8.5/10

Godzilla Minus One

Diretor

Takashi Yamazaki

Gênero

Ação , Drama

Elenco

Takashi Yamazaki, Minami Hamabe, Sakura Ando

Roteirista

Takashi Yamazaki

Estúdio

Sato Company

Duração

124 minutos

Data de lançamento

14 de dezembro de 2023

Em GODZILLA MINUS ONE, somos levados ao Japão após a segunda guerra mundial. E é neste cenário, de uma nação em ruínas e escombros, que o Godzilla aparece para acabar de vez com tudo, justificando o título do filme "Minus One": do zero ao negativo. Assim, os últimos habitantes vivos da ilha devem enfrentar um último desafio: lutar contra o monstro e sobreviver.

Nas últimas 7 décadas, o Godzilla já teve dezenas de filmes, séries e animações, tanto no Japão quanto nos Estados Unidos e diversas histórias de origem diferentes. Ele já foi vilão, herói, experimento científico, lagarto com radiação, criatura pré-histórica… Já foi supremo, já conheceu criaturas superiores, já lutou contra e ao lado de outros monstros, com diferentes motivações. Além dos filmes de Hollywood ao lado de Kong e da série Monarch da Apple+, Godzilla também está de volta ao cinema japonês com Godzilla Minus One do diretor e roteirista Takashi Yamazaki, um reboot do monstro desde o marco zero.

Geralmente filmes de monstros têm um público específico de quem já é fã do gênero, principalmente por focar na parte mais “lúdica” e fantasiosa do monstro do que numa trama propriamente dita, chamando atenção mais pelo visual do que pelo roteiro ou desenvolvimento de personagens. Godzilla Minus One vem para subverter essa “regra” e quebrar todas as expectativas. Há tempos (ou, talvez, até mesmo nunca) não temos um filme de monstro tão humanizado, bem desenvolvido e – por que não? – realista e, simultaneamente, que sabe apelar para o terror natural de um monstro gigante radioativo.

O filme já começa com um grande acerto: a decisão de fazer um reboot na história de Godzilla e ignorar tudo que conhecíamos sobre ele. Outro, é o cenário. Aqui temos um Japão desestabilizado pós-Segunda Guerra e o clima geral de insatisfação, caos e desesperança é propício para materializar esse pânico na forma de um monstro “real”. A história começa com Koichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), ele é um piloto kamikaze, mas não está disposto a dar a vida pela sua nação e num ato de desespero, ele finge que seu avião quebrou para não precisar partir em missão. Enquanto esperam por uma solução, são surpreendidos por um criatura imensa saída do mar, identificado por alguns como um monstro aquático que já ameaçou algumas vezes a cidade. Koichi é instruído a dar um tiro de canhão em Godzilla, mas paralisado, não consegue atirar. Sua falha é vista da pior forma possível por seus colegas, ele é rejeitado, taxado de covarde e fraco, já que o resultado de sua hesitação foi dezenas de mortos e feridos. Koichi, no entanto, consegue se salvar e, sob a pressão dos colegas, é tomado por uma nova onda de força de vontade e determinação, que aumenta ao mesmo tempo em que o que está em jogo e as tensões aumentam também. Além da necessidade de provar o seu valor, tanto para si quanto para seu país, Koichi é motivado pelas pessoas que passa a conhecer (já que as que conhecia antes da guerra, agora estão mortas).

Talvez “patriotismo” seja a palavra-chave de Godzilla Minus One, mas o assunto é tratado com tamanha destreza de Yamazaki que passa longe de um nacionalismo radical e, ainda no começo, já estamos completamente convencidos de que devemos nossa torcida ao Japão. Ajuda também que, apesar dos simbolismos, Godzilla representa uma ameaça por si só, “independente” de política ou de racionalidade. A construção de Godzilla é a de um monstro e ponto final. Não há nessa fera qualquer traço de humanidade ou empatia, ele é um monstro a ser derrotado pelo país antes que consiga derrotá-lo – o que é um evento iminente. Essa versão do monstro japonês é impiedosa e aterrorizante, não poupa nada nem ninguém, fazendo bom uso de elementos do terror para concretizar sua imagem. É um tipo de monstro que exige uma comoção unitária de seus adversários, não deixando espaço para elos fracos ou rachaduras internas nos adversários. O que poderia ser mais apropriado para unir uma nação do que um inimigo em comum?

No lado mais humano, os personagens secundários demonstram traumas que a guerra deixou num nível emocional, mas também físico. Eles não são tão complexos quanto poderiam ser (ou tão complexos quanto o protagonista), alguns mais “óbvios” do que os outros, mas cumprem bem o papel de demonstrar os efeitos da guerra sem precisar falar deles explicitamente em todas as cenas. A instabilidade financeira, a fome, a precariedade de todos os serviços enfraquecem a nação como um todo, mas a vontade de lutar, inflamada pela necessidade de derrotar Godzilla, é o que os acorda para a tentativa e esperança de um futuro melhor.

É um filme do Godzilla, mas ele está lá mais como metáfora do que protagonista, ainda que não perca sua essência. As cenas de ação estão lá, com efeitos visuais impressionantes (e que deixam muitos filmes de Hollywood no chinelo), tensão e a violência inata de um monstro dos mares, mas o que embala esse filme é a sua história, seus personagens e, sobretudo, sua emoção. Muitas vezes remakes, reboots, spin-offs e etc., são recebidos com desconfiança (e em 90% das vezes, essa desconfiança é justificada), mas Godzilla Minus One não só faz jus, como melhora a imagem da entidade Godzilla.

 

Por Júlia Rezende

9

Missão cumprida

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