Rio de Sangue
Diretor
Gustavo Bonafé
Gênero
Ação
Elenco
Giovanna Antonelli, Alice Wegmann, Felipe Simas
Roteirista
Lucas Vivo García Lagos, Dennison Ramalho, Felipe Berlinck, Gustavo Rademacher e José Magalhães
Estúdio
INTRO Pictures
Duração
106 minutos
Data de lançamento
16 de abril de 2026
Filmes nacionais de ação já são relativamente raros; os de ação que fogem do eixo Rio-São Paulo, ou ao menos da temática de violência urbana, são mais raros ainda. “Rio de Sangue”, novo filme dirigido por Gustavo Bonafé, já se destaca por sua singularidade, mas vai além do gênero para construir uma narrativa com base em relacionamentos familiares e a relação entre o homem e a natureza, tecendo também um comentário social. Com Giovanna Antonelli como protagonista, o filme acompanha Patrícia, uma policial que vivia para o trabalho, mas é obrigada a se afastar de suas funções por conta de uma operação que dá errado. Repentinamente, sem rumo na vida profissional, Patrícia volta sua atenção para alguém que sente que deveria ter dado prioridade antes: sua filha, Luiza (Alice Wegmann). Luiza é médica e frequentemente vai a missões com uma ONG, nos territórios do Alto Tapajós, para ajudar povos indígenas. Patrícia vai atrás de Luiza, mas antes que elas pudessem começar a pensar em reparar a relação entre as duas, Luiza acaba sendo sequestrada por garimpeiros.
O primeiro diferencial de Rio de Sangue é o seu cenário, e ele é aproveitado ao máximo. Fruto da direção de fotografia aguçada de Rafael Martinelli, vemos uma Amazônia, mais especificamente a floresta amazônica, deslumbrante, principalmente em suas peculiaridades, mas também hostil quando a trama pede. Aqui, o cenário tem suas belezas, mas também suas funcionalidades e está bem integrado com o roteiro, inclusive nas cenas de ação. Não é sempre que essa região é explorada no nosso cinema e esse filme é um bom exemplo por que isso deveria mudar. O cenário, no entanto, não é o único elemento da cultura amazônica a se fazer presente. Embora a história gire em torno dessas duas personagens, a narração fica por conta de Mario (Fidelis Baniwa), um dos indígenas da região que, por consequência do destino, acabou afastado de sua comunidade. A história dele cruza com a de Patrícia e Luiza, mas também tem seu próprio propósito dentro e fora da narrativa; cumpre um papel além do da representatividade, para criar também um paralelo em relação à trama principal.
Ainda que ação e emoção estejam presentes e, de certa forma, bem consolidadas, há, no desenrolar da história um desequilíbrio em relação ao ritmo. Patrícia, com todas as habilidades de seu ofício, não mede esforços para salvar Luiza, enquanto tem que lutar contra uma quadrilha de garimpeiros inescrupulosos. É um tema interessante, e sempre que ação domina a cena, o resultado é sólido e envolvente, mas nos momentos de transição, quando a violência dá lugar para desenvolvimento do roteiro, do fio narrativo, há uma quebra do ritmo acelerado que é sentida abruptamente, em vez de ser uma transição suave, isso faz com que momentos menos intensos sejam sentidos como momentos “parados”. Parte do êxito das cenas de ação se dá por conta dos vilões, concentrados em duas figuras-chave: Baleado (Felipe Simas), sobrinho do chefe da quadrilha, tão ambicioso quanto impiedoso. Apesar de não apresentar muitas facetas além de ser um “cara mau”, faz esse papel muito bem, numa linha tênue entre loucura e pura maldade. E o chefe, Polaco, vivido pelo excelente Antonio Calloni; Polaco é um tipo mais complexo, e consequentemente mais interessante, de vilão. Ele faz maldades, mas não se delicia da violência, para ele, tudo que faz é apenas um meio para um objetivo inerente e suas nuances confundem o espectador sem que sua essência jamais seja omitida.
“Rio de Sangue” funciona como um bom exemplo, mas também como um bom filme, sobretudo quando ousa ser pioneiro e traçar um caminho único dentro do cinema nacional. Algumas conveniências de roteiro ainda o distanciam de ser um ótimo filme, como o fato de que todas as mortes são resolvidas com uma arma em poucos segundos, mas sempre que se trata das protagonistas, os vilões decidem ser especialmente criativos e engenhosos, um pouco mais de cuidado com esse tipo de questão, assim como com o ritmo narrativo, poderiam transformar o filme em algo ainda mais marcante. O resultado, no entanto, não deixa de ser instigante e positivo.
Por Júlia Rezende