Frankenstein
Diretor
Guillermo del Toro
Gênero
Drama , Ficção Científica , Terror
Elenco
Oscar Isaac, Jacob Elordi, Mia Goth
Roteirista
Guillermo del Toro
Estúdio
Netflix
Duração
149 minutos
Data de lançamento
7 de novembro de 2025
“Frankenstein” começa muito bem. Guillermo del Toro encontra, na primeira metade do filme, a forma mais interessante de abordar essa história: não pelo choque imediato da criatura, mas pela sedução do criador. Antes de qualquer explosão dramática, o longa constrói atmosfera, peso e curiosidade. A abertura, especialmente toda a condução inicial e a sequência do barco, estabelece com muita força o tom do filme. Há solenidade, há densidade e, acima de tudo, há a sensação de que algo grave está sendo preparado com calma. É um começo seguro, visualmente forte e narrativamente envolvente.
A escolha de concentrar esse primeiro bloco no ponto de vista de Victor Frankenstein funciona muito bem. Oscar Isaac sustenta essa parte do filme com presença, carisma e a dose certa de inquietação. Seu Victor não é apenas um cientista obcecado; é um homem dominado pela convicção de que o próprio talento justifica qualquer violação. Isso dá ao personagem uma força dramática importante, porque o interesse não nasce de empatia, mas de fascínio. O filme cresce justamente nesse terreno: o da obsessão, do segredo e da arrogância intelectual travestida de grandeza. E, nesse recorte, del Toro conduz a narrativa com firmeza. O mistério se acumula, a tensão se organiza e a promessa de tragédia mantém o espectador preso.
Também ajuda o fato de que essa primeira metade sabe equilibrar bem o peso dramático com o espetáculo visual. O filme é opulento quando precisa ser, mas sem cair no excesso vazio. A direção de arte, a fotografia e o cuidado com os cenários criam um gótico elegante, denso e muito bem acabado. Nada ali parece gratuito. Existe um apuro visual que reforça o desconforto da história em vez de competir com ela. É o tipo de beleza que serve ao clima, não apenas à vitrine.
O problema surge quando o filme desloca seu centro para a Criatura. Em teoria, a mudança de perspectiva poderia ampliar o drama e dar outra dimensão à história. Na prática, acontece o contrário. A narrativa perde força, perde tensão e, principalmente, perde curiosidade. O ponto não está em dar espaço ao monstro, mas em como esse espaço é construído. A partir do momento em que o filme passa a acompanhar a Criatura, a complexidade diminui e o desenvolvimento dramático se torna mais raso. O que antes era mistério e densidade passa a ser conduzido por uma interioridade simplificada demais para sustentar o mesmo interesse.
Isso compromete justamente o que o filme tinha de melhor. A primeira metade constrói uma expectativa alta, porque parece preparar um mergulho mais profundo nas consequências da criação. Mas a segunda metade não aprofunda esse conflito na mesma medida. Em vez de expandir o drama, ela o reduz. O resultado é um desequilíbrio claro: há um filme muito mais forte na primeira parte do que na segunda. E isso pesa, porque não se trata de uma oscilação pontual, mas de uma mudança estrutural na força da narrativa.
Ainda assim, mesmo quando o roteiro enfraquece, o filme continua impressionante em seus aspectos técnicos. A fotografia permanece belíssima, sempre trabalhando sombras, luzes baixas e contrastes com muito rigor. A trilha sonora sustenta a solenidade sem parecer invasiva. E a própria construção visual da Criatura é um dos grandes acertos do longa: há presença física, há textura, há trabalho de composição. Tudo isso reforça o cuidado da produção e mostra que del Toro continua sendo um cineasta de imagem muito acima da média. O problema é que, aqui, o rigor visual não encontra o mesmo nível de consistência dramática até o fim.
No conjunto, “Frankenstein” acaba sendo um filme de alto valor estético e resultado irregular. Há uma primeira metade realmente forte, capaz de prender, instigar e prometer um grande drama gótico. E há uma segunda metade que não sustenta essa promessa com a mesma força. Não chega a ser um fracasso, porque há qualidade demais em cena para isso. Mas fica a sensação clara de uma obra que começa maior do que termina. E, num filme como esse, essa diferença pesa mais do que qualquer virtuosismo técnico consegue esconder.