7,7/10

Ninguém quer

Diretor

Greg Mottola, Oz Rodriguez, Jessica Yu, Lawrence Trilling, Hannah Fidell, Jesse Peretz, Jamie Babbit, Heather Jack, Richard Shepard

Gênero

Comédia , Romance

Elenco

Kristen Bell, Adam Brody, Justine Lupe

Roteirista

Erin Foster, Craig DiGregorio, Jane Becker, Lindsay Golder, Ryann Werner, Sarah Heyward, Megan Mazer, Bruce Eric Kaplan, Jenni Konner, Barbie Adler, Niki Schwartz-Wright

Estúdio

Netflix

Duração

21 a 31 minutos por episódio

Data de lançamento

26 de setembro de 2024 (1ª temporada); 23 de outubro de 2025 (2ª temporada)

Uma comédia centrada no relacionamento inesperado entre Joanne (Kristen Bell), uma agnóstica sem papas na língua, e Noah (Adam Brody), um rabino nada convencional.

Ninguém Quer acerta em algo que boa parte da televisão romântica contemporânea quase desaprendeu: não sente vergonha de ser uma comédia romântica. A série até veste a fantasia da modernidade — podcast sobre sexo, heroína agnóstica, diálogos rápidos, verniz de autoconsciência —, mas seu coração é clássico. E isso, aqui, não é defeito algum. Ao contrário: é justamente o que lhe dá graça, ritmo e apelo. Kristen Bell conduz Joanne com uma leveza muito segura, e Adam Brody transforma Noah num tipo raro no audiovisual atual, o homem gentil que não precisa ser humilhado, infantilizado ou esvaziado para parecer contemporâneo.

O grande mérito, porém, está em perceber que romance não se sustenta apenas na química do casal central. Ninguém Quer flui porque entende a função dramática do entorno. Morgan, Sasha, Esther, Bina, os pais, os agregados, os incômodos sociais e familiares: ninguém está ali apenas para encher cena. São personagens que tensionam, comentam, perturbam e humanizam a relação principal. É por isso que a série nunca parece depender de um truque ou de uma reviravolta artificial para continuar interessante. Ela anda sozinha, porque foi escrita sobre pessoas, não sobre mecanismos.

Há também uma honestidade curiosa no texto. A série flerta com a linguagem da ruptura, com o imaginário do romance “atualizado”, com a pose de quem quer se afastar dos velhos papéis amorosos. Mas, no fundo, ela sabe que parte dessas convenções continua de pé porque continua fazendo sentido. Existe ali uma percepção muito simples, e por isso mesmo pouco comum hoje: cortesia não é opressão, estabilidade não é mediocridade, e ser bem tratada por um homem não é uma ofensa à inteligência de mulher nenhuma. Sob a embalagem contemporânea, Ninguém Quer preserva uma convicção antiga — e bastante saudável — de que amor, respeito, desejo e compromisso não precisam pedir desculpas por existir.

Mas o aspecto mais interessante da série talvez esteja na maneira como ela olha para o judaísmo. Inspirada nas experiências pessoais de Erin Foster, inclusive sua conversão, a obra não trata a tradição judaica como exotismo, piada pronta ou peça de museu. Trata como vida vivida: rito, família, humor, pertencimento, atrito e beleza. E isso ganha peso especial num cenário cultural marcado pelo pós-7 de outubro de 2023. Sem virar panfleto nem manifesto geopolítico — algo que a própria Foster disse não ser a intenção da série —, Ninguém Quer faz algo mais inteligente e mais raro: devolve humanidade cotidiana a uma identidade religiosa que frequentemente é reduzida, no debate público, à caricatura ou ao conflito.

Isso não significa que a série seja intocável. Há momentos em que certos tipos, sobretudo ao redor do universo judaico mais tradicional, resvalam no estereótipo e simplificam personagens que mereciam mais densidade. Essa crítica apareceu desde a primeira temporada, e com razão. O lado bom é que a continuação parece ouvir esse ruído e responder com mais nuance, redistribuindo afeto, humanidade e espessura aos coadjuvantes. É o tipo de correção silenciosa que não desfaz o charme inicial, mas melhora a maturidade da obra.

No fim, Ninguém Quer vale justamente porque não tenta vender falsa profundidade nem sabotar o próprio gênero para parecer esperta. É leve, mas não vazia; tradicional, mas não mofada; afetuosa, mas não tola. Em tempos de romances que confundem cinismo com sofisticação, a série tem a elegância de lembrar uma verdade antiga: a comédia romântica continua funcionando quando ainda acredita no amor.

9

Missão cumprida

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