Só Por Uma Noite
Diretor
Will Gluck
Gênero
Comédia
Elenco
Callum Turner, Monica Barbaro, King Princess
Roteirista
Travis Braun
Estúdio
Universal Pictures
Duração
102 minutos
Data de lançamento
20 de agosto de 2026
Sempre que o progresso é ameaçado pelo retrocesso, a arte, em todas as suas formas, é um bom indicativo do estado em que as coisas se encontram, seja pelo seu conteúdo ou pela censura do mesmo. Há algum tempo vem crescendo o debate acerca das cenas de sexo no cinema e na televisão, cada vez mais escassas. Quem não quer culpar a onda avassaladora de conservadorismo que assola o mundo inteiro, prefere dizer que o jovem de hoje em dia só não quer mais ver essas cenas “gratuitas”. Até faz sentido quando consideramos que esses mesmos jovens fazem parte de uma geração enraizada na Internet, no isolamento e no individualismo. Recentemente, em uma entrevista à ELLE Brasil, Gillian Anderson, estrela de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte, filme que traz o sexo não só em seu título, mas como um de seus motes, disse que “a relutância das gerações mais novas a cenas de sexo tem a ver com o tempo que passam diante das telas. Como essa impessoalidade não afetaria a percepção de algo tão intenso quanto dois humanos se tocando?”. O movimento mais razoável seria questionar por que cenas com intimidade estão causando desconforto, mas tem se optado por simplesmente questionar a existência, a “necessidade” das cenas em si. Um filme pode ser simplesmente um filme conservador, se assim a direção desejar, mas há algo de perturbador num filme que se diz progressista e “pró-sexo”, mas carrega uma mensagem extremamente conservadora disfarçada, como é o caso de “Só Por Uma Noite”.
O novo filme de Will Gluck traz uma premissa interessante em teoria: num Estados Unidos distópico, num futuro aparentemente não tão distante, o governo da moral e dos bons costumes instituiu um mandado que proíbe o sexo fora do casamento. Quem é casado não tem restrições, mas os solteiros são proibidos de manter relações sexuais, salvo uma única noite do ano, em que o sexo (obrigatoriamente com camisinha) é liberado. Essa única noite de liberdade acaba gerando um fenômeno parecido com o de “Uma Noite de Crime”, toda a “tensão” acumulada durante o ano é colocada para fora e as pessoas ficam ligeiramente enlouquecidas. É um grande evento, há contagens regressivas por todos os cantos, comemorações nos bares e restaurantes das cidades e todo mundo está procurando alguém (ou alguéns) para passar a noite. Os casais de namorados fazem planos especiais para essa única noite do ano em que podem, enfim, ter um pouco mais de intimidade.
Owen (Callum Turner) é um dos namorados animados para a noite, não só para o sexo, mas ele também pretende pedir a namorada em casamento. Já Allie (Monica Barbaro) é uma das solteiras que busca companhia – com sorte alguém agradável. Como é uma comédia romântica, você já deve esperar que Owen e Allie acabarão sendo o par um do outro para essa noite, e se apaixonando no meio do caminho. O filme, no entanto, é um pouco menos previsível que isso. Por um bom período de tempo, as situações envolvendo Allie e Owen, raramente juntos, são realmente interessantes. É engraçado ver os solteiros sedentos por sexo saindo desenfreados pelas ruas, fazendo loucuras pela última camisinha disponível no bairro inteiro (como as marcas não se preparam pra um evento como esse é uma incógnita) e tentando encontrar alguém que não vai fazer a noite mais importante do ano parecer um desperdício. Enquanto isso é tudo que acontece, “Só Por Uma Noite” é uma comédia romântica convincente; não tem as melhores piadas, mas os protagonistas são carismáticos, têm uma ótima química e os hormônios de todos estão à flor da pele de um jeito divertido. O problema começa (ou melhor, se intensifica) quando alguns “detalhes” do começo da trama vão aumentando e tomando proporções alarmantes até que o filme traia sua própria premissa e se mostre algo completamente diferente de tudo aquilo que demonstrava pretender ser até ali.
Assim que a trama nos é apresentada, nos primeiros minutos de filme, vemos o presidente dos Estados Unidos dizendo que essa nova lei é uma dádiva, uma garantia de que os valores tradicionais poderiam ser preservados. Diz que a gravidez na adolescência diminuiu drasticamente, assim como as doenças. Mas o filme também deixa bem claro que as pessoas não estão felizes com essa decisão. Há pichações de “f*da-se o mandado” por todos os cantos e os personagens se opõem a esse governo fascista – e “fascista”, aqui, não é mera interpretação, os personagens usam essa denominação em diversas ocasiões durante o filme, reconhecendo essa censura pelo que ela é. Para garantir que a lei será seguida, todas as pessoas têm dispositivos tecnológicos implantados no próprio corpo, que denunciam ao governo sempre que seus hormônios relacionados ao prazer sexual aumentam, o que, sinceramente, levanta mais questões práticas do que oferece respostas, mas podemos relevar. A impressão é de que é “impossível” burlar esse sistema, mas Allie tem uma amiga com quem divide o apartamento, e essa amiga diz que essa noite é dos heterossexuais e que os gays, lésbicas e afins têm seus jeitos para contornar a proibição.
