AMOR, SUBLIME AMOR | UM ELENCO TALENTOSO E ATUALIZAÇÕES CERTEIRAS FAZEM UM REMAKE DE SUCESSO

West Side Story, ou Amor, Sublime Amor em português, é um clássico absoluto. Baseado em Romeu e Julieta de Shakespeare, surgiu primeiro como um musical da Broadway em 1957 que garantiu 6 indicações ao Tony Awards e apenas 4 anos depois já ganhou sua versão para os cinemas, que fez ainda mais sucesso, ganhando 10 estatuetas do Oscar de 1962, incluindo de Melhor Direção para Jerome Robbins e Robert Wise e Melhor Filme. Diante de tamanho sucesso e considerando que estamos vivendo uma era de remakes e reboots, é de se espantar que desde 1961 essa obra tenha permanecido intacta nas telonas, mas isso provavelmente se deve justamente ao seu status de clássico. Muitas vezes em que remakes são lançados, nos perguntamos se era realmente necessário ou se tinha algo a acrescentar (principalmente se estamos falando de um vencedor do Oscar como esse). Um remake de Amor, Sublime Amor era realmente necessário? Provavelmente não, mas ele certamente teve coisas a acrescentar e até mesmo, a melhorar.

Se você não chegou a assistir à versão original, Amor, Sublime Amor conta a história de romance proibido entre Maria e Tony no meio da disputa de territórios entre as gangues de delinquentes juvenis, os Jets e os Sharks. Os Jets são brancos e se consideram “americanos de verdade”, exalam vandalismo, racismo e herdaram o que havia de pior nas gerações anteriores. Do outro lado temos os Sharks, porto-riquenhos que vieram para os Estados Unidos à procura de melhores condições de vida e só encontraram decepção, preconceito e dificuldades. Os Jets são liderados por Riff (Mike Faist), enquanto os Sharks são liderados por Bernardo (David Alvarez), um boxeador que não foge da luta e é também irmão mais velho de Maria (Rachel Zegler).

As primeiras cenas do filme já trazem a mistura de tons que permeiam suas quase 3 horas de duração: o fantasioso, clássico de musicais, e um naturalismo que se desponta principalmente nas cenas em que a violência e o desmazelo se fazem presentes. O território disputado pelas gangues é quase um cenário de guerra, são apenas ruínas do que um dia fora um bairro residencial e que agora passa por um processo de gentrificação, ainda assim os jovens, que têm menos ainda, o defendem como se fosse o único pedaço de terra disponível – e talvez pra eles realmente seja. O primeiro número musical, que nos apresenta às duas gangues já é capaz de divertir e animar para o que está por vir.

Mas a história começa mesmo quando no baile da escola, que conta com membros dos Jets e dos Sharks, Maria conhece Tony (Ansel Elgort), o verdadeiro líder nato dos Jets que acabou de voltar para sociedade após passar 1 ano na prisão por uma agressão que quase virou homicídio, ele agora está em condicional e disposto a se tornar uma pessoa melhor, uma particularidade dessa nova versão que ajuda a humanizar Tony e lhe dá um ar mais sensível e, consequentemente, mais cativante. Tony e Maria cruzam olhares no ginásio lotado e cantam o começo de um amor proibido. É claro que a proximidade dos dois é a fagulha que faltava para agravar ainda mais os ânimos dos rivais e uma batalha entre as gangues é marcada e se torna o grande conflito do restante do filme.

Quando foi anunciado que Steven Spielberg seria o responsável por dar vida a esse remake, muito foi questionado por conta do histórico de estereótipos racistas que estiveram presentes na versão original, seria a melhor opção que um filme que trata sobre tensões raciais e preconceito fosse dirigido por um homem branco e sem experiência de vida nesse aspecto? O questionamento é mais do que válido, mas Spielberg prometeu que prestaria atenção nesse assunto e assim o fez. Começando pelo elenco, na versão original quem fez o papel de Maria foi Natalie Wood, uma atriz judia e não latina. Agora na versão de Spielberg a protagonista é Rachel Zegler, estreando em Hollywood com apenas 17 anos de idade na época da filmagem e, finalmente, uma descendente latina, o que fez toda a diferença. Rachel é um talento nato e merece atenção (e certamente ganhará) por seu papel, Maria que antes era muito mais um agente passivo na história, agora ganha uma personalidade forte e combativa, principalmente em relação ao seu irmão, sem contar com sua voz que em nada deixa a desejar para vozes veteranas tanto das telas quanto dos palcos.

Outros destaques no elenco, e que roubam a cena sempre que aparecem, é a atriz Ariana DeBose, que já havia feito dois musicais para TV (A Festa de Formatura na Netflix e a série Schimigadoon! na Apple TV+), mas pela primeira vez teve a chance de realmente brilhar e mostrar toda sua potência com sua interpretação da Anita, amiga de Maria e noiva de Bernardo. Todas suas cenas são eletrizantes e é impossível não olhar – e não se impressionar – cada vez que ela abre a boca. A outra é Rita Moreno, a veterana que interpretou Anita na versão original (e ganhou um Oscar por isso) e agora volta como Valentina, uma viúva dona de loja que, apesar de latina, carrega um enorme apreço por Tony e acaba servindo como um ponto de equilíbrio entre as gangues, pouco tem a se falar de Rita, que já provou seu talento inúmeras vezes, e só repete esse sucesso na nova versão. Uma cena em especial reúne as duas Anitas e o resultado é estrondoso.

Além do elenco, muitos dos estereótipos presentes no original perderam a força nessa nova versão, que inclui muitos diálogos em espanhol sem qualquer legenda, dando mais credibilidade e realismo à trama.

Se restava alguma dúvida a respeito da capacidade de Spielberg de liderar um clássico quase sagrado como esse, ela certamente foi respondida e com muito louvor. A nova versão conseguiu atualizar os temas sem fazer perder a sensação dos anos 50/60, ainda que trouxesse em sua essência sentimentos e angústias muito presentes na nossa sociedade nos dias de hoje. As músicas, que contam com letra de Sondheim, um gigante da Broadway que nos deixou recentemente, não sofreram grandes alterações, assim como o roteiro (de Tony Kushner) no geral, o que também se provou uma escolha acertada, já que são tão atemporais que nunca parecem datadas. Amor, Sublime Amor fez o que todo remake pretende, mas raramente consegue: atualizar uma obra amada, sem perder sua essência e, de quebra, conquistar uma nova geração.

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