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Confusões, trocas, polêmicas e demissões. Por mais que essa seja uma trama muita próxima da carreira de uma das maiores – senão a maior – banda de rock da história, na verdade, essa foi a jornada da produção de Bohemian Rhapsody.

As diferenças criativas entre integrantes da banda e o ator Sacha Baron Cohen – até então cotado para viver Freddie – e a demissão repentina de Bryan Singer da direção foram fatos fundamentais para o longa sofrer. No entanto, em tela, toda essa confusão e conflito é evidente parcialmente, sobressaindo o poder e a formação da lenda que é o Queen.

Desde sua formação, em 1970, a banda formada por Brian May, Roger Taylor, John Deacon e Freddie Mercury fez história na música e até hoje é um dos nomes mais importantes do rock mundial. Muito não se deve apenas ao grupo, mas a Mercury.

Sua voz, comprovada cientificamente ser algo inigualável, ganhou força não só na música como também um representante LGBT. Portanto, era evidente que o filme responsável por contar sua vida fosse feito por alguém que se sentisse representado pelo cantor e Bryan Singer, responsável pela adaptação dos X-Men aos cinemas, foi o escolhido.

Apesar de sua demissão no final do ano passado, Bohemian Rhapsody tem as características necessárias para uma obra do diretor, tanto que o longa manteve a assinatura dele.

Peter Morgan e Anthony McCarten escolheram dar uma visão mais otimista da vida de Freddie. O roteiro, escrito exclusivamente por McCarten tratou de não pesar na trajetória do cantor e manteve a estrutura básica e comum de uma cinebiografia. Não há surpresas quanto a montagem ou o uso excessivo de frases feitas, justamente pelo longa seguir uma linha narrativa padrão.

Por mais que cinematograficamente seja decepcionante, até porque quem conhece Freddie Mercury, sabe de todas as polêmicas envolvendo seu ego. Porém, o tratamento escolhido aqui foi o de não denegrir a imagem do músico. Por mais que ele seja uma lenda, o peso de seu temperamento ainda sonda sua carreira. No entanto, Singer decidiu dar leveza nisso, até para não estragar o símbolo que ele é não só para milhares de pessoas, como para si próprio.

A exclusão de peso em determinados momentos da carreira de Freddie não diminuem o longa. O texto sim. Seguir a narrativa padrão de cinebiografias é uma forma de se manter seguro na proposta e funciona, contudo, gera problemas reais nos diálogos.

McCarten trabalha muito bem a leveza e os momentos de humor, mas seu acúmulo exagerado de frases feitas com mensagens fortes – porém ditas de maneira fraca – estraga grande parte do filme. Como esperado, o longa também trabalha um longo período de tempo, iniciando em 70 e finalizando em 85, com a participação do Queen no Live Aid. Trabalhar 15 anos de carreira em duas horas exigiu um corte grande na história.

Por isso, muito das situações não ganham profundidade alguma, ainda mais aquelas de desconhecimento do público.

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No entanto, nesse mesmo segmento, temos, apesar de superficiais, momentos únicos de origem de algumas músicas e reuniões que claramente foram introduzidas com a ajuda de Taylor, May e Deacon no roteiro. Essas surpresas e intimidades fazem do filme algo divertido e leve de se ver, trazendo ainda mais carisma para músicos que já admiramos. Essa admiração, por sua vez, ganha um certo exagero, colocando o Queen a todo momento no pedestal, sem ao menos trazer uma contextualização, com poucas citações a outras bandas e músicos tão grandes quanto da mesma época. 

Por mais que seja um ponto negativo no ponto de vista histórico, é compreensível pela presença de Singer como diretor. Um filme leve, divertido e que emocione os fãs da banda era o esperado e é o que foi entregue.

Mesmo com falhas cinematográficas, a trilha sonora, obviamente composta com grandes sucessos do Queen faz qualquer texto ruim ser esquecido. O foco é o grande público e esse objetivo ele atinge com maestria, construindo uma narrativa fluída, apesar de acelerada e sem estragar a essência magnífica de Mercury e outros integrantes.

Muito dessa gratificação ao cantor vem da atuação de Rami Malek, que, apesar de não conseguir fazer um bom trabalho facial, entrega uma belíssima performance corporal, passando a sensação de ser o próprio Mercury em tela. Com o elenco secundário, ocorre diferente. Bem parecidos com os integrantes originais – menos Ben Hardy como Brian May – o elenco de apoio não entrega um trabalho excepcional, mas o necessário.

A trajetória de Mercury, Taylor, May e Deacon então, recebe um tratamento de acordo com a proposta do longa. Não há surpresas, mas há diversão e uma admiração pela banda e suas músicas. Esse sentimento ganha ainda mais força nos 20 minutos finais, com a recriação do show inteiro do Live Aid – um dos maiores e mais importantes concertos de rock de todos os tempos – de 1985.

Recriação essa, perfeita. A partir do início da performance, o espectador embarca entre os 74 mil fãs presentes naquele ano diante do show que colocou, finalmente, o Queen na história. Não só por ter sido o primeiro show de Mercury após descobrir ser HIV positivo, mas por toda a energia presente no palco. Na performance, o elenco se mostra outro, todos ali demonstram entregar o coração em tela e animam a sala de cinema, que, achará impossível se segurar para não cantar um sucesso atrás do outro, incluindo Radio Ga Ga, We Are The Champions e claro, Bohemian Rhapsody.

Todas as falhas do roteiro de McCarten e da direção de Singer ali somem, tanto que Singer, durante o show, dirige de maneira grandiosa. A cada nota tocada o espectador sente que seu ingresso vale a pena, principalmente se for em uma sessão IMAX.

Por sua vez, é difícil esquecer o tratamento de todo o filme, mas nada que estrague esse momento final ao lado de Freddie Mercury, Roger Taylor, Brian May e John Deacon. Nessa hora, o longa consegue provar que Queen é sim parte da história do rock, da música e da humanidade.

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