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Devoradores de Estrelas

Director

Phil Lord, Christopher Miller

Cast

Ryan Gosling, Sandra Hüller, Lionel Boyce

Writer

Drew Goddard, Andy Weir

Company

Sony Pictures Brasil

Runtime

156 minutos

Release date

19 de março de 2026

Ryland Grace acorda sozinho numa espaçonave, a anos-luz da Terra, sem memória de quem é ou de como chegou ali; à medida que as lembranças voltam, ele descobre que precisa solucionar a substância misteriosa que ameaça o Sol e, com isso, a sobrevivência da humanidade.

O título original já diz muito sobre a força do filme. Em inglês, “Hail Mary” também designa uma jogada desesperada do futebol americano, lançada quando o tempo está acabando e resta apenas um último ato de fé. “Project Hail Mary” nasce justamente desse impulso: a humanidade encurralada, o relógio correndo contra tudo, e uma aposta improvável como derradeira saída. Mais que um detalhe, é a chave de leitura de um blockbuster que, em vez de transformar o apocalipse em cinismo, escolhe tratá-lo como prova de confiança.

O grande acerto de Devoradores de Estrelas é entender que ficção científica não precisa começar pela grandiloquência, mas pelo desequilíbrio. O despertar desnorteado de Ryland Grace não funciona apenas como gancho de roteiro: funciona como convite. O espectador entra no filme pela mesma porta do personagem, sem mapa, sem memória, sem chão. É desse desamparo inicial que nasce uma curiosidade genuína, quase infantil, da melhor espécie. Os flashbacks, por sua vez, não servem como muleta expositiva, mas como mecanismo de tensão. Cada retorno ao passado amplia o quebra-cabeça em vez de desmontá-lo, e o filme ganha um ritmo raro: o de uma narrativa que confia na inteligência de quem assiste.

Essa confiança também aparece na maneira como a história recusa o caminho mais automático do gênero. Em boa parte da ficção científica de estúdio, o desconhecido costuma vir embalado como ameaça, invasão, guerra, contaminação moral. Aqui, ao contrário, o encontro com a vida alienígena desloca o filme para um terreno muito mais interessante: o da colaboração. E é nesse ponto que Devoradores de Estrelas deixa de ser apenas uma aventura espacial eficiente e passa a tocar em algo mais difícil de alcançar. Ele propõe que o estranho não seja um espelho do nosso medo, mas uma possibilidade de entendimento. Num cinema viciado em paranoia, essa escolha tem algo de radical.

O mais impressionante é que o filme consegue sustentar essa delicadeza sem perder o senso de escala. A ameaça cósmica, em vez de surgir como fantasia arbitrária ou monstrosidade espetaculosa, é tratada como enigma científico. Isso aproxima o longa da tradição mais saborosa da hard sci-fi: aquela em que o absurdo é sedutor justamente porque parece obedecer a regras. Não por acaso, trata-se de outra adaptação de Andy Weir, com roteiro de Drew Goddard, que já havia levado Perdido em Marte ao cinema. Mas, se aquele filme encontrava sua força no procedural sob vigilância constante, Devoradores de Estrelas se permite algo mais caloroso e mais lírico. Sai um drama de sobrevivência observado pela Terra; entra uma aventura que deposita tudo numa consciência isolada, num vínculo improvável e na ideia de que raciocinar junto pode ser uma forma de afeto.

Phil Lord e Christopher Miller entendem com perfeição que leveza não é o contrário de grandeza. A bagagem da dupla, visível desde 21 Jump Street e 22 Jump Street e expandida no espírito inventivo associado ao Aranhaverso, reaparece aqui não como gag vazia, mas como domínio de tom. O filme tem humor, e muito, mas o humor nunca sabota a urgência dramática; ele a intensifica (se é que isso é possível, mas aqui funciona). Ryan Gosling se aproveita disso magnificamente. Seu personagem é engraçado sem se tornar uma caricatura, vulnerável sem implorar simpatia, heroico sem posar de mártir. Há um timing cômico muito preciso na atuação, mas há também uma humanidade desarmante. É esse equilíbrio que impede o longa de afundar na solenidade científica ou na pieguice motivacional.

Também não é exagero dizer que este é o tipo de filme que pede tela grande sem soar como slogan publicitário. Foi filmado para IMAX, e isso aparece na imagem com uma evidência quase física. O espaço aqui não é mero pano de fundo digital; ele é presença, vertigem, abismo e maravilhamento. As cenas de ação têm fôlego, clareza e escala, mas o mais valioso é que o deslumbramento visual não existe para mascarar a falta de ideia. Existe porque a história pede esse assombro. É o raro espetáculo que usa a imensidão para intensificar o sentimento, e não para anestesiá-lo.

Talvez o que mais diferencie Devoradores de Estrelas do grosso do cinema atual seja sua recusa em confundir maturidade com desespero. O filme fala de extinção, mas não se ajoelha diante da moda da desesperança. Fala de fim do mundo, mas insiste em heroísmo, decência, inteligência e cooperação. Num momento em que tantas produções parecem empenhadas em repetir que o ser humano é incapaz de qualquer grandeza, há algo quase comovente em ver um blockbuster apostar, sem vergonha, na possibilidade do bem. Não como ingenuidade tola, mas como escolha dramática.

Devoradores de Estrelas é visualmente deslumbrante, emocionalmente certeiro e narrativamente envolvente. Mas seu maior triunfo talvez seja outro: lembrar que a ficção científica pode voltar a ser um lugar de assombro, aventura e esperança ao mesmo tempo. Não é pouca coisa. Num cinema cada vez mais seduzido pela reciclagem cínica e pela falsa profundidade, este filme faz algo mais difícil do que parecer importante: ele realmente importa.

10

Mission Accomplished

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