
Embaúba Filmes
Duração
85 minutos
Data de lançamento
17 de setembro de 2026
A experiência de ser surpreendido no cinema é maravilhosa, mas a experiência de ser surpreendido no cinema com um filme nacional é muito melhor. “Morte e Vida Madalena”, escrito e dirigido por Guto Parente, é um dos filmes mais autênticos e irreverentes do cinema brasileiro recente e uma prova do quanto ainda há para ser explorado dentro da nossa cultura. Utilizando-se da metalinguagem, o roteiro de Guto Parente faz uma homenagem crítica e muito observadora ao cinema de guerrilha no Brasil. Através de uma mulher grávida como protagonista, traça um paralelo entre dar à luz um bebê e dar à luz um filme. Há um ditado que diz que é preciso uma vila inteira para criar uma criança e aqui vemos a prova de que o mesmo vale para criar um filme. O senso de comunidade, a superação de adversidades e o afeto, são todos comuns a ambos os processos e “Morte e Vida Madalena” conquista o público ao saber traçar esse paralelo de forma clara, mas também sutil.
Há muitos aspectos a serem destacados nessa obra, mas talvez o que mais mereça destaque seja sua brasilidade, a começar pelo elenco. Ainda são raros filmes que tragam tamanha representatividade brasileira em seu elenco. Aqui, a representatividade vai além da variedade de sotaques, de cores, de gêneros. A própria protagonista, Madalena, é vivida por Noá Bonoba, uma atriz trans que interpreta uma mulher cis – e grávida. A luta para que personagens transexuais sejam interpretados por atores e atrizes também transexuais ainda existe e é extremamente importante, mas dar a esses profissionais a oportunidade de interpretar qualquer papel (principalmente considerando a quantidade significativamente limitada de personagens transexuais) é tão importante quanto, e “Morte e Vida Madalena” faz isso com naturalidade, sem fazer alarde. Nenhum dos personagens precisa se explicar em relação a suas particularidades. Dentro dessa história (assim como na vida real) são apenas atores – e isso basta.
Na história, Madalena está numa gestação avançada quando seu pai, diretor de cinema independente, acaba falecendo antes de começar a filmar um projeto especial para ele: um filme B, de ficção científica, e baixo (baixíssimo) orçamento. Madalena trabalha como produtora e decide dar continuidade ao filme, mesmo que isso signifique arranjar um novo diretor, organizar a equipe, cuidar do financeiro e tudo o mais. Como solução imediata, resolve chamar o ex-marido para dirigir; ele tem certa experiência, mas também tem uma má reputação: ele sempre some e ninguém é muito fã da forma como ele lidera o set de filmagem. Como Madalena está sem opção, acaba indo com ele mesmo, mas todo rumor tem um fundo de verdade e os rumores sobre Davi acabam sendo verdadeiros e, logo no começo da produção, ele simplesmente desaparece. Mais uma vez sem opção, mas ainda determinada a fazer o filme acontecer e manter o trabalho de sua equipe e de seu elenco, Madalena é obrigada a apelar para Oswaldo, um dos atores do filme e grande amigo de seu falecido pai. Oswaldo tem bom coração, mas é muito melhor ator do que diretor, e rapidamente as gravações saem completamente dos trilhos.
“Morte e Vida Madalena” tem o tipo de humor sem esforço que faz rir sem parecer ter essa intenção. É um humor do absurdo, mas surpreendentemente realista, principalmente para quem já esteve num set de filmagem alguma vez na vida. Sempre desafiando os prazos e o financeiro, Madalena se desdobra em mil enquanto precisa botar ordem num set e lidar com o estágio final de sua gravidez, dentre outros aspectos de sua vida pessoal. A atuação de Noá Bonoba é o equilíbrio perfeito entre sensibilidade e dureza, dois lados de Madalena que nem sempre aparecem na hora apropriada para cada um, mas a beleza de “Morte e Vida Madalena” também está nos desencontros, na imperfeição das relações humanas – imperfeitoção que é também a alma do filme fictício que Madalena acaba parindo. A relação entre a equipe do filme e a comunidade da cidade onde estão filmando é um ótimo exemplo da universalidade do cinema como agente agregador. Os habitantes começam vendo os membros da equipe como forasteiros, mas aos poucos vão se integrando até formarem uma só comunidade. É um processo tão engraçado quanto bonito de se ver e admirar: um vislumbre dos bastidores do cinema sem o glamour que muitas vezes existe no imaginário do espectador, mas com amor e boas intenções de sobra, mesmo quando o resultado não sai como o esperado. É um filme com todos (ou quase todos) os lados positivos e negativos do processo coletivo do cinema como arte e não como produto – e é uma delícia.
Por Júlia Rezende