“Temporada” se prova uma jóia preciosa do cinema nacional com retrato singular da realidade brasileira

[et_pb_section bb_built=”1″][et_pb_row][et_pb_column type=”4_4″][et_pb_text _builder_version=”3.12.2″]

Dentre as diversas obras que o cinema nacional não só produz, como também distribui, há sempre uma pérola escondida entre grandes produções de grandes estúdios. Despercebidas, elas oferecem não só obras tecnicamente impecáveis, como também reflexões e análises da nossa realidade, seja aquela que vivemos ou aquela que nem temos noção.

Com certeza, a da vez é Temporada, longa dirigido e escrito brilhantemente pelo mineiro André Novais Oliveira.

O cineasta, que anteriormente fez um retrato ficcional de um acontecimento real em Ela Volta na Quinta com sua família – incluindo ele mesmo – no elenco, agora trabalha com um elenco um tanto mais maduro, principalmente com o protagonismo de Grace Passô.

A também mineira traz uma ponderada atuação para reforçar o realismo proposto por André, que, com sutileza, explora diversos temas da realidade brasileira através das entrelinhas. Nada em Temporada é exposto de forma gratuita. Cada frase, diálogo, fotografia, tudo traz um objetivo de mostrar mais sobre aquelas vivências, aquele ambiente e aqueles personagens em tela.

O realismo do longa é ainda mais claro com a estática câmera de André, fazendo dos espectadores meros acompanhantes de todo aquele desenvolvimento, dando a sensação de enxergar um quadro, o que é lindamente realizado pelo cineasta. A presença também de um elenco com pouca experiência profissional faz seu significado ganhar ainda mais força, dando mais leveza nos diálogos, parecendo muitas vezes nem existir roteiro, de tão real que aquelas conversas aparentam.

O destaque para essa característica vai para Russo Apr, com uma atuação leve, fugindo do trabalho engessado de outras obras nacionais. Tanto que o ator chegou a ser recompensado com o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Brasília de 2018. Prêmio esse que também foi dado justamente para Grace, como Melhor Atriz; para Wilsa Esser, como Melhor Fotografia; para Diogo Hayashi, como Melhor Direção de Arte.

Além do filme também levar o prêmio principal como Melhor Longa.

Contudo, a aparente falta de roteiro some ao perceber a montagem cuidadosa de André em colocar temáticas significativas de uma sociedade, trazendo questões políticas, sociais e humanas. Portanto, conversas que parecem banais em tela, possuem um peso muito maior devido a sutileza do texto.

Um exemplo disso está na representação do “conflito” de gerações, no qual Juliana escuta um sertanejo atual através de seu smartphone, enquanto uma senhora escuta o chamado sertanejo raiz através de seu rádio. Porém, isto não é feito nitidamente, inclusive, as duas cenas estão distantes uma da outra, provando o quanto o trabalho de André é cuidadoso ao tratar de sua narrativa e deus personagens.

Muito disso também está presente na escolha dos personagens. Reforçando o cuidadoso trabalho de trazer um realismo à tela, os personagens fogem dos esteriótipos, tanto no físico quanto no ideológico. Aparentemente, conhecemos aqueles personagens, mas André vai nos mostrando o quanto eles são diferentes daquilo que aparentam, trazendo mais uma de suas reflexões ao público sobre como enxergamos o outro e o ambiente em que ele vive.

Isso acaba gerando cenas maravilhosas que, provavelmente, não estariam presentes em outras produções por não trazerem o “visualmente agradável” na narrativa.

Narrativa essa que é construída com esmero, no entanto, difícil para um grande público se manter atento. Sua câmera estática dificilmente traz movimentos técnicos e assim, ele passa a trabalhar com longos planos estáticos, o que exige mais do elenco, que entrega com perfeição o peso e essência de cada personagem.

Muito também se deve ao cuidado estético da linda fotografia de Wilssa Esser, que eleva ainda mais a ambientação urbana de Minas Gerais, tratando tudo aquilo como paisagem, não importando a visão. O trabalho de enquadramento de Wilssa faz o espectador conhecer mais daqueles lugares, colocando muitas vezes os personagens em pouco espaço de tela, justamente para ingressarmos naquela realidade cada vez mais.

Junto com isso, André, mesmo com esse “afastamento” do personagem, elimina a trilha sonora para deixar as falas cantarem o desenvolvimento dos personagens, realizando dois trabalhos ao mesmo tempo com o espectador.

Visões como essas, fazem de Temporada algo lindo de se ver em tela. Toda a composição cuidadosa fazem do filme uma obra cinematográfica de respeito e muito brasileira essencialmente. Por mais que outras obras também consigam transportar uma realidade única, Temporada faz isso com poesia, uma poesia marcante que merece o vislumbre cuidadoso do espectador.

[/et_pb_text][/et_pb_column][/et_pb_row][/et_pb_section]

en_US