A Cronologia da Água
Director
Kristen Stewart
Genre
Drama
Cast
Imogen Poots, Thora Birch, Jim Belushi
Writer
Kristen Stewart
Company
Filmes do Estação
Runtime
128 minutos
Release date
02 de abril de 2026
Não é sempre que vemos uma estreia diretorial tão visceral e com tamanha firmeza em sua visão artística. Kristen Stewart fez sua carreira na frente das câmeras e teve de ter paciência até que fosse levada a sério como uma das atrizes mais proeminentes de sua geração. Agora, ela começa sua carreira atrás das câmeras com “A Cronologia da Água”, seu primeiro longa, que estreou na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2025. Baseado nas memórias da escritora Lidia Yuknavitch, as escolhas estilísticas de Kristen Stewart estão presentes – e marcantes – desde o princípio. Filmado em 16mm, a forma se faz tão relevante para a interpretação da narrativa quanto o conteúdo. Assim como o filme é construído a partir de recortes específicos das memórias de Lidia, aqui vivida brilhantemente por Imogen Poots, som, imagem e enquadramentos também vêm em fragmentos – quase nunca por inteiro. Assim como a trajetória de Lidia, “A Cronologia da Água” é um filme intenso, visceral e cru quanto à sua honestidade. O tipo de obra que provoca, inevitavelmente, uma reação do espectador, ainda que nem todas possam ser positivas.
Em seu princípio, estamos falando de um filme caótico, e esse caos se faz presente de todas as formas. Há cortes abruptos, assim como os movimentos de câmera, as cores são exageradamente saturadas, brincando com diferentes texturas, os diálogos parecem incompletos; o maior destaque, no entanto, é o som. Barulhos altos, agudos, extremamente incômodos e desconfortáveis roubam a cena enquanto vemos a infância de Lidia se desdobrar. Não é à toa, mas sim um reflexo de como Lidia sente tudo o que acontece com ela. Seu lar é conturbado, permeado por violências e abusos, ela é solitária e não tem um lugar para si no mundo – a não ser quando encontra um pouco mais de equilíbrio quando está na água: ainda jovem passou a participar de competições de natação. As experiências de Lidia até então nos são mais transmitidas por sensações do que por imagens explícitas, o que faz com que o filme mantenha uma atmosfera um tanto lúdica, contrastando bem com seu teor mais “pesado”. Ao optar pelo experimental no lugar do literal, Kristen Stewart cria um caminho muito mais autoral para adaptar uma biografia sem cair nas redundâncias do gênero. Talvez haja momentos em que a sobreposição da forma em detrimento do conteúdo possa ser um tanto exagerada, mas certamente não sacrifica o produto.
A visão irreverente de Kristen Stewart só pode ser concretizada por conta de seu elenco, em especial de Imogen Poots, que dá vida à protagonista. A direção, que traz um clima orgânico e ilimitado à história, encontra em Imogen Poots sua âncora, mas sem nunca precisar se definir como uma coisa ou outra. Lidia é uma personagem flutuante por grande parte da história, ela tem dificuldade de se situar porque nunca teve as ferramentas necessárias para processar as situações às quais fora exposta por toda a sua infância e, depois, adolescência. Biografias de pessoas com passados difíceis não são raras – muito pelo contrário, costumam ser a regra, mas são raras as que se comprometem a não deixar que essas dificuldades sejam espetáculos centrais da narrativa. Lidia é complexa, por muito tempo, é bagunça e caos e é exatamente assim que Imogen Poots conduz sua atuação, com um abandono controlado, consciente e nunca engessado.
Quando a arte entra na vida de Lidia, isso acontece aos poucos, de forma discreta, mas muda todo o seu entorno. O caos que tudo regia dá espaço à calmaria e organização, e a direção faz com que a forma acompanhe essa mudança. Olhando – e ouvindo – o primeiro e o último ato de A Cronologia da Água, sem considerar seu meio, poderíamos achar que estamos vendo filmes completamente distintos, mas isso é apenas um reflexo da própria guinada que tem a vida de Lidia conforme ela desenvolve sua vida adulta. Embora ainda fique claro que estamos acompanhando memórias, flashbacks já não invadem a cronologia com a frequência que faziam antes – como se tivéssemos acompanhado, também, um processo de cura. Entre muitas coisas que uma cinebiografia costuma ser, Kristen Stewart conseguiu, muito com a ajuda de Imogen Poots, construir algo que foge do costume e demanda ser sentido.
Por Júlia Rezende