7.2/10

O Diabo veste Prada 2

Diretor

David Frankel

Gênero

Comédia , Drama

Elenco

Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt

Roteirista

Aline Brosh McKenna

Estúdio

20th Century Studios

Duração

119 minutos

Data de lançamento

30 de abril de 2026

Miranda Priestly enfrenta o declínio da mídia impressa e a pressão do setor digital enquanto tenta preservar a relevância da Runway; Andy Sachs volta a cruzar seu caminho, e Emily Charlton retorna como uma executiva influente do mercado de luxo, criando uma nova disputa de poder em torno da sobrevivência da revista.

“O Diabo Veste Prada 2” tinha tudo para ser apenas mais uma daquelas continuações tardias que fingem necessidade artística quando, na verdade, só respondem ao medo de Hollywood de abandonar marcas conhecidas. Mas o filme encontra um caminho mais interessante justamente por assumir o peso dos vinte anos que o separam do original. Não tenta fingir que o mundo ainda é o mesmo, nem que a moda, o jornalismo e a cultura do prestígio continuam operando sob as mesmas regras. A Runway de 2006 pertencia a um tempo em que uma revista ainda podia parecer um templo, a Runway de 2026 precisa sobreviver num ambiente em que influência, publicidade, escândalo e relevância digital se confundem até virarem a mesma coisa.

O melhor do filme está nessa percepção de decadência. Não exatamente a decadência glamourosa, fotografada como ruína bonita, mas uma decadência mais incômoda: a de instituições que já foram centrais e agora precisam negociar com aquilo que desprezavam. O longa entende que há algo de melancólico e ridículo em ver personagens formados por uma lógica de excelência, hierarquia e crueldade elegante tentando respirar num tempo que troca autoridade por engajamento e prestígio por adaptação. É nesse exploração que a sequência funciona melhor. Há modernidades que o filme aceita porque precisa aceitar e outras que ele engole com evidente desconforto.

O retorno de Andy Sachs é um dos pontos mais fracos do longa. A personagem de Anne Hathaway volta a esse universo por uma justificativa funcional, mas nem sempre orgânica. Ainda assim, Hathaway reencontra Andy com maturidade e presença. A antiga assistente volta como alguém que conhece o preço daquele mundo e já não pode olhá-lo com inocência. O filme é muito mais convincente quando usa Andy como testemunha de uma transformação histórica do que quando tenta encaixá-la em engrenagens narrativas excessivamente convenientes.

A personagem de Emily Blunt, por sua vez, entra perfeitamente o jogo. A nova posição de Emily Charlton, agora integrada ao alto escalão do luxo, é uma das melhores ideias da sequência. Há ironia suficiente em transformar uma ex-assistente neurótica em peça decisiva da sobrevivência de Miranda. O roteiro aproveita bem essa inversão, porque ela não soa apenas como homenagem ao primeiro filme, mas como consequência lógica de um universo em que todos aprenderam algo com a brutalidade da Runway.

O problema mais grave está justamente onde o filme mais precisava ser implacável: Miranda Priestly. Meryl Streep continua sendo Meryl Streep, e isso por si só impede qualquer desastre de atuação. A fragilidade está no roteiro. A Miranda original era uma entidade. Não precisava gritar, explicar ou se justificar; sua autoridade nascia do controle absoluto do ambiente, da palavra precisa, do silêncio devastador. Aqui, a personagem aparece vulnerável demais, sorridente demais, reativa demais, quase humana demais para aquilo que o próprio mito construiu. Não se trata de impedir que Miranda envelheça, perca poder ou seja confrontada por um novo mundo. Pelo contrário: esse seria o conflito mais rico do filme. O problema é que a vulnerabilidade, quando mal calibrada, transforma uma figura monumental em uma personagem apenas instável. Miranda deixa de parecer três passos à frente e passa a correr atrás da própria lenda.

Essa mudança enfraquece (e muito) a sequência. “O Diabo Veste Prada” nunca foi apenas sobre moda; era sobre poder, disciplina, humilhação, ambição e o fascínio perigoso por mundos que exigem a mutilação de algo íntimo em troca de pertencimento. Ao tornar Miranda mais imprevisível do que estrategista, a continuação perde um pouco da tensão que fazia cada entrada da personagem parecer uma alteração climática. O filme quer discutir a queda de uma rainha num império em crise, mas por vezes escreve essa queda com menos sofisticação do que deveria.

Ainda assim, há mérito na forma como a produção evita se transformar numa celebração automática do passado. As referências ao filme de 2006 existem, e muitas são deliciosamente calculadas, mas não sufocam completamente a narrativa. David Frankel e Aline Brosh McKenna retornam ao universo com consciência de que a lembrança do público é uma ferramenta poderosa, mas também perigosa.

A trilha sonora, porém, nem sempre acompanha essa inteligência. O filme tenta atualizar sua energia musical com escolhas mais contemporâneas, incluindo a participação divertida de Lady Gaga, mas há algo de deslocado nesse esforço de parecer atual. A trilha de 2006 tinha uma elegância pop mais integrada ao espírito daquele mundo. Aqui, algumas escolhas parecem mais preocupadas em marcar época do que serem adequadas para a cena (a cena de abertura, por exemplo, é decepcionante).

Ao final, “O Diabo Veste Prada 2” é melhor quando aceita ser um filme sobre perda: perda de centralidade, de autoridade, de glamour institucional, de um certo mundo em que revistas ainda ditavam desejo e comportamento. É uma sequência contida (algo como um filme para o streaming, não para o cinema), mas muito mais interessante do que a existência tardia poderia sugerir. Falha demais ao reescrever Miranda com menos precisão do que a personagem exige, e isso pesa bastante. Mas acerta ao perceber que voltar à Runway vinte anos depois não poderia ser apenas reencontrar roupas bonitas, frases afiadas e elevadores dramáticos.

6

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