Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
Director
Jane Schoenbrun
Genre
Terror
Cast
Gillian Anderson, Hannah Einbinder, Jack Haven
Writer
Jane Schoenbrun
Company
Runtime
112 minutos
Release date
13 de agosto de 2026
Em apenas seu terceiro longa-metragem, Jane Schoenbrun já mostrou domínio de um cinema extremamente autêntico, seguro e desafiador. Há diretores com uma filmografia muito mais extensa e que ainda não conseguiram imprimir seu estilo com tamanha determinação. Há também um progresso inegável em sua trajetória e é curioso que ele coincida com trabalhos mais “comerciais”, mas sem comprometer, em nada, seu senso próprio de arte. Se alguma coisa mudou, foi no sentido de tornar seu cinema mais acessível. “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” compartilha da mesma espinha dorsal de seus trabalhos anteriores (We’re All Going to the World’s Fair e Eu Vi o Brilho da TV): o espaço liminar entre realidade e fantasia. No primeiro filme, a fantasia é representada pelo mundo virtual, no segundo pela televisão e agora, em “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte”, pelo universo dos filmes de terror, sobretudo os slashers. Jane Schoenbrun parece escrever (e dirigir) de um lugar entre reverência e autoconsciência, não só do tema, do conteúdo, mas também da forma. O terror quase sempre faz uso de alegorias (como ironizado em “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte”), e Schoenbrun usa a consciência que tem disso para criar as suas próprias. É impressionante como, em todos os seus trabalhos, soube pegar essas alegorias e tropos e transformá-los em algo inteiramente novo e, em “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte”, faz isso com ainda mais qualidade.
Não é preciso ser um grande conhecedor do cinema de terror para entender as referências de “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte”. O que mais se viu nesse cinema nos últimos anos é a tentativa de ressuscitar franquias clássicas de slashers, embora alguns possam argumentar que elas nunca chegaram a morrer; certamente perderam a força, no entanto. Talvez o maior erro dessas franquias, tanto na realidade quanto no universo de “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte”, seja a tentativa de fazer algo novo usando os mesmos recursos de sempre. Schoenbrun pode ter a solução (que novamente funciona tanto na nossa realidade quanto na do filme): entregar essas histórias em mãos diferentes. No filme, a jovem cineasta Kris (Hannah Einbinder) fica encarregada de ressuscitar a franquia do Acampamento Miasma, um slasher clássico (fictício) dos anos 80 com direito a todos os clichês: adolescentes num acampamento, sexo, festas, um assassino à solta – assassino esse que segue um outro clichê de terror clássico, o do assassino trans, e uma “final girl”. Em mãos menos capazes, ou melhor dizendo, menos seguras quanto à mensagem que querem passar, “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” poderia facilmente ter caído na mesmice que ele mesmo satiriza. Há milhares de possibilidades dentro do gênero, mas nem sempre elas são exploradas de forma pensada e condizente, que agregue à trama. Aqui, no entanto, temos um filme que dá um novo significado para cada uma dessas possibilidades.
Além de Kris, o filme cria suas raízes a partir de dois outros personagens. Uma delas é Billy (Gillian Anderson), a atriz que interpretara a final girl no primeiro filme da franquia Acampamento Miasma, mas que não retornou para as sequências e se tornou uma reclusa, afastada da indústria do cinema e da mídia como um todo. Ela passa a fazer parte da história quando Kris chega, por acaso, no acampamento que serviu de locação para o filme de Billy e, para sua surpresa, encontra Billy lá. Ela explica que se mudou para o acampamento por ter uma relação intrínseca com o filme, algo que Kris compartilha, mas afora isso, as duas são extremamente diferentes. A diferença geracional entre as duas, principalmente no que diz respeito ao sexo (parte fundamental do filme, como o próprio título sugere) é um reflexo direto da nossa sociedade. Kris, mais jovem, não tem um relacionamento saudável com o sexo, não o enxerga como algo importante, e sim como uma distração, algo a ser tirado do caminho. Para Billy, mais madura, é justamente o oposto, sexo é um meio e um fim por si só, uma forma de conexão não só com o outro, mas também com seu interior.
O sexo, enquanto expressão do desejo, é um tema recorrente na franquia e na relação de Kris e Billy, é o ponto de entrada para que realidade e ficção se fundam. Aqui, sexo e morte andam lado a lado, e a morte vem na imagem do grande vilão da franquia, o assassino mascarado, Little Death (pequena morte, em português, e que, não por mera coincidência, em francês é uma expressão usada para se referir ao orgasmo). Little Death (Jack Haven) tem em sua história de origem a dualidade de gêneros que, na franquia, foi transformada em pura maldade, mas conforme o filme se desenvolve, a visão de Kris e de Billy sobre o vilão se expande e ganha novas e inéditas camadas, ampliando também o papel dele no remake de responsabilidade de Kris. A construção de Little Death e sua suposta vilania é um dos pontos altos de “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” porque encapsula a experiência trans que está presente, mais sutilmente, durante toda a trama (e nos trabalhos anteriores de Jane Schoenbrun). É mais um exemplo de como o roteiro e direção compreendem, num nível mais profundo, a base de um bom terror e de tudo o que um filme desse gênero pode representar. Há um bom tempo já se fala sobre o grande apelo de filmes de terror entre fãs da comunidade LGBTQIA+, mesmo com a falta de uma representatividade direta e enredos que muitas vezes seguem por um caminho de preconceito. Aqui, no entanto, o tropo do “vilão trans” ganha um novo significado e novas camadas, as protagonistas se envolvem num romance e a direção de Jane Schoenbrun é abertamente queer. Não à toa, o filme ganhou o Queer Palm no Festival de Cannes deste ano. É um filme que celebra, se orgulha e utiliza seu aspecto queer como sua maior força, sem cair em limitações e sem nunca deixar o terror de escanteio.
É impressionante, inclusive, o domínio de Schoenbrun em relação aos elementos de terror. A atmosfera do filme é construída desde seus primeiros minutos e vai escalando conforme o enredo se desenrola. A linha tênue entre realidade e fantasia, consciente e inconsciente, aparece também na fotografia, nos cenários – os cenários práticos, principalmente, agregam muito ao filme como um todo. “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte” é uma viagem imersiva ao universo dos slashers, engraçada na medida certa, com os exageros e clichês que o subgênero pede e, mais importante, é um filme divertidíssimo, mas é também multidimensional. A relação entre Kris e Billy é um exemplo de como sempre há mais camadas a serem consideradas, através das duas (graças a atuações excelentes e com muita química das duas atrizes), o filme faz sua afirmação a respeito do sexo como algo diferente para cada um, mas sempre com a possibilidade de passar a significar algo a mais. As duas desenvolvem uma cumplicidade que vem com intimidade, consentimento, respeito e cuidado, com uma delicadeza surpreendente para um filme como esse, mas elas ainda acabam cobertas de sangue, é claro. Afinal de contas, no final tudo se resume à carne e fluidos.
Por Júlia Rezende