ELVIS | AUSTIN BUTLER TRAZ O REI DO ROCK DE VOLTA À VIDA

Elvis Presley é uma daquelas pessoas que além de se destacar pelo seu talento, acaba virando uma celebridade. Nesse caso, sua fama vai muito além do estigma de celebridade e cantor. Elvis ganhou, ao longo das décadas, um status quase que divino de admiração. Você pode ser das novas gerações e não conhecer muito de sua história, ou até ser um pouco mais velho, mas não ter tanta afinidade com sua música, mas independente de idade, gênero, nacionalidade ou qualquer outra coisa, sempre há uma certeza: você conhece o rei do Rock, nem que seja o mínimo e, ainda que você não saiba, Elvis está presente na música que consumimos até hoje.

Elvis é – oficialmente – um filme biográfico, mas não vá aos cinemas esperando descobrir grandes segredos ou pessoalidades da vida do astro, a maior parte do que vemos no filme poderia ser facilmente descoberto lendo a página de Elvis Presley no Wikipédia, mas isso é irrelevante. O diretor Baz Luhrmann capta a alma de Elvis de outra forma aqui, e o showman ganha um filme que é um espetáculo, nos detalhes e nos exageros, à altura de sua grandiosidade. Embora oficialmente uma biografia, Elvis é primeiro um musical – e é excelente como tal.

Baz Luhrmann, que também atuou como roteirista do longa, é conhecido pelo seu gosto pelas cores e visuais fantasiosos, como em O Grande Gatsby e Moulin Rouge, esse último tendo claramente emprestado algumas referências para Elvis, principalmente no modo como a história é narrada, transformando a confissão do Coronel em um conto de fadas (que não teve lá um final feliz), trazendo um ar de sonhador e sobrenatural para uma história real e garantindo um filme que entretém durante todas as suas quase 3 horas de duração.

A história de Elvis é contada em forma de narração por Coronel Tom Parker (um Tom Hanks quase irreconhecível com diversas intervenções físicas), o agente que “descobriu” Elvis e o levou ao estrelato. Um Coronel decadente tanto na vida profissional quanto na pessoal, perto da morte por conta de problemas de saúde, é acusado pela imprensa de ter sido responsável pelos deslizes e limitações da carreira de Elvis – e também pela sua morte, mas é claro que Coronel não vê as coisas dessa forma, na cabeça dele, ele é tão responsável pelo sucesso de Elvis quanto o próprio Elvis e só zelou pelo bem do cantor durante toda sua vida, então ele escolhe outro culpado: nós. Coronel conta a sua história com Elvis diretamente para os fãs, dizendo que o que matou Elvis foi o amor dos fãs.

É claro que a história não é bem assim, e ainda que o narrador seja o próprio Coronel, não restam dúvidas de que ele foi o verdadeiro vilão e, apesar de ser sim um dos fatores mais importantes para o sucesso astronômico de Elvis, também foi responsável por diversos bloqueios na vida do cantor. A escolha de contar a história do ponto de vista do Coronel também deu a Tom Hanks a oportunidade de roubar o show, seu personagem é quase um protagonista junto com Elvis, e ainda que o talento de Tom Hanks seja incontestável, essa escolha fez com que tivéssemos uma visão um pouco mais distante do interior de Elvis e de suas reais emoções e motivações.

Os fatos importantes da vida de Elvis estão todos lá, sua relação próxima com a mãe, não tão próxima com o pai, o peso da morte de seu irmão gêmeo no parto, sua ascensão à fama, sua rebeldia e rebolado que quase o colocaram na prisão, seu alistamento ao exército pra evitar tal prisão, seu relacionamento com Priscilla Presley (apesar de terem deixado de fora que Priscilla tinha apenas 14 anos e ele 24 quando eles começaram a se relacionar), o preço da fama, seu retorno ao estrelato e o declínio da carreira. Nada é muito aprofundado ou realmente refletido, mas sempre retratado com muito brilho, o que de certa forma acaba compensando.

Desde o primeiro momento em que vemos Elvis na telona uma coisa fica muito clara: Austin Butler foi a escolha certa para o papel. Ninguém nunca vai se igualar a Elvis, isso também é muito evidente, mas Butler consegue capturar a essência de Elvis de forma admirável. Uma das coisas mais famosas e controvérsias de Elvis eram seus movimentos, Elvis dançava (e encantava) com os quadris, o que era um escândalo na época, e na primeira apresentação que vemos dele no filme, Austin Butler prova que fez a lição de casa e impressiona com os trejeitos incrivelmente parecidos com de Elvis numa cena em que vemos o efeito que Elvis tinha nas mulheres (e tem todos, na verdade) com sua dança. É uma cena divertida e uma metáfora para os perigos de se tornar um ídolo.

Elvis dançava do jeito que dançava e cantava do jeito que cantava porque, além do talento nato, bebeu da fonte da cultura negra. Criado pela sua mãe em um bairro tradicionalmente de negros, Elvis desde cedo cresceu com a influência da igreja e da música negra, conforme foi crescendo fez amizade com grandes nomes da música, como B.B. King que é interpretado no filme por Kelvin Harrison Jr. É B.B. King, inclusive, que faz a importante observação de que Elvis fazia o que fazia e saía com sucesso justamente porque era um jovem branco e não negro como eles. Esse é o motivo de Coronel ter se interessado tanto por Elvis no começo, Elvis cantava como negro, dançava como negro, mas era branco. Provavelmente Elvis é o caso de apropriação cultural de maior sucesso. Baz Luhrmann joga uma luz sobre toda a situação, faz questão de dar espaço a esses artistas negros que foram essenciais na criação de Elvis, mas poderia ter sido melhor e mais profundamente abordado. É nítida a tentativa de Luhrmann de fazer com que Elvis parecesse uma pessoa consciente e engajada politicamente, mas nem sempre isso acontece com uma naturalidade convincente.

O sucesso do filme tem o mesmo catalisador que o sucesso de Elvis: a música. A trilha sonora de Elvis é impressionante. Luhrmann sabe o que faz e, sabendo que o rei do Rock jamais poderia ser substituído, não tentou fazê-lo. Quase todas as músicas estão na voz do próprio Elvis, com exceção de uma ou duas cantada por Butler por conta do que a cena pedia. Além das versões que já conhecemos, clássicos são cantados por artistas atuais ou remixados com ritmos como hip hop, provando mais uma vez que Elvis é atemporal e ilimitado, seu legado presente em todo o mundo musical que conhecemos e consumimos hoje. Música excelente, atuações a altura e o visual arrebatador fazem de Elvis um musical que você não vai querer perder.