6.4/10

Refém Por Um Fio

Diretor

Gus Van Sant

Gênero

Drama , Suspense

Elenco

Bill Skarsgård, Dacre Montgomery, Al Pacino

Roteirista

Austin Kolodney

Estúdio

Pandora Filmes

Duração

104 minutos

Data de lançamento

20 de agosto de 2026

Em 8 de fevereiro de 1977, Tony Kiritsis entrou no escritório de Richard Hall, presidente da Meridian Mortgage Company, e o fez refém com uma espingarda serrada conectada a um "fio de homem morto" do gatilho até o pescoço de Tony.

Há histórias reais tão surpreendentes que é até estranho não terem sido transformadas em filmes de ficção antes e a história de Tony Kiritsis é uma delas. Antes de entrar nos acontecimentos que mudaram a vida de Tony Kiritsis para sempre, o novo filme de Gus Van Sant nos leva a uma verdadeira viagem no tempo. A textura da fotografia, a trilha sonora, a direção de arte e figurino criam uma representação perfeita dos anos 70. Essa imersão é especialmente bem-vinda porque a própria história e seus desdobramentos são fruto de seu tempo e da mentalidade que dominava os Estados Unidos na época. 

O ano era 1977 quando Tony Kiritsis (Bill Skarsgård) entrou em seu carro e ligou o rádio para ouvir o programa de seu locutor preferido, Fred Temple (Colman Domingo), enquanto dirigia para a Meridian Mortgage Company, com o objetivo de enfrentar o dono da empresa, mas ele estava de férias, então Tony teve que se contentar com o filho e presidente, Richard Hall (Dacre Montgomery). Assim que Tony entra na sala, revela uma espingarda e sua intenção de transformar Richard em refém; para tanto, ele usa uma linha para conectar o gatilho da arma a seu refém: se acontecer qualquer coisa, como um ataque da polícia a Tony, a arma dispara automaticamente. É algo engenhoso, que poderia indicar alguma habilidade especial de um gênio do crime ou, ao menos, um criminoso com um pouco mais de experiência, mas esse claramente não é o caso de Tony. Ele já parece uma pessoa ambígua desde o princípio: é querido pelos membros da comunidade, mas dirige um carro com a placa “topless”, conseguiu entrar com uma espingarda num prédio comercial enorme, mas ela estava embalada numa caixa que não poderia enganar alguém com olhos um pouquinho mais atentos, e é óbvio também que seu estado mental não é dos melhores. Temos, portanto, um sequestro sem um sequestrador de verdade no controle. 

As atuações de Bill Skarsgård e de Dacre Montgomery são essenciais aqui. Quando o sequestro começa, sabemos muito pouco sobre o que levou Tony a esse extremo – e nunca chegamos a conhecer 100% da história, vamos descobrindo ao longo do filme alguns detalhes, mas são as atuações dos dois que ditam o ritmo e, principalmente, a intensidade da narrativa. Tony é um homem que fez uma hipoteca, através da Meridian, para comprar um lote que ele transformaria numa espécie de mercado local, para pequenos produtores, mas quando teve que atrasar o pagamento de algumas parcelas e não conseguiu qualquer tipo de negociação com a empresa, começou a desconfiar que eles estavam impedindo uma negociação com o intuito de fazer Tony perder o lote para que eles mesmos pudessem comprá-lo num valor mais baixo depois. Até que ponto essa história era fato, não sabemos, mas considerando tudo a que somos apresentados, não parece ser um mero delírio de Tony. Quando Tony pega Richard como refém, os dois também são opostos, de certa forma. Tony está hiperativo, no limite, demandando respostas e soluções (umas mais simples do que outras), enquanto Richard está em algum lugar entre um completo desespero e uma sobriedade contida e ambos os atores performam esses sentimentos com maestria.

Parte importante da narrativa, e ponto alto do filme no que diz respeito à ação, é o circo midiático que se criou ao redor de Tony, representado aqui pela figura do locutor de rádio – parte da história real – e pela jornalista fictícia Linda Page (Myha’la). A pedido do próprio Tony, Fred Temple acaba envolvido com a história e, depois, o restante da imprensa, chegando ao extremo com uma coletiva de imprensa para comunicar suas exigências, tudo enquanto Tony segurava a espingarda contra a cabeça de Richard e os jornalistas e fotógrafos assistiam. Algo assim parece impensável hoje em dia, mas a espetacularização do crime estava em alta e o filme recria esse momento com sucesso. A narrativa de “Refém Por Um Fio” é feita de altos e baixos no que diz respeito ao ritmo e à intensidade, entre cenas mais lineares, em que o foco é o estado psicológico de Tony e outras que exploram a parte do crime – mas todas mantendo o mesmo nível de qualidade e domínio da direção. 

 

Por Júlia Rezende

7.5

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