5.6/10

Barba Ensopada de Sangue

Diretor

Aly Muritiba

Gênero

Drama , Suspense

Elenco

Gabriel Leone, Thainá Duarte, Ana Hartmann

Roteirista

Aly Muritiba e Jessica Candal

Estúdio

O2 Play

Duração

108 minutos

Data de lançamento

02 de abril de 2026

Após a morte de seu pai, Gabriel parte para a praia da Armação em busca de suas origens. O que ele acaba encontrando são versões contraditórias a respeito da figura misteriosa de seu avô, um esqueleto de baleia e uma cidade que quer enterrar seu passado a qualquer custo.

O início de “Barba Ensopada de Sangue”, novo filme de Aly Muritiba baseado no livro de Daniel Galera, começa num tom promissor e instigante. O jovem Gabriel (Gabriel Leone) chega em casa e encontra o pai, que já o esperava. Sem muito contexto, o pai começa um discurso falando sobre família, presente e passado e termina com o pedido de que Gabriel sacrifique a cachorra, Beta, assim que ele mesmo se for – e então se suicida. Gabriel não mata a cachorra, passa a cuidar dela e é junto com ela que ele vai para uma cidade litorânea pequena onde está a propriedade deixada por seu avô. Durante o discurso de despedida do pai, ele relembra o mistério que cerca a morte do avô, Gaudério. Gaudério foi declarado morto, mas ninguém nunca encontrou o corpo e as circunstâncias do ocorrido seguem dúbias. Gabriel também sabe muito pouco sobre Gaudério, e parte da sua decisão de ir para a cidade de Armação, onde viveu o avô, vem da vontade de entender mais sobre o passado. 

Quando Gabriel chega na cidade, o clima tenso criado pela cena de abertura é expandido e concretizado. Apesar da praia e do mar, Armação em nada se parece com um local paradisíaco. É inegavelmente bonito, a fotografia faz um ótimo trabalho em transparecer isso, mas não é solar como se espera de um ambiente tropical. A impressão é de que está sempre frio, nublado (é fim de temporada, mas esse parece ser o estado constante do lugar) e sombrio. É um flerte direto com o terror, principalmente quando Gabriel chega à cidade, com a desculpa de que vai vender a casa do avô, e é mal recebido por todos. Os locais rechaçam sua presença também por ser uma espécie de intruso, mas sobretudo por ser neto de quem é. Para os moradores, Gaudério virou uma espécie de lenda, falam dele como se estivessem falando do próprio demônio, mas sempre com pequenas indiretas, histórias contadas pela metade e encaradas gratuitas, que Gabriel recebe sob o pretexto de ser muito parecido com o avô.

A temática do forasteiro que aparece num lugar ermo com um passado sinistro é interessante, ainda que batida, mas cedo demais dá lugar a outras narrativas menos impactantes. Gabriel, como se já não tivesse problemas suficientes com a comunidade, se envolve com uma local, Jasmin (Thainá Duarte), que está grávida. Uma ex-namorada, que agora é casada com o irmão de Gabriel, aparece para tentar fazer com que ele volte para sua cidade e traz com ela algumas informações reveladoras, mas superficiais, sobre quem Gabriel era antes de tudo isso; sua relação com o pai, o irmão, e ela mesma, mas apesar de os diálogos serem longos (e não muito realistas), pouco é desenvolvido no que diz respeito ao conteúdo. Inclusive, essa não é a única situação em que diálogos, que deveriam avançar a trama, na verdade só aparecem para confundi-la ainda mais. Constantemente os moradores dão respostas enigmáticas a perguntas que nunca foram feitas, no que parece ser apenas uma conveniência de roteiro ou uma tentativa de suspense. 

O filme tem seus momentos mais envolventes quando traça uma relação entre a jornada de Gabriel e as baleias desse litoral. Ele é (era?) um professor de natação e em momentos introspectivos tem uma conexão forte com o mar. As baleias da região são alvo de pesca ilegal, muitas vezes sofrem nas mãos daquela população, mas seguem voltando e os agraciando com sua presença. Há uma conexão mais profunda para quem estiver disposto a procurar bastante, pois apesar da metáfora evidente, nem mesmo esse assunto é tratado com maior cuidado. A direção de Aly Muritiba se apoia muito em silêncios, o que por si só não é algo necessariamente ruim, mas parece haver um desequilíbrio entre diálogos excessivamente longos e silêncios que não querem dizer nada – ou se querem, faltam referências para que sejam compreendidos. O próprio protagonista, Gabriel, permanece distante do espectador durante praticamente todo o filme; sabemos muito pouco sobre seu passado, suas motivações e suas particularidades e até quando sabemos de algo, como sua condição que faz com que seja incapaz de reconhecer rostos, são informações que pouco acrescentam num prisma geral.  

Entre alguns pontos altos, a sensação que mais se fez presente no final das contas, foi a de que eu estava assistindo a um filme mais arrastado do que deveria e que focou tanto no mistério que esqueceu que tinha que entregar algo ao espectador enquanto não era revelado. Algumas atuações funcionam melhor que outras, a fotografia se destaca como ponto positivo, enquanto a direção aposta numa câmera mais estática que acaba tirando o dinamismo e contribuindo para a sensação de “arrastado”. Ainda há mérito numa narrativa que se distancia do mainstream para criar um caminho inteiramente próprio (ainda que a ideia central seja adaptada de um livro) e que parece segura em relação à atmosfera em que decide se inserir. É possível, inclusive, que pessoas mais propensas a preencherem, sozinhas, essas lacunas, possam aproveitar muito mais o filme.

 

Por Júlia Rezende

6.5

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