A Noiva!
Diretor
Maggie Gyllenhaal
Elenco
Jessie Buckley, Christian Bale, Annette Bening
Roteirista
Maggie Gyllenhaal
Estúdio
Warner Bros. Pictures
Duração
126 minutos
Data de lançamento
05 de março de 2026
Sem a intenção da piada, A Noiva!, segundo filme dirigido por Maggie Gyllenhaal, é, em sua forma, um verdadeiro Frankenstein (o monstro, não o cientista). Mesmo dentro de uma unidade, o filme contém tantas partes distintas que, de perto, pode até parecer confuso ou sobrecarregado, mas quando observado o todo, deixando de lado a procura pelo óbvio, o que temos é uma história que encontra coerência em sua discrepância. Até mesmo a personagem da noiva traz em si esse conceito. Apesar de seu corpo em si não ser fragmentado, são retalhos que constituem sua psique e a transformam num personagem tão ousado quanto o filme propriamente dito. A ousadia, inclusive, não é exclusiva da personagem. É impressionante que Maggie Gyllenhaal, que se destacou como diretora com o filme indie e intimista “A Filha Perdida”, agora consiga assumir uma direção firme, mas completamente oposta a seu trabalho anterior. Esse comentário se aplica também à própria Jessie Buckley, que provavelmente se tornará uma vencedora do Oscar nos próximos dias, mas que até então havia mostrado apenas o seu lado mais dramático, contido, contemplativo e aqui, como A Noiva, entrega uma performance frenética, bizarra e extremamente magnética.
O título do filme se justifica em sua totalidade, esse é, de fato, o filme d’A Noiva, bem como é o filme da Jessie Buckley, e até mesmo o ponto de exclamação se faz presente no conteúdo. Diferente do filme de 1935, aqui a protagonista realmente é a Noiva, que chega a ganhar um passado. A história começa nos anos 30, com Ida (Jessie Buckley), uma mulher envolvida com a máfia e numa noite é possuída pelo espírito de Mary Shelley (. Aqui, Mary Shelley também tem mais história a contar para além do que conhecemos de Frankenstein, dessa vez como um espírito rebelde. Como consequência dessa rebeldia, Ida acaba morta, mas não por muito tempo.
Paralelamente, conhecemos o Frankenstein de Christian Bale. Do passado dele sabemos apenas o suficiente: ele passou as últimas décadas como uma figura socializada e já conhecida (mas não amada) pelo público, agora atende por Frankenstein (em vez de o Monstro de Frankenstein), ou Frank pros mais próximos, e sem o cientista que o criou, leva uma vida essencialmente solitária, o que não condiz com sua natureza afável. Christian Bale deixa essa dualidade evidente, com uma expressão doce mesmo no rosto grosseiramente remendado. Todas essas informações vêm do próprio Frank, que as conta para a doutora Euphronius (Annette Bening), uma “cientista maluca”, na esperança de convencê-la a criar uma companhia para ele. Alguns argumentos depois, os dois acabam desenterrando Ida para lhe dar (ou devolver) a vida. Acontece que Ida não vem como uma folha em branco, ela vem como uma soma das partes de Ida, do espírito de Mary Shelley e algo inteiramente novo.
Maggie Gyllenhaal poderia ter seguido a versão original e ter feito com que a Noiva rejeitasse Frank – e a princípio, ela realmente o faz, mas não por conta do visual não-convencional do “monstro”. Ida volta à vida num misto de confusão e determinação, mas também munida de uma curiosidade que a empurra para o desconhecido. “A Noiva!”, entre muitas outras coisas, é também (e talvez principalmente) um romance. A relação entre Ida e Frank convence desde o princípio, e é fácil torcer pelo casal mesmo quando eles acabam inevitavelmente se envolvendo em crimes pela cidade e saem em fuga no maior estilo Bonnie & Clyde. Além do clássico, é impossível não associar o filme, sobretudo na forma, com “Coringa 2”. Assim como Arthur Fleck, Frank vê nos musicais clássicos de Hollywood sua forma de fuga e refúgio de uma sociedade que o descarta por não ser “normal”. Não seria justo, entretanto, comparar Frank com Arthur Fleck em qualquer outro quesito. Há em ambas as criaturas, Frankenstein e sua Noiva, uma inocência e compaixão que não permite a presença de maldade, mesmo quando passam a descobrir novas sensações e novas percepções sobre o mundo.
Durante a fuga do casal, eles são perseguidos por detetives, talvez o elo mais fraco de todo o filme, não necessariamente por serem personagens ruins, mas eles têm tão pouco a fazer que chega a ser injustificável usar nomes grandes como Penélope Cruz e Peter Sarsgaard para vivê-los. Essa subtrama certamente não seria a única “ponta solta” nesse enredo agitado, mas “A Noiva!” é o tipo de filme que prioriza as sensações do caos à organização de uma narrativa que se apegue ao bom senso. Faz todo sentido que o filme esteja despertando reações tão diversas, mas não se pode negar sua originalidade e coragem para ousar.
Por Júlia Rezende