‘A Grande Jogada’ é um jogo de poker no qual o vencedor sai feliz, mas com poucas fichas

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São muitos os cineastas que conseguem deixar uma forte marca em sua filmografia, e a direção acaba se tornando a função com mais desses profissionais. Na área de roteiro, a questão é diferente. Enquanto muitos diretores conseguem retratar trabalhos visuais parecidos em sua carreira, o texto muitas vezes não deixa explícito quem está por trás dele. Mas esse não é o caso de Aaron Sorkin. Apesar de muito marcado por ‘A Rede Social’ (2010) – que lhe rendeu o Oscar – seu trabalho vem desde 1992, com ‘Questão de Honra’, já deixando sua “cara”, com diálogos mais dinâmicos e um caminhar mais fluído da narrativa. Em ‘A Grande Jogada’, Sorkin não só explorou a escrita, como também a direção, o que – no conjunto da obra – não foi uma boa escolha.  

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Apesar de ainda trazer suas características, Sorkin vai, ao caminhar da história, perdendo a mão, tanto em texto quanto no visual. Com um início todo trabalhado no dinamismo e velocidade de diálogos, o longa encanta e faz o espectador embarcar, mas Sorkin se mostra limitado na direção, e o texto, mais próximo do final, vai se perdendo.

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Aqui, ele mais uma vez constrói um roteiro em cima de uma obra já escrita, igual no já citado ‘A Rede Social’, e também em ‘Steve Jobs’ (2015), e explora o seu melhor para adaptar da forma que gosta de trabalhar, tanto que, ultrapassou a obra escrita, querendo trazer ainda mais detalhes da história de Molly Bloom à tela. Por outro lado, esse esforço de Sorkin acabou se demonstrando um certo exagero, com uma perda de consistência na narrativa conforme as duas horas e 20 minutos vão passando.

A limitação dele como diretor é demonstrada em diversos momentos, mas ganha destaque no ato final, que traz um ponto de vista fora do contexto construído e totalmente incompreensível, com uma explicação até então interessante, mas inconsistente para o caminhar da trama.

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A vantagem de seu texto foi ter sido escrito para uma personagem interpretada pela Jessica Chastain. Apesar da história da própria Molly trazer momentos em que ela é ofuscada por figuras masculinas, Sorkin consegue alavanca-la, sendo um filme exclusivamente dela, com personagens secundários que só participam de momentos da vida. Enquanto quase todos os que participam não ganham tanto destaque, Idris Elba é a figura com maior importância, seguida de Jessica. Com um papel não tão chamativo, Elba não entrega uma atuação ruim, mas entrega o máximo que consegue para um papel contraditório.

Outro poder do texto de Sorkin é trazer – aproveitando da história de Molly – nas entrelinhas uma discussão de superioridade e poder. A protagonista é sempre ofuscada pelas figuras masculinas a sua volta, precisando agir de uma forma fora de sua ideologia para não ser excluída do “jogo”, algo um tanto parecido com a realidade de muitas atrizes de Hollywood, que revelaram os assédios sofridos, justamente para não sair do “jogo”. Apesar do trabalho de Sorkin ser bem feito em relação a isso, dando, em certo momento, uma virada, transformando a personagem em superior, o último ato – como já citado anteriormente – não condiz, e faz a protagonista voltar ao ínicio, sendo uma quebra incoerente.

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Sorkin não anima quando entrega uma falta de fluidez na narrativa e decepciona com uma direção sem muita alma. Mesmo realizando um trabalho próximo a ‘A Rede Social’ em sua primeira metade, o resto do filme é aproveitado porque o espectador já faz parte do jogo e aceita continuar. Pena que, com o tempo, passa a não ser tão agradável, transformando o resultado em algo um tanto desanimador, mas não tão frustrante.

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