7.2/10

O Convite

Director

Olivia Wilde

Genre

Comédia , Drama

Cast

Olivia Wilde, Penélope Cruz, Seth Rogen, Edward Norton

Writer

Rashida Jones e William McCormack

Company

A24

Runtime

107 minutos

Release date

09 de julho de 2026

O Convite acompanha Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), um casal que atravessa um momento delicado no relacionamento. Em uma tentativa de viver uma noite aparentemente comum, os dois convidam os vizinhos do andar de cima, Pina (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), para um jantar. O encontro, porém, toma rumos inesperados e transforma uma simples reunião entre casais em uma noite cheia de revelações, conflitos e situações imprevisíveis.

Quando Olivia Wilde dirigiu seu segundo longa-metragem, “Não Se Preocupe, Querida”, o lançamento do filme foi ofuscado pelas polêmicas dos bastidores – uma pena pois, após sua estreia irreverente com “Fora de Série”, Olivia Wilde fez um ótimo trabalho, mas sua capacidade foi questionada a todo momento, até mesmo com insinuações de que ela deixava o set em muitos momentos (se ela conseguiu uma direção daquela qualidade sem nem ao menos estar no set o tempo todo, então ela é mesmo uma diretora excepcional). Agora, seu terceiro longa é uma ótima oportunidade para “tirar a prova”, e mesmo que não tenha que provar nada para ninguém, deixou bem claro que é, indubitavelmente, não só uma ótima atriz, como também uma ótima diretora. 

Um filme como “O Convite.” evidencia a importância de uma direção autêntica; é um remake do filme espanhol “Sentimental”, escrito e dirigido por Cesc Gay, responsável também pela peça de teatro que originou o filme. Além da versão original em espanhol, já existem remakes da Coreia do Sul, da França, da Itália e da Suíça. O interesse global pelo filme se justifica pela trama com um tema polêmico, atemporal e, no mínimo, instigante: é a história de um casal cujo casamento já viu dias melhores, e que descobre que o casal de vizinhos pode estar organizando orgias no apartamento de cima. Comédias de relacionamentos, principalmente as que envolvem casamentos, costumam ser bem-vindas, ou pelo menos recebidas com uma curiosidade positiva. Aqui isso se intensifica por abordar assuntos que ainda são considerados tabus, ou, ao menos, assuntos “proibidos” por muitos, até mesmo dentro de um relacionamento. O filme de Cesc Gay conta essa história de forma muito direta e objetiva, com um humor seco, mas presente, e personagens que se recusam a serem definidos como apenas uma coisa ou outra. É um bom filme, movido pelos diálogos rápidos e espertos e atuações mais contidas, mas suficientes. Nem sempre (ou quase nunca) remakes hollywoodianos realmente “justificam” sua existência, criam uma identidade separada do material original ou fazem mais do que adicionar melodrama – “O Convite.”, no entanto, é uma das raras – e sensacionais – exceções.

A disputa pela aquisição do filme durante o Festival de Sundance já era um indício de que o filme tinha potencial. A A24 acabou saindo vencedora, o que garantiu uma distribuição nos cinemas antes do streaming (uma exigência da própria diretora). Nos últimos anos, o gênero da comédia tem perdido cada vez mais espaço nas salas de cinema, e filmes como “O Convite.” nos lembram que essa é uma perda do público também. O roteiro assinado por Will McCormack e Rashida Jones aposta num humor inteligente, realista e sempre presente, que alinhado com a direção e atuações marcantes, garantiu um resultado que anima qualquer entusiasta do cinema: uma sala lotada de espectadores rindo do começo ao fim. É particularmente interessante que essa comédia venha de situações práticas, de diálogos e comportamentos que poderiam fazer parte do dia a dia de qualquer adulto; muitas vezes a fonte é o sentimento de ansiedade (especialmente presente em Angela, personagem de Olivia Wilde) e de uma estranheza desajeitada (característica de Joe, personagem do Seth Rogen), mas também encontra espaço em basicamente todas as interações, sem nunca precisar invadir ou tomar o lugar de outras sensações.

“O Convite.” é naturalmente uma comédia, como pede o tema, e como rege o material-fonte, mas tanto o roteiro quanto a direção transformam o filme em algo a mais e, além de uma comédia, temos um drama e um romance, com toques de suspense (cortesia do clima de tensão e claustrofobia, ancorado pela trilha forte, marcante de Devonté Hynes e a fotografia de Adam Newport-Berra) e um clima de sensualidade no ar, trazido por Piña e Hawk, personagens de Penélope Cruz e Edward Norton, respectivamente. É também um filme que sabe explorar e usar a favor da narrativa todos os recursos disponíveis; um dos destaques é o trabalho conjunto da direção com a direção de arte, que transformou o apartamento em um quinto personagem dessa história. Em vez de ser apenas o lugar onde os casais se encontram, seus cômodos, paredes, janelas e pilares são elementares para o enredo, muitas vezes servindo para aproximar ou afastar os personagens entre si e em relação ao espectador. Em um momento em que cresce a discussão a respeito da falta de primor desses “detalhes” em obras atuais (tanto no cinema quanto na televisão), cenários como esse devem ser ainda mais celebrados. 

Em um filme concentrado em um só espaço, com um número limitado de personagens, tudo deve estar em sintonia para funcionar e o elenco tem um grande peso nisso. É necessário que os personagens convençam por si só, mas também que convençam como um grupo. Em “O Convite.”, os casais precisam ter química entre si, mas também ter uma sinergia com o outro – e é exatamente isso que acontece. Todos os personagens são bem distintos e carregam características marcantes – Angela é ansiosa, Joe é inseguro e usa o humor para esconder, Hawk é um galã descolado e Piña é uma estrangeira sexy e segura de si -, mas conforme a trama se desenvolve, fica claro que eles são muito mais do que estereótipos. Uma das coisas mais interessantes do filme é o elemento da surpresa, do inesperado. Enquanto os personagens expõem seus sentimentos mais a fundo, vão sendo nivelados, aos poucos, apenas à condição de humanos. Quando esperamos por julgamentos óbvios, acabamos encontrando curiosidade e acolhimento; quando esperamos compreensão, feridas e inseguranças dão as caras e nos levam por um caminho inesperado, o que se deve, em parte, ao roteiro de Rashida Jones e Will McCormack, que se baseia na obra de Cesc Gay, mas cria um universo inteiramente novo, tanto em relação aos personagens quanto às situações. Não se trata apenas de uma adição de detalhes, ou de dramas, e sim de uma nova interpretação do enredo como um todo, algo que a direção de Olivia Wilde não só entende como abraça. 

Em um momento do filme um dos personagens menciona a possibilidade de um novo relacionamento com a mesma pessoa como alternativa a um rompimento. “O Convite” parece refletir essa ideia em relação ao material-fonte, mas principalmente dentro de sua própria narrativa ao fazer desta também uma história de amor. A cena que abre o filme tem seu contraponto direto na cena final e segue esse mesmo entendimento em relação a novos relacionamentos. O equilíbrio entre romance, tensão, sedução, ansiedade, humor e conflitos pode ser difícil, mas a direção e o elenco fazem parecer apenas orgânico. “O Convite” é um caos cuidadosamente organizado, surpreendentemente humano e carregado de reflexões. No final, fica fácil entender por que essa história já acumula tantos remakes em tão pouco tempo, mas é muito difícil imaginar uma versão melhor do que a de Olivia Wilde.

 

Por Júlia Rezende

10

Mission Accomplished

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