6.0/10

Futuro Futuro

Director

Davi Pretto

Cast

Zé Maria Pescador, João Carlos Castanha, Carola Joaquina

Writer

Davi Pretto

Company

Vulcana Cinema

Runtime

86 minutos

Release date

23 de julho de 2026

Em um futuro próximo, onde os avanços em inteligência artificial coexistem com o surgimento de uma nova síndrome neurológica, um homem sem memória de 40 anos chamado K é acolhido por um clickworker solitário de 60 anos na parte empobrecida de uma chuvosa cidade brasileira. Após usar um viciante dispositivo IA em um curso para pessoas com a estranha síndrome, K embarca em uma jornada trágica e absurda para tentar encontrar o seu lugar no mundo.

Pensar em “futuro” é quase sempre sinônimo de pensar em tecnologia. No passado, quando imaginávamos esse futuro, a tecnologia trazia soluções, paz e progresso. Sonhávamos com carros voadores, doenças curadas, facilidades para o dia a dia. Na realidade, no entanto, o que mais tem representado a tecnologia é o avanço da IA, que nem sempre – ou melhor, quase nunca – é visto com tamanho otimismo. No quarto longa-metragem de Davi Pretto, o futuro é um grande limbo e a IA tem grande influência em sua ruína. Sem reservar tempo para explicações, o diretor nos coloca no meio desse Brasil em colapso através de um homem que sabe tanto sobre esse mundo quanto o espectador, ele tem uma condição que deteriorou seu cérebro e apagou qualquer memória que ali existia, tanto interna quanto externa. Sem ideia de quem é ou de onde está, esse homem acaba numa escola em que outras pessoas assoladas pelo mesmo mal são instruídas a utilizar a IA para preencher os espaços vazios em sua mente, seja recuperando suas lembranças ou gerando novas imagens. 

Essa IA vem num dispositivo semelhante a uma Alexa, que emite uma luz vermelha que se conecta ao usuário, deixando-o automaticamente num estado de transe enquanto adentra sua mente. Há no trabalho de Davi Pretto diversas camadas de crítica social, algumas mais palpáveis, outras mais abstratas, mas a relação com a IA como algo intrinsecamente negativo é evidente. Em sua visão de futuro, todos estão, de certo modo, na mesma posição do homem-sem-memórias. Empregos foram substituídos por “bicos”, micro-tarefas (consequentemente com pagamentos micro) que nada mais fazem a não ser complementar ou corrigir a IA, atividades realizadas pelos civis regulados e vigiados por um governo que manda “policiais” mascarados para suas casas com liberdade suficiente para roubar até mesmo galões de água. Assim como sugere a direção de fotografia e a direção de arte, trata-se de uma realidade desencorajadora, sem vida, sem destaques e que não é reservada àqueles mais desfavorecidos economicamente – o niilismo aqui é a única coisa que coloca os ricos e os pobres em pé de igualdade. Desde o princípio, observamos uma sociedade em decadência não só moral, mas também física, marcada por desastres naturais, incluindo uma pandemia e, posteriormente, o que viria a ser o fim do mundo, mas nem diante do fim iminente há qualquer senso de urgência – para temer o apocalipse, deveria haver, primeiro, o medo de perder coisas, experiências, pessoas, mas tudo isso já havia sido perdido há muito tempo. 

Um dos pontos centrais do filme é a discrepância social. Nessa distopia, os pobres e os ricos estão fisicamente separados por um muro e nenhum pobre está autorizado a passar para o outro lado. Ao contrário do que estamos acostumados a ver nesse tipo de ficção, a vida dos mais abastados não parece mais atrativa do que a do outro lado. Eles têm o conforto do luxo, mas nenhuma vivacidade – o mundo também está acabando para eles, mas eles seguem inertes, salvo pelas festas de fim de mundo que organizam, mas que parecem igualmente insossas, apenas pessoas e música num apartamento, nenhuma delas com relações verdadeiras entre si. Eles também têm seus próprios dispositivos de IA, mais avançados, mas cujas funcionalidades não conhecemos. No meio desse ambiente está a maior parte da simbologia do filme, tanto na arquitetura quanto no polvo que habita um aquário num apartamento burguês, mas que antes disso já habitava os sonhos do homem sem memórias.

Futuro Futuro é um filme contemplativo, de pausas duradouras e reações minimalistas, as transformações e avanços narrativos são mais sentidos do que explanados, o que tem seus pontos positivos e negativos. Por um lado, a falta de respostas fáceis deixa espaço para que o espectador chegue às suas próprias conclusões, baseado nos símbolos e sensações que o filme propõe. Há estímulos suficientes para que diversas interpretações possam ser desenvolvidas acerca das relações entre avanço da IA lado a lado com o avanço da solidão humana, os abismos causados pela desigualdade social e tudo o que vem como consequência de todas essas coisas. Por outro lado, algumas vezes, as lacunas deixadas pelo roteiro parecem tão grandes que é difícil identificar o que, de fato, o filme pretende dizer. As consequências da IA são claramente negativas, de um ponto de vista mais superficial, mas o próprio filme faz uso de IA para gerar algumas de suas imagens, embora questões financeiras da produção possam justificar esse uso. Entre deixar uma história em aberto e levantar pontos que simplesmente não podem ser conectados, há uma linha tênue e aqui, nem sempre essa linha é clara. Ainda assim, a atmosfera do filme é rica e ele acaba se tornando um representante válido da ficção científica brasileira, ainda remota, mas cada vez mais presente.

 

Por Júlia Rezende

6.5

Orbiting

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