“Um Dia de Chuva em Nova York” é uma sutil (e agradável) crítica a estupidez humana

Woody Allen é uma das pouquíssimas pessoas que vão deixar uma marca duradoura na história do cinema. Mesmo quem não gosta do trabalho do artista que escreve, dirige e atua, precisa reconhecer a relevância das obras dele, e como elas conseguem ser tão originais e características. Woody já recebeu 23 indicações ao Oscar, e venceu 4 vezes. São creditadas a ele 80 obras como roteirista, 55 como diretor e 48 como ator. Agora, prestes a completar 84 anos, Woody apresenta “Um Dia de Chuva em Nova York” seu mais novo longa que conta com a sua direção e roteiro, e infelizmente não conta com a sua atuação.

Os temas trazidos pelo diretor são recorrentes: as nuances do sofrimento amoroso e existencial e a estupidez a nossa sociedade. Suas obras mais recentes navegam por esses temas, as vezes pendendo mais para um do que para outro. “Um Dia de Chuva em Nova York” traz em sua essência as nuances do sofrimento existencial e usa a estupidez humana para conduzir a trama. Para os fãs do artista, podem ser perceptíveis alguns elementos de suas últimas obras: uma jovem e ambiciosa jornalista (“Scoop – O Grande Furo”), um jovem num relacionamento incompatível (Meia-noite em Paris), confusões e mal-entendidos envolvendo celebridades (Para Roma com Amor). Mas, dado o brilhantismo de Woody, tudo se reinventa em uma nova trama, que consegue ser divertida e causar angústia na medida certa, marca que caracteriza o trabalho dele.

É perceptível que nas obras recentes que Woody não atua, ele busca um outro ator para “substituí-lo”. Depois de Owen Wilson (“Meia-noite em Paris”, 2011) e Jesse Eisenberg (“Café Society”, 2016) foi a vez de Timothée Chalamet, jovem ator que ficou famoso pelo longa “Me Chame pelo Seu Nome”. O texto e a caracterização apontam para a típica personificação de Allen na tela, porém Timothée entrega uma atuação demasiadamente melancólica, com ombros e cabeça baixos durante todo o filme. Faltou-lhe a racionalidade, que estava em excesso em Eisenberg em “Café Society”, necessária para o personagem. Talvez tenha sido a intenção de Woody Allen não deixar o personagem tão parecido consigo mesmo, coisa que ele fez com muita habilidade com Owen Wilson em “Meia-noite em Paris”, e aparentemente se arrependeu pois não convidou o ator para colaborar com ele novamente em nenhuma outra obra, hábito de Allen com as estrelas que o agradam.

O trabalho que Allen faz com Elle Fanning é memorável. Elle se destaca de tal modo, que “Um Dia de Chuva em Nova York” pode ser usado para explicar o trabalho do diretor com seus atores para o público geral. Esse pequeno exercício necessita de uma seleção de três filmes: qualquer filme de Woody Allen, qualquer filme com Elle Fanning, e “Um Dia de Chuva em Nova York”. A genialidade de Allen associada com a versatilidade de Fanning cria algo único em tela, onde a personagem “ganha vida” de um modo pouco visto no cinema.

Selena Gomez, Diego Luna, Liev Schreiber e Jude Law completam o elenco de apoio com boas interpretações, com destaque para Selena Gomez, que ganhou fama com um seriado infantil e uma carreira musical, e se mostra uma verdadeira atriz com potencial para continuar e se estabelecer de verdade nesta carreira.

A fotografia em uma Nova York chuvosa é convidativa e íntima, muito diferente da forma distante que o diretor trata a cidade em seu filme mais famoso, “Manhattan”, de 1979. Agora, tomadas aéreas da cidade são substituídas pelas ruas estreitas, e enquadramentos que valorizam mais os personagens do que o ambiente.

“Um Dia de Chuva em Nova York” não é um filme para iniciantes de Woody Allen, muito menos um filme para o público geral. A crítica sobre futilidade das massas é sutil, e as reflexões sobre o uso da nossa inteligência frente ao nosso papel na sociedade são profundas. Mesmo que não seja a melhor obra dele, certamente é um filme que merece ser visto no cinema.

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