O Sorveteiro
Diretor
Eli Roth
Elenco
Charlie Zeltzer, Eli Roth, Benjamin Byron Davis
Roteirista
Eli Roth
Estúdio
Diamond Films
Duração
86 minutos
Data de lançamento
03 de setembro de 2026
Tanto os trailers quanto os demais materiais promocionais de O Sorveteiro, novo terror slasher dirigido por Eli Roth, empolgaram pelo contraste: um visual colorido, alegre, uma atmosfera de verão, férias, diversão, música que anuncia o carro do sorvete ao fundo e, do outro lado, crianças assassinas. O início do filme é igualmente intrigante: ele abre com crianças jogando beisebol num bairro digno de comercial de margarina. Parece o dia perfeito para quase todas as crianças, já que Jared (Charlie Zeltzer) é alvo constante de bullying, mas nem isso é suficiente para estragar a sensação de férias no ar. No entanto, quando o novo homem do sorvete chega à cidade, vendendo sorvetes com nomes suspeitos e com um sorriso desconfortavelmente grande estampado no rosto, as coisas começam a mudar: no meio da noite, as crianças acordam e saem matando todos os adultos que veem pela frente, a começar por seus próprios pais. Algumas poucas crianças se salvam, entre elas Jared, que é intolerante à lactose e acabou não provando o sorvete, e então elas eventualmente se juntam na tentativa de sobreviver e salvar a cidade.
A premissa é simples e um tanto maluca, mas esse está longe de ser o maior problema de O Sorveteiro – podia muito bem ser um trunfo, inclusive. Filmes que já começam descompromissados com a ideia de serem “levados a sério” geralmente têm a vantagem de poder ousar o quanto bem entenderem, o que costuma levar a resultados no mínimo divertidos. Essa possibilidade era bem clara para O Sorveteiro, mas Eli Roth simplesmente não soube aproveitá-la. Apesar do começo interessante, assim que as mortes começam, começam também os defeitos. A violência gratuita é o ponto alto do filme (esse é o objetivo, afinal de contas), mas os efeitos, mesmo quando práticos, são pouco convincentes e as matanças são pouco inspiradas. O Sorveteiro é um terrir (filme que une terror com comédia), então há uma comicidade nos atos, mas esse humor não é bem equilibrado e só faz diminuir o impacto da violência em si.
O desequilíbrio da produção como um todo fica ainda mais evidente quando o filme tenta ser algo além do slasher mais básico. Os diálogos são sofríveis, principalmente quando temos a família de Jared conversando ao redor da mesa de jantar (Eli Roth faz uma participação como ator, inclusive). As atuações deixam a desejar e as piadas forçadas mais falham do que funcionam. Mais tarde, quando o filme tenta explorar uma mitologia por trás do Sorveteiro, as coisas só pioram: é uma história derivativa, que faz pouco sentido e em nada acrescenta ao material que nos foi apresentado até então. É claro que um filme como esse não seria reconhecido por seu roteiro espetacular – esse não é o intuito, e não há nada de errado com isso. Mas como mencionado, poderia ser, ao menos, um filme divertido – e passa muito longe disso.
É até curioso (para não dizer decepcionante) que Eli Roth, um cineasta que já entregou tantos bons filmes de gênero, seja responsável por O Sorveteiro. O diretor já demonstrou um trato muito mais criativo, refinado e, no geral, bem-feito do slasher e da violência na ficção, mas aqui parece ter se rendido a um jeito mais desleixado de fazer filme. Não ajuda em nada o fato de que, após ter vendido o filme como 100% artesanal, Roth precisou voltar atrás para “confessar” que havia feito uso de Inteligência Artificial em ao menos dois elementos. Parece ser um reflexo direto do esforço empregado para entregar O Sorveteiro.
Por Júlia Rezende