O Testamento de Ann Lee
Diretor
Mona Fastvold
Elenco
Amanda Seyfried, Lewis Pullman, Thomasin McKenzie
Roteirista
Mona Fastvold, Brady Corbet
Estúdio
20th Century Studios Brasil
Duração
137 minutos
Data de lançamento
12 de março de 2026
O curioso em O Testamento de Ann Lee é que sua estranheza não parece um erro, mas o próprio projeto do filme. Mona Fastvold toma a história da fundadora dos Shakers — grupo cristão marcado por celibato, igualdade entre homens e mulheres, vida comunitária e culto extático feito de canto e movimento — e a encena como uma experiência de fervor e repressão ao mesmo tempo. O resultado é um longa que nunca oferece conforto: tudo nele pulsa como se a santidade estivesse sempre a um passo da histeria, e como se a recusa do sexo não eliminasse o desejo, apenas o devolvesse ao corpo sob a forma de transe, suor, tremor e violência contida.
Essa é a grande força do filme, mas também seu limite. Há uma inteligência real na forma como ele transforma uma religião baseada na abstinência em cinema de presença física quase sufocante. Ao mesmo tempo, o roteiro de Fastvold e Brady Corbet cai numa progressão excessivamente linear: infância difícil, casamento opressivo, perdas devastadoras, revelação, liderança, perseguição. A sucessão de traumas explica Ann Lee, mas nem sempre a dramatiza com a complexidade que a personagem pede. Em vez de aprofundar mais radicalmente as ambiguidades entre fé, delírio, carisma e poder, o filme às vezes parece satisfeito em organizar cronologicamente a fabricação de um mito. E aí a estranheza deixa de ser produtiva e vira monotonia solene.
Quando a música entra, porém, o filme muda de temperatura. Não porque se torne leve, mas porque finalmente encontra uma forma mais viva de respirar. As canções, construídas a partir de hinos Shaker retrabalhados por Daniel Blumberg, não funcionam como números de musical tradicional nem contam a história no lugar das cenas. Elas operam como suspensão, como liturgia, como alívio momentâneo dentro de uma narrativa áspera. Há nelas um desenho sonoro etéreo, coral, repetitivo, quase hipnótico, algo entre o devocional e o meditativo, sem cair na doçura fácil. É justamente nessas passagens que o filme flui melhor: a coreografia organiza o caos, a música dá forma ao incômodo, e a obra deixa de ser apenas esquisita para se tornar verdadeiramente envolvente.
Amanda Seyfried sustenta tudo com uma entrega impressionante. Sua atuação nunca tenta domesticar Ann Lee nem pedir a simpatia do público; ela interpreta a personagem como alguém atravessada pela dor, pela convicção e por uma energia quase animal, e isso torna críveis até os momentos mais extremos. Lewis Pullman também merece destaque, porque oferece ao filme uma presença menos grandiosa e mais frágil, mas igualmente precisa, funcionando como um contrapeso muito eficaz ao centro gravitacional de Seyfried. Visualmente, o longa é belo de um jeito severo: fotografia elegante, composição cuidadosa, corpos sempre organizados como se cada quadro estivesse à beira de uma explosão ritual.
No fim, O Testamento de Ann Lee é um filme admirável mais do que amável. Bonito mais do que prazeroso. Incômodo quase o tempo todo, e talvez corretamente incômodo. Sua melhor qualidade está em entender que a fé, quando filmada sem verniz, pode ser menos reconfortante do que perturbadora. Sua pior qualidade está em não conseguir transformar essa perturbação em progressão dramática com a mesma consistência com que a transforma em atmosfera. Fica um filme estranho, peculiar, por vezes fascinante, por vezes apenas árido — mas que encontra na música, no corpo e na atuação monumental de Amanda Seyfried as razões mais fortes para permanecer na memória.