Backrooms: Um Não-Lugar
Diretor
Kane Parsons
Elenco
Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass
Roteirista
Will Soodik e Kane Parsons
Estúdio
A24
Duração
110 minutos
Data de lançamento
28 de maio de 2026
O cinema de terror é um dos gêneros que respondem mais rapidamente às mudanças da sociedade, e é também um dos que mais tem subgêneros. No mês de maio, dois filmes lançados parecem o começo promissor de mais um deles: os que vieram de youtubers. Coincidentemente, os dois são youtubers jovens. Curry Barker tem apenas 26 anos e dirigiu “Obsessão”, que já é um fenômeno de bilheteria e agora Kane Parsons, de apenas 20 anos de idade, se tornou o diretor mais novo da história do estúdio A24 com “Backrooms”, um longa-metragem baseado nos curtas que o próprio Parsons fazia e publicava em seu canal no YouTube quando ele tinha apenas 16 anos. O conceito de “backrooms” não foi criado por ele, era uma creepypasta, uma espécie de lenda urbana que surge na Internet. Os “backrooms” seriam espaços liminares infinitos e “escondidos”, com corredores intermináveis, podendo até conter algum tipo de criatura. Para alguns, eles fariam parte de uma outra dimensão, para outros uma camada do subconsciente.
Os vídeos de found footage criados por Kane Parsons no Blender e postados no YouTube viralizaram, o primeiro deles já conta com mais de 78 milhões de visualizações, e Parsons acabou fazendo uma série de outros vídeos com essa mesma temática, desenvolvendo um pouco mais esse universo. O sucesso foi tanto que chamou atenção do estúdio A24, um dos mais “badalados” da nova geração, e Kane Parsons foi escolhido para dirigir o longa-metragem. O talento de Parsons é inegável, os vídeos criados por ele são de uma qualidade técnica excelente, mas o grande desafio é transformar alguns vídeos curtos sem uma trama, dependendo mais da sensação do que de qualquer lógica, em um longa-metragem sólido, consistente. Esse tipo de adaptação pode ser muito difícil, mas Parsons tinha algumas coisas a seu favor, incluindo dois atores indicados ao Oscar como protagonistas: Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve.
Apesar dos desafios, “Backrooms: Um Não-Lugar” é uma obra surpreendentemente fiel ao material original. A cena de abertura, com estética de found footage, é uma reprodução fiel dos primeiros vídeos de Parsons e é uma introdução sinistra dos “backrooms” no cinema. Logo depois conhecemos Clark (Chiwetel Ejiofor) e Mary (Renate Reinsve), sua terapeuta. Os dois, apesar de estarem em posições bem diferentes na vida, carregam em si uma certa melancolia, o Clark por conta de sua relação com o trabalho e Mary por traumas de infância. O roteiro de Will Soodik garante que esses personagens tenham uma camada emocional além do superficial ainda que nada seja realmente esmiuçado. É essa camada, inclusive, que faz com que eles se relacionem com os “backrooms”, que acabam aparecendo misteriosamente na loja de móveis em que Clark trabalha.
Mais de dois terços do filme se passam nesses “backrooms”, em seus corredores intermináveis, que parecem um labirinto sem propósito aparente. O trabalho conjunto da direção com a fotografia e a arte é primoroso no que diz respeito a esse cenário. Corredores minúsculos causam claustrofobia e depois são substituídos por espaços amplos, mas desertos, com alguns objetos fora de lugar e sem explicação. São todos ambientes que despertam estranheza e rejeição, sempre rodeados de mistério. Para que servem? Como surgiram? Com qual propósito? “Backrooms: Um Não-Lugar” é diferente de praticamente tudo no cinema, é impressionante a capacidade de manter a atenção do espectador com poucos diálogos e passando pelos mesmos corredores idênticos, mas com uma construção de suspense muito bem idealizada e as atuações excelentes dos protagonistas, continuamos acompanhando cada passo sem saber o que o próximo revelará. É um filme que depende muito mais das sensações do que de uma trama propriamente dita. A capacidade de direção de Kane Parsons é também impressionante, principalmente por se tratar de um principiante (e tão jovem); ele sabe como conduzir cada cena, trabalhando os espaços em sua totalidade. Ele faz um trabalho muito interessante de contraste entre os “backrooms” e o “mundo real”: quando vemos o lado de fora, há muitos planos evidenciando o céu aberto e azul, um completo oposto do teto industrial e plástico do lado de dentro, mas todos os ambientes fechados compartilham da mesma sensação de claustrofobia dos corredores, ainda que sejam esteticamente distintos. Para além do visual, há muitas teorias que podem ser desenvolvidas a partir do filme, talvez a mais simples de se inferir, e mais explicitamente presente, seja a de uma vida vazia, a esmo. A solidão como uma consequência da dificuldade de se quebrar ciclos, romper padrões.
O filme flerta com uma estrutura mais lógica como uma subtrama, tentando dar um sentido mais sólido à história, e é aí que perde um pouco de seu impacto. Ao tentar atribuir significado, mas fazendo isso com tanta cautela que não chega à conclusão alguma, acaba caindo no erro mais simplório do gênero do terror: quando um filme cria uma ambientação promissora, com simbolismos que só aumentam, mas depois não consegue amarrar tudo que foi criado num clímax que se encaixe em tanto conceito. O resultado acaba sendo algo que parece inacabado, em vez de apenas um final aberto. É aí que o filme certamente dividirá o público, muito provavelmente entre aqueles que o considerarão genial e aqueles que odiarão sua vagueza.
Por Júlia Rezende