7.1/10

Cinco Tipos de Medo

Diretor

Bruno Bini

Gênero

Ação , Drama

Elenco

Bárbara Colen, Rui Ricardo Diaz, Bella Campos

Roteirista

Bruno Bini

Estúdio

Downtown Filmes

Duração

109 minutos

Data de lançamento

9 de abril de 2026

Murilo, um jovem músico em luto, se envolve com Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo com um traficante. Suas histórias se cruzam com as de Luciana, policial movida por vingança, e Ivan, advogado com intenções ocultas. Cinco vidas aparentemente desconectadas colidem num caminho sem volta.

É chamado de “efeito borboleta” quando uma ação relativamente pequena e isolada acaba causando efeitos indiretos e consequências maiores em situações aparentemente desconexas. Na vida, nunca temos como saber como – ou qual – uma escolha nossa, por menor que seja, pode vir a mudar tudo. Há uma sequência em “O Curioso Caso de Benjamin Button” em que o atraso de uma mulher aleatória vem a destruir os sonhos de Daisy, personagem de Cate Blanchett: o atraso dela fez com que uma série de coisas acontecessem e culminaram em um táxi atropelando Daisy, que era uma bailarina e teve que se aposentar da dança por conta de uma fratura nas pernas. Benjamin Button define, então, a vida como uma série de vidas e incidentes que se intersectam sem que qualquer um tenha controle. Essa definição funciona perfeitamente para Cinco Tipos de Medo, filme escrito e dirigido por Bruno Bini, que ganhou 4 Kikitos durante o Festival de Gramado de 2025. 

Se Murilo (João Vitor Silva) e sua mãe não tivessem pegado Covid, e a mãe, enquanto ele estava intubado e ela internada, não tivesse desabafado com a enfermeira, Marlene (Bella Campos), sobre o amor que tinha pelo filho, Murilo não teria se envolvido numa história alucinante de amor, crimes e vingança. Isso é apenas uma introdução, Cinco Tipos de Medo é um daqueles filmes que, quanto menos você souber de antemão, melhor será sua experiência. A surpresa não se dá apenas pelo desenrolar da história, não é um filme que dependa unicamente de reviravoltas narrativas. A própria forma como a história é contada é surpreendente. Já na cena de abertura, quando Murilo fala sobre cinco tipos de medos, sabemos que a narrativa não será focada em apenas um núcleo. Além de Murilo, um violinista, temos Marlene, a enfermeira, seu namorado abusivo e chefe de crime, Sapinho (Xamã), uma policial, Luciana (Bárbara Colen), em busca de vingança, e Ivan (Rui Ricardo Diaz), um advogado suspeito. Embora o porquê dessas histórias se entrelaçarem seja, de fato, muito interessante, o maior trunfo de Bruno Bini é a forma como isso é contado para o público. 

Brincando com a lógica cronológica, Cinco Tipos de Medo traz a surpresa de ser muito melhor do que seu primeiro ato deixa transparecer. Poderia não ser mérito, caso fosse apenas um desleixo ou sorte de um bom final que compensa deslizes iniciais, mas o espectador tem a sorte de assistir a uma história bem contada, uma montagem engenhosa (que pode ser confusa para quem não estiver acompanhando com mais atenção), um roteiro bem costurado, ciente, a todo momento, dos movimentos que faz e da finalidade de seus meios. O que parece deslize pode ser, na verdade, uma ponte para algo maior e bem elaborado. Quando assistimos a um filme e somos surpreendidos no último minuto por um grande plot twist, ficamos com a sensação satisfatória de termos sido “enganados” para o bem – algo similar acontece aqui, mas muito antes de chegar aos últimos minutos, e não só uma única vez. 

Embora histórias envolvendo traficantes, polícia e crime no geral sejam cada vez mais familiares ao cinema nacional, esse não é um filme que passe a mesma sensação que tantos outros; não que suas histórias sejam inéditas, mas há nelas um sentimento genuíno que não vem apenas do fato de que são inspiradas em eventos reais. Até mesmo a forma como a violência é abordada, a amplitude e profundidade de suas consequências, sobretudo quando começa num ambiente de carência financeira (mas não necessariamente limitada a ele), essa violência parece ao mesmo tempo inevitável e nada fatalista. A vida é uma série de vidas e incidentes que se intersectam sem que qualquer um tenha controle, mas isso não significa que nossas escolhas, ou quem somos, não importem. Cada um dos personagens tem suas próprias motivações, que no final acabam sendo bem claras e justificadas, cada um tem sua própria personalidade e conseguimos seguir suas lógicas, o suficiente para que a gente, como público, possa se conectar com elas.

Cinco Tipos de Medo é um filme de ação, de romance, de vingança, que prefere ousar a tomar o caminho mais fácil, o que, naturalmente, vem com seus prós e contras. Quando fazemos considerações sob o prisma do comentário social, a obra perde um pouco de sua força. As consequências da violência, não só para quem está inserido nesse meio, mas para qualquer um cuja série de incidentes que chama de vida chegar a se intersectar, é clara e compreensível, mas o filme impressiona muito mais pelo seu teor dramático ficcional. É um ótimo filme para assistir no cinema e se deixar levar pela ação em cadeia dos acontecimentos, acompanhada de atuações sólidas e uma narrativa consistente. Talvez não precise ser mais do que isso.

 

Por Júlia Rezende

8.5

Missão cumprida

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