Extermínio: O Templo dos Ossos
Director
Nia DaCosta
Cast
Jack O'Connell, Alfie Williams, Connor Newall
Writer
Alex Garland
Company
Sony Pictures
Runtime
109 minutos
Release date
15 de janeiro de 2026
Já pode-se dizer que a franquia de Extermínio é um fenômeno, com seu primeiro filme tendo sido lançado em 2002 e sendo um dos precursores do que conhecemos como filmes de zumbi e infecção, uma sequência que veio 5 anos depois e, quase 2 décadas mais tarde, um filme que não só fecha a trilogia original como inicia uma segunda. Extermínio: Templo dos Ossos é o quarto filme da franquia e o título do meio dessa nova trilogia, iniciada em 2025 com Extermínio: A Evolução. Criada a partir de uma ideia original de Alex Garland, os três primeiros filmes tiveram também a sua direção e seguiram um estilo bem específico, principalmente no que diz respeito à fotografia. O visual mais rústico e mais urgente combinavam perfeitamente com a história sendo contada, o que virou do mundo depois que um vírus infectou praticamente toda a população. Enquanto os primeiros filmes exploraram mais o vírus – e os infectados – como uma novidade, Extermínio: A Evolução deu os primeiros passos para uma nova abordagem, não menos coerente. Quase nunca um filme de zumbis é “apenas” um filme de zumbis, e a progressão dessa história nos prova mais uma vez a máxima de que o pior vilão é sempre o homem.
No filme de 2025 conhecemos Spike e sua família. O pai, um homem forte e determinado, a mãe, uma pessoa frágil e desestabilizada. Foi a partir dessa família que Extermínio aumentou seu escopo e aprofundou sua visão focando não mais nos infectados, e sim na humanidade. Como antagonista do mundo destruído e sem esperança a que fomos anteriormente acostumados, fomos então apresentados ao Dr. Kelson, um homem da ciência, mas que carrega dentro de si uma compaixão e compreensão da qualidade humana que, geralmente, estão reservadas àqueles que se dedicam à religião. Em Extermínio: Templo dos Ossos, esses fatores são elevados a um novo patamar e tanto o vírus quanto suas vítimas são colocados, temporariamente (ou não) em segundo plano. Esse talvez seja o momento mais desafiador para colocar essa história nas mãos de outra pessoa, mas nesse caso, também se provou o mais acertado. Alex Garland e Danny Boyle passaram as rédeas da direção para Nia DaCosta e a diretora, mais uma vez, entregou um trabalho de excelência, conseguindo deixar sua impressão numa obra já consolidada através de outro olhar.
Os minutos finais de Extermínio: A Evolução já mostravam que uma mudança brusca estava por vir, quando conhecemos a gangue dos Jimmys. Liderados pelo Sir Jimmy (Jack O’Connell), eles são um dos dois caminhos trilhados separadamente na primeira metade do filme. Depois de terem salvado Spike da morte, o recrutaram para a gangue (ou seria uma seita) em que todos se vestem igual, tem o mesmo cabelo (usando perucas) e são chamados de Jimmy. Eles são a representação da religião nesse momento pós-apocalíptico, mas em vez de acreditarem em Deus, creem que o grande poderoso agora é o diabo, “Nick” como eles chamam. Mais do que isso, o Jimmy original prega ser filho de Nick, o próprio Jesus às avessas.
Se os infectados são aterrorizantes, os Jimmys provam que sempre pode piorar. Utilizando da violência extrema (e até fazem lembrar a ultraviolência de A Laranja Mecânica), o grupo sequestra, tortura e mata basicamente qualquer um que cruze seu caminho, resultando no filme com mais gore de toda a franquia – uma boa notícia para os fãs dessa vertente do terror. O grupo é estruturado como uma seita, dependendo unicamente na confiança dos membros de que o Jimmy principal é mesmo o prometido e esse fato é muito bem explorado quando essa trama se encontra com a outra que corre em paralelo, tendo como ponto em comum o próprio Dr. Kelson.
O ator Ralph Fiennes como Dr. Kelson em Extermínio: O Templo dos Ossos entrega uma das melhores atuações de sua carreira e o êxito do filme está diretamente conectado a essa performance; o personagem é o ponto central de toda a história. Ele começa o filme ainda levando sua vida solitária no Templo dos Ossos, espaço construído por ele mesmo como um monumento à memória das vítimas do vírus, mas sua calmaria logo é interrompida pela aparição do infectado-alfa (Chi Lewis-Parry) a quem ele afetuosamente dá o apelido de Sansão. É claro que, a princípio, Sansão tenta matar o Dr. Kelson, mas depois que é atingido por uma dose de uma droga que tem morfina em sua composição, acaba se viciando e voltando para mais uma dose diariamente. A surpresa é que os momentos em que Sansão está sob efeito da droga trazem de volta aspectos de sua humanidade – aos poucos, mas o suficiente para mostrar que talvez os infectados não estejam tão permanentemente condenados quanto os filmes anteriores supuseram.
Enquanto essas tramas paralelas iam se desenvolvendo, o filme tem um ritmo um pouco mais lento, mas sem deixar de entreter. É no ato final, porém, quando as duas histórias se encontram, que o filme se encaminha para um clímax genial, tanto em termos de narrativa quanto na questão visual. Comandada por Ralph Fiennes, temos o que certamente é o melhor uso da música The Number of the Beast, do Iron Maiden, de todos os tempos. É uma conclusão energizada e que traz o embate entre ciência e religião de forma emblemática e significativa para o desfecho da franquia, que acontecerá no próximo filme. Se o capítulo final conseguir acompanhar esse ritmo recém estabelecido, tem grande potencial para terminar a saga do mesmo jeito épico que começou.
Por Júlia Rezende