6.8/10

No Limite da Justiça

Diretor

Elegance Bratton

Gênero

Ação , Drama

Elenco

Yahya Abdul-Mateen II, Mark Wahlberg, Nicole Beharie

Roteirista

Sascha Penn

Estúdio

Diamond Films

Duração

107 minutos

Data de lançamento

17 de setembro de 2026

Um conhecido assassino contratado pela máfia e um jovem agente negro do FBI se unem para investigar os assassinatos de líderes dos direitos civis no Mississippi em 1966.

“No Limite da Justiça”, novo filme de Elegance Bratton com roteiro de Sascha Penn, é um filme complicado em diversos sentidos: a história é baseada num caso real delicado e moralmente dúbio, os protagonistas, principalmente o personagem de Mark Wahlberg, operam numa zona cinzenta, a violência está sempre presente de uma forma brutal que, por mais que seja realista, por vezes parece gratuita e o filme, como um todo, não passa certeza em relação ao que pretende ser ou a impressão que gostaria de deixar marcada no espectador. O próprio título sugere essa linha tênue entre justiça e vingança, e o filme consegue deixar clara essa dificuldade em se determinar até onde faz sentido jogar dentro das regras e quando se faz necessário deixar essas regras de lado e fazer justiça com as próprias mãos. Consegue também instigar discussões e fazer pensar sobre o conceito de “os fins justificam os meios”. Violência só se resolve com (ainda mais) violência? 

O filme se passa numa época igualmente complicada, sobretudo para as pessoas negras nos Estados Unidos. Depois de conquistarem o direito ao voto, ainda eram vistas e tratadas, por pessoas brancas, como cidadãs de segunda classe. A Ku Klux Klan ainda tinha força e membros ativos e extremamente dedicados, aterrorizando vizinhanças, atacando casas e principalmente líderes da comunidade negra. Dentro desse contexto, diante dos incessantes assassinatos, o agente do FBI Wayne Strider (Yahya Abdul-Mateen II) é colocado para investigar o caso. Ele é um dos dois únicos agentes negros em sua unidade, numa época em que era possível identificar pelo nome os poucos agentes negros em todo o FBI. Ele também é um homem correto, sob todos os aspectos. Wayne acredita na justiça alcançada através da lei, da ordem. Ele segue todas as regras do FBI, é o funcionário perfeito, mas isso não significa que sua autoridade seja respeitada; pelos colegas, talvez, mas para os investigados, ele é apenas “mais um negro”. Com dificuldade de avançar na investigação, o FBI traz uma carta coringa, um homem que não tem medo de fazer o que for necessário (não importa o que seja) para chegar ao resultado esperado. Esse homem é Greg Scarpa (Mark Wahlberg), que trabalha a favor de quem o contrata; ele não defende nenhuma causa específica, não é nenhum aliado da comunidade negra. Ele só faz seu trabalho, o que geralmente envolve espancar pessoas, inescrupulosamente, com o intuito de arrancar uma delação ou uma confissão.

A violência é um tema recorrente e central de “No Limite da Justiça”, sua cena de abertura é uma sessão de tortura, e aqui a violência é uma via de mão dupla: vemos a violência do racismo e a violência da reação ao racismo. Principalmente por se tratar de uma história real, faz muito sentido que a violência apareça, afinal de contas ela aconteceu, assim como o Ku Klux Klan existiu e o racismo não só aconteceu, como continua acontecendo. Há um comprometimento histórico quando se decide retratar a violência de forma tão crua, tão visceral, mas há também um certo descuido em relação ao que se pretende com tudo isso. O termo “torture porn” existe para falar de filmes que optam por mostrar cenas excessivamente violentas gratuitamente, como se houvesse um prazer em se demorar nas torturas, na crueldade, de forma voyeurística. “No Limite da Justiça” brinca também com o limite desse termo. Só porque havia violência, ela precisa ser mostrada exaustivamente na história, com cenas longas e explícitas? Há quem diga que sim, mas o resultado disso no filme de Elegance Bratton é mais distrativo do que complementar à narrativa. 

A relação entre Wayne e Scarpa poderia ter ocupado mais espaço do que as cenas de tortura – é facilmente a parte mais interessante do filme. Os dois têm uma dinâmica provocativa, a todo tempo, Scarpa coloca as crenças de Wayne em xeque, desafiando seus limites e tudo que o transformou na pessoa que é. Eles começam como completos opostos, mas são obrigados, pela realidade à qual são submetidos, a trabalhar juntos e começarem a enxergar um pouco mais do mundo com os olhos do outro. Como espectadores, passamos por uma transformação semelhante à de Wayne, cada vez que vemos a Justiça falhar e a violência responder à altura. 

As atuações dos dois protagonistas são tão viscerais quanto as situações pedem, o que acaba elevando o filme com uma injeção de (às vezes discreta) sensibilidade. Conforme a história se desenvolve, somos capazes de nos identificar mais com as duas partes, mas não tanto com a narrativa do filme como um todo. Os personagens são ricos o suficiente. Wayne tem diversas questões que poderiam ser mais exploradas, como sua relação com a esposa, a família e sua cidade natal, mas o que é feito com eles não é eficiente e acaba ficando em segundo plano em relação à violência.

 

Por Júlia Rezende

6.5

Em órbita