A Família Addams é uma divertida reinvenção do clássico, mas não consegue ser mais do que isso.

Quando a música tema se inicia, são muitas as pessoas que já sabem o momento dos dois clássicos estalos de dedos da família mais bizarra da ficção. Tendo sua primeira aparição nos quadrinhos de 1938, a Família Addams conquistou um significante número de fãs tanto nas séries de TV quanto nos filmes, com personagens marcantes que parodiavam uma típica família classe alta norte-americana. Em 2019, a Universal Pictures se propôs a trazer uma reinvenção destes macabros personagens em uma animação inevitavelmente bastante pitoresca e surreal, mesmo que com grandes chances de dar errado – afinal, readaptar personagens clássicos pode ser uma tarefa um tanto quanto arriscada.

De forma criativa, a animação se propõe a contar a origem destes personagens que marcaram as mais diversas mídias, desde o casamento de Mortícia e Gomez até o nascimento de seus filhos. O simples fato de poder presenciar tais personagens encontrando a clássica mansão da família, ou até mesmo conhecendo o mordomo Tropeço já seria o suficiente para marcar o filme para os espectadores mais assíduos, porém estes são só os primeiros minutos deste longa-metragem: A Família Addams apresenta muito mais.

De plano de fundo, o público é convidado a conhecer diversos membros mais distantes da família, estes com as mais diversas peculiaridades e bizarrices, compondo uma linhagem talvez ainda mais surreal que os familiares já conhecidos pelo público. O papel destes outros membros da família é sucinto, mas bastante significativo para a trama, fazendo com que tanto os Addams quanto o público passe grande parte doa história esperando pela anunciada reunião da família. Tio Fester (ou Chico, como preferir) e Vovó Addams são apresentados um tanto diferente das versões anteriores: não moram com os personagens principais, mas, assim como os outros membros da família, vão visitá-los para ajudarem na preparação do grande evento que guia a trama – e, pelo jeito, não vão embora tão cedo.

Novos personagens também são acrescentados dentro do núcleo familiar, como um leão e um polvo de estimação, uma árvore à serviços da família e um espírito que possui a mansão no melhor estilo de “A Casa Monstro”. A composição é claramente muito mais caricata que no desenho anterior e que nas versões live action, apresentando um universo narrativo onde, devido ao forte uso da animação, tudo é possível. Bolsos infinitos, personagens imortais e foguetes enormes compõe essa reinvenção desta família que, desta vez, se encontra mais boba e animada do que nas versões vistas anteriormente – o que certamente será visto como algo positivo para alguns, e negativo para outros.

Assim, a história da animação é guiada por três eventos distintos que se relacionam: Gomez e Fester preparam Feioso para sua Mazurka – uma espécie bizarra de bar mitzvah com espadas; Wandinha começa a entrar na fase da rebeldia, e começa a querer ter experiências contrariadas à sua mãe; e, por fim, novas casas serão inauguradas na cidade, e algumas pessoas pretendem tirar a mansão assustadora dos Addams da jogada. Felizmente, diferente de alguns filmes cujos protagonistas se dividem em mais de uma narrativa, os membros da família interagem de forma bastante cômica e divertida de se assistir, como Wandinha e Feioso, por exemplo, que mesmo estando em núcleos diferentes, ainda interagem fazendo jus à relação conturbada dos irmãos.

A música tema dos Addams, que inevitavelmente já se tornou clássica, aparece algumas vezes dentro do filme de forma diegética – ou seja, de forma que os próprios personagens conseguem ouvir. Assim, não só é a música tema para o espectador, como também é a música que marca o vínculo dos personagens naquele local.

Mesmo chamando a atenção de diversos adultos – ainda mais os que possuem um sentimento nostálgico de afeto com as obras anteriores –, é inegável que a animação foca em apresentar aquele universo para uma nova geração de crianças, trazendo consigo uma clássica moral que é inevitável em filmes com temáticas infantis. Para tal, o espectador é apresentado a um núcleo que vai além das bizarrices: pessoas padronizadamente normais, as quais compõem os membros da cidade que abominam os personagens que dão nome à trama. A partir disso, elabora-se uma moral de quebra de preconceitos, indicando que todas as pessoas merecem ser respeitadas e tratadas dignamente, indiferente de suas peculiaridades.

Assim, pergunta-se: Família Addams possui os personagens clássicos amados pelo público? Sim… Possui números musicais e animações criativas? Sim… Possui novas e velhas bizarrices? Com toda a certeza… Mas tais fatores certamente não impedem o espectador de sair do cinema sentindo que faltou alguma coisa – não, é a mãozinha, pois ela está bastante presente no longa. É possível notar que o novo filme se desenvolve de forma contida e acanhada, como se temesse passar do ponto e, por causa disso, não atingido todo seu potencial.

Certamente o público perceberá as claras semelhanças narrativas com “Hotel Transilvânia“, por exemplo, passando a noção de que é apenas uma animação com a família Addams, e não uma animação com todo poder e potencial destes personagens. Não arrisca o tanto quanto poderia e, infelizmente, não se torna tão marcante quando prometia ser – se não fosse sua sequência já confirmada, a animação correria o risco de se tornar esquecível em meio a tantos lançamentos no circuito cinematográfico atual.

Mesmo que contido, ainda apresenta um produto final bastante significante para aqueles que se consideram fãs da animação, pois consegue se manter nostálgico e apresentar uma visão caricata e divertida desta família que marcou tantas gerações. Apresenta um bom – mas não espetacular – início para uma possível franquia, abrindo espaço e gerando interesse do público acerca do que poderia vir em seguida: talvez aquele filme que, finalmente, superará os anteriores e consagrará novamente os Addams em seu auge na cultura pop. Portanto, com piadas divertidas, personagens leais à suas concepções originais e animações chamativas e atraentes, A Família Addams é uma reinvenção animada que vale o ingresso, mas se mantém nas sombras – diferente dos Addams, não no bom sentido – de suas obras anteriores.

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