Embora a maioria da população, ao menos dessa população jovem e solteira, pareça ser veementemente contra essa censura e esse governo fascista, em momento algum vemos qualquer tipo de movimento de resistência, algum grupo que lute efetivamente pela liberdade, além de escrever frases de efeito pelos muros da cidade, apesar de já estar estabelecido que um governo fascista criou uma lei fascista e isso é ruim. Essa posição, no entanto, não dura tanto tempo.
A partir daqui, haverá spoilers.
Desde o começo, Allie faz comentários sobre querer algo além da momentânea relação sexual que a “única noite” costuma trazer, mas ela ainda está saindo com a amiga, procurando alguém pra passar a noite. Conforme a história se desenrola, no entanto, esses comentários vão se tornando mais frequentes. Ela estabelece, inclusive, que Owen quer apenas sexo, mas ela quer sentimento. Em determinado momento, quando encontra mais um pretendente, um músico prepotente, mas cheio de charme, ela acredita ter encontrado essa pessoa. Ele é romântico, sentimental, e chega a dizer que esse mandado não é de todo ruim, porque só poder transar uma única vez no ano faz com que a situação seja mais especial, você tende a escolher com mais cuidado, é mais romântico. O fascismo tem um lado bom – novamente, não é mera interpretação, o personagem diz isso. Como dizem hoje em dia, está aí uma red flag enorme, não só em relação ao personagem, mas ao filme como um todo. As coisas entre o músico e Allie não dão certo (quem diria que o cara que diz que tem um lado bom no fascismo é um babaca?) e os comentários” de Allie são cada vez mais evidentes e o sexo passa a ficar em segundo plano, até chegarmos na cena final: depois de diversos desencontros, Owen e Allie percebem que estão apaixonados, nos últimos minutos da “única noite”, mas ainda dá pra aproveitar. Acontece que os dois decidem que eles não vão transar: a justificativa é que há muita pressão para transar nessa noite específica, escolhida pelo governo e que, se assim o fizessem, a lei fascista estaria ganhando. Faria certo sentido se eles transassem no dia seguinte, uma semana depois, um mês depois – se decidissem, enfim, desafiar o sistema, mas o que temos é um pulo temporal de um ano, para a próxima “única noite”, quando descobrimos que eles passaram um ano esperando, só para transar na próxima data estabelecida pelo governo.
É especialmente problemático que “Só Por Uma Noite” se venda como uma comédia romântica, uma comédia romântica de sexo, inclusive, como existia nos anos 2010, e crie toda sua identidade em cima disso. Há, de fato, personagens que querem sexo, eles se beijam por todos os cantos, os próprios protagonistas passam por isso, quase chegam aos “finalmentes”, mas o resultado final é o completo oposto. Não há qualquer problema em pessoas, casais, que não queiram transar, principalmente logo na primeira noite em que se conhecem – desde que seja, realmente, uma escolha. O próprio filme deixa bem claro que se trata de fascismo, de um governo que diz proteger os valores da família, de Deus (algo assustadoramente próximo da nossa própria realidade), mas começa a relativizar essa questão de acordo com a realidade única desses dois protagonistas, que “preferiram” esperar. De repente, o fascismo não é tão ruim assim, afinal de contas deixou a relação entre os dois ainda mais romântica, eles escolheram ficar um ano inteiro sem sexo e, por isso, o relacionamento deles agora é mais sólido, mais real e deixando, nas entrelinhas, a ideia que os demais não são.
Talvez a pior parte de tudo isso seja o fato de que é um filme que aparenta ser outra coisa: tem atores protagonistas que estão em alta, uma trilha sonora moderna, uma fotografia bonita, valorizando os cenários, um romance fofo, um grande estúdio por trás. Olhos menos atentos poderão focar nesses elementos e interpretar que estão assistindo a apenas uma comédia romântica com uma premissa mais “fora da caixinha”, em vez de um filme que se diz comédia de sexo, mas se torna mais negativo ao sexo a cada cena. É quase uma regra que, quando temos uma ficção de distopia, a história reconheça a gravidade e seus personagens resistam, lutem conta de alguma forma, mas em “Só Por Uma Noite”, eles apenas se adaptam. Temos uma distopia com um final feliz, sem que nada mude ou tenha qualquer perspectiva de mudar. No final das contas, eles parecem encontrar o lado bom do fascismo – como se isso existisse.
Por Júlia Rezende