7.00/10

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra

Director

Gore Verbinski

Cast

Sam Rockwell, Juno Temple, Haley Lu Richardson

Writer

Matthew Robinson

Company

Paris Filmes

Runtime

134 minutos

Release date

23 de abril de 2026

Um "Homem do Futuro" chega a uma lanchonete em Los Angeles, onde precisa recrutar a combinação perfeita de clientes para se juntarem a ele em uma missão para salvar o mundo da ameaça terminal de uma inteligência artificial rebelde.

Enquanto o gênero de apocalipse no cinema tende a seguir sempre o mesmo caminho, assim como a temática da IA dominando o mundo, “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” consegue a proeza de fazer algo original mesmo juntando os dois. Entre uma mensagem de preocupação real com o nosso futuro à mercê da Inteligência Artificial e diversão caoticamente absurda de ficção científica, temos uma comédia que diz o que quer dizer sem parecer uma aula e, mais importante, sem abrir mão do entretenimento. Com um ritmo frenético e muita criatividade por parte do diretor Gore Verbinski, aliados ao roteiro inteligente de Matthew Robinson e um elenco inspirado, encabeçado pelo incrível Sam Rockwell, “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” se prova um filme tão instigante quanto seu título. 

Sam Rockwell interpreta um viajante do tempo sem nome, mas com muita personalidade. Ele aparece do nada numa lanchonete qualquer dos Estados Unidos com uma mensagem importante: o mundo vai acabar, mas ele está determinado a salvá-lo a qualquer custo. Para tanto, ele precisa reunir um grupo muito específico de pessoas e sabe que todas elas estão na lanchonete naquele momento – ele só não sabe quais delas comporão o grupo exato que ele precisa para salvar o mundo e reverter o apocalipse causado pela Inteligência Artificial. A história em si já é inacreditável o suficiente, mas a figura do Homem do Futuro só faz piorar, ele está sujo, vestindo mil camadas de roupa e cheio de cabos e fios por todo o canto: a imagem perfeita da teoria da conspiração. Seu comportamento também não ajuda, ele é excêntrico, verborrágico e cheio de sarcasmo, muito pouco convincente, não fosse pelas informações pessoais que ele traz de todos os clientes da lanchonete. Sua capacidade de viajar no tempo faz com que ele possa testar todos as configurações de grupos com aquelas pessoas e quando dá errado, ele pode simplesmente apertar um botão e recomeçar do zero – ou seja, a partir do momento em que ele entra na lanchonete, dá seu discurso e seleciona seu novo grupo. Isso quer dizer que ele já conheceu, em algum lugar do passado/presente/futuro todo mundo que está ali – e também já levou todos às suas mortes. É claro que, para que tenhamos um filme, significa que, dessa vez, ele escolhe um grupo completamente diferente, entre eles, um casal de professores de escola pública (Michael Peña e Zazie Beetz), uma mãe em luto (Juno Temple) e uma jovem desesperançosa (Haley Lu Richardson), mas com uma característica conveniente para a empreitada: ela tem uma alergia inexplicável à tecnologia. É um grupo tão inusitado quanto despreparado para a aventura que os espera, mas também carismático o suficiente para que a gente torça contra todas as possibilidades. A cena de abertura é um ótimo presságio do que está por vir e um exemplo de como o filme consegue transformar algo “batido” em algo com autenticidade. 

Uma vez completo o grupo, flashbacks nos mostram como cada um dos integrantes foi parar naquela lanchonete. Os flashbacks são menos criativos em sua forma, mas cada um traz uma subtrama que poderia facilmente ser o roteiro de um episódio de Black Mirror, e fica cada vez mais fácil acreditar no futuro apocalíptico descrito pelo Homem do Futuro – esse futuro, inclusive, claramente já começou e de um jeito assustadoramente familiar em relação à nossa realidade. Ao mesmo tempo em que flerta com a realidade em sua base, investe pesado no lúdico e nos absurdos para contar a história. Para salvar o mundo, eles entram num tipo de trama gamificada, em que vão passando de fase em cenários diferentes e com adversários diferentes. O fato de que apenas o Homem do Futuro sabe o que os espera, enquanto os demais permanecem alheios aos obstáculos, tal como o espectador, leva a situações surpreendentes e, quase sempre, hilárias. 

Com os flashbacks dedicados a cada um do grupo intercalando com a trama principal, às vezes o filme peca pelo exagero, não de alguma situação específica, mas com o excesso de coisas acontecendo simultaneamente. Como é típico em ficções científicas, novas “leis” são introduzidas a todo tempo, e com a IA como artifício, as possibilidades são infinitas, e em alguns momentos o filme pode ficar um tanto poluído. Mas uma vez que o espectador se situa e consegue colocar os dois pés no chão, as tramas, subtramas, sequências de ação e inesperada emoção fazem muito sentido juntas. “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” é como um quebra-cabeça que, a princípio, parece ser composto de peças que não se encaixam, mas que acabam formando uma imagem unicamente bonita. O equilíbrio entre ação, comédia e drama não é fácil de ser alcançado, mas a mente disruptiva de Gore Verbinski faz um ótimo trabalho tentando encontrá-lo.

 

Por Júlia Rezende

8.5

Mission Accomplished

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