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Michael

Diretor

Antoine Fuqua

Gênero

Drama , Musical

Elenco

Jaafar Jackson, Nia Long, Colman Domingo

Roteirista

John Logan

Estúdio

Universal Pictures

Duração

127 minutos

Data de lançamento

23 de abril de 2026

Filme biográfico sobre o rei do pop, Michael Jackson. Ele retratará o cantor desde seus primeiros dias até sua trágica morte em 2009.

Há certas coisas sobre Michael Jackson que são simplesmente inegáveis: sua infância não foi fácil, ele é um dos maiores artistas de todos os tempos, seu repertório musical é sensacional e ele viveu boa parte de sua vida cercado de controvérsias pesadas. Essa junção faz com que uma cinebiografia seja algo extremamente complicado de se desenvolver. Agora, quase duas décadas após a morte do Rei do Pop, nós, como público, ainda não temos qualquer “definição” sobre quem era Michael Jackson de verdade. Entre rumores dos mais variados tipos, a falta de provas concretas transformou a vida íntima do astro numa espécie de mito. Desde que a cinebiografia foi confirmada, a maior dúvida sempre foi em relação a como, e o que, da vida de Michael, seria retratado na telona. São anos e anos de trajetória acumulando sucessos, superlativos e polêmicas na vida profissional e pessoal a serem condensados em uma narrativa de pouco mais de 2 horas de duração. As desconfianças aumentam quando a família de Michael Jackson se envolve com a produção, tanto por trás das câmeras (quase toda a família, com poucas exceções, tem créditos como produtores executivos), quanto na frente, com um dos sobrinhos de Michael Jackson, Jaafar Jackson, interpretando o tio. O envolvimento da família é, quase sempre, uma garantia de que uma biografia “chapa branca” está a caminho; é natural que os familiares não queiram retratar um artista como alguém falho, por mais que sejam justamente as falhas que nos fazem humanos e, consequentemente, interessantes – até mesmo como artista.

É nesse contexto que a cinebiografia “Michael” chega aos cinemas, depois de refilmagens milionárias e alguns atritos com a família: Paris Jackson, a filha do Michael Jackson, repreendeu a produção e se recusou a fazer parte, diferentemente dos irmãos, assim como Janet Jackson, que inclusive foi “apagada” do filme, dentro desse universo cinematográfico, ela simplesmente não existe e La Toya Jackson é a única irmã de Michael. Considerando todas as adversidades, Michael é um filme surpreendentemente envolvente e inofensivo. “Michael” começa com um pequeno Michael Jackson ensaiando em casa com os irmãos, eles gostam de música, gostam de ensaiar, mas a magia da arte é contrastada pela dureza e rigidez com que o pai, Joseph Jackson (interpretado por um Colman Domingo com próteses que o deixam caricato), lidera o grupo. Eles ensaiam antes dos shows, depois dos shows, a qualquer horário do dia, não importa quão cansados eles estejam e, se eles tentam se queixar, logo são parados pelo cinto do pai. A mãe também está sempre presente, mas apenas fisicamente. Ela olha com um misto de tristeza e reprovação, mas também teme o marido o suficiente para nunca se impor. 

Seguindo uma lógica estritamente cronológica, acompanhamos momentos marcantes da vida de Michael Jackson, pulando entre anos, vemos Michael dando seus primeiros passos como um grande pop star, desde a primeira gravadora, ao primeiro disco e às primeiras turnês. Essa primeira parte de sua vida/carreira é abrilhantada pela performance do jovem Juliano Valdi, ele interpreta o Michael como criança e entrega passos de dança e, principalmente, uma voz digna do Rei do Pop, por mais singular que seja. Ele traz alma ao filme como um adulto, mas mantendo a imagem e a inocência de uma criança, assim como Michael fazia nessa primeira fase. Pouco tempo (e muito sucesso) depois, Michael já está começando a fase adulta e o pequeno Juliano Valdi dá lugar a Jaafar Jackson.

Não é só o Michael que muda, no entanto. Mais sucesso significa mais dinheiro, a família se muda para uma mansão, onde todos desfrutam de confortos e regalias, mas ainda não de liberdade. Joseph Jackson continua cada vez mais controlador, obcecado em transformar a família num fenômeno atemporal ao mesmo tempo em que enche os bolsos. Apesar de todos os irmãos estarem nessa mesma situação, só vemos como isso afeta Michael – os irmãos são apenas figurantes, com pouco mais de uma ou duas falas cada. Já Michael tem tempo de tela, mas tem pouco desenvolvimento como personagem. Vemos traços de sua personalidade de forma sutil e nem sempre com a atenção que merecem. Com dinheiro, mas já sentindo falta de uma infância que nunca teve, Michael começa a gastar comprando amigos, mas os amigos na verdade são animais. No seu quintal tem cachorros, gatos, pássaros, mas também girafas e até um chimpanzé um pouco mais tarde. O quarto de Michael é repleto de brinquedos e ele é fascinado pela história do Peter Pan, o menino que não queria crescer, tanto que esse fascínio leva Michael à sua primeira grande transformação estética: afinar o nariz para ficar mais parecido com o personagem. 

A falta de uma figura paterna afetiva também é retratada, de forma tímida, mas suficiente. Tanto o segurança quanto o primeiro empresário da carreira solo de Michael são facilmente vistos por ele dessa forma, como o porto seguro que ele nunca teve. Mesmo quando Michael decide trilhar o próprio caminho, Joseph Jackson está sempre presente: ele é, inegavelmente, o antagonista e grande vilão dessa história, ainda que seja possível questionar qual teria sido o lugar ocupado por Michael na indústria da música caso o pai não tivesse sido rígido como foi e não tivesse apostado todas as suas fichas na carreira dos filhos. Ainda que vejamos partes muito interessantes do processo criativo do Michael, a família é o verdadeiro cerne de “Michael”, como Michael foi impactado por essas relações e como suas experiências moldaram sua persona e sua trajetória. O problema é que tudo é tratado com uma superficialidade desnecessária, que diminui o impacto do filme em relação ao seu propósito de cinebiografia. 

“Michael”, assim como o próprio artista, tem seus melhores momentos quando foca na música, simplesmente porque não tem como errar. A trilha sonora do filme é sensacional, porque Michael Jackson assim a fez, e há uma mágica especial em assistir a grandes performances de Michael no cinema. O sobrinho do artista, Jaafar Jackson, tem Michael em seu DNA e isso é perceptível, por mais que sua atuação não seja exatamente distinta, ele possui qualidade de artista e realmente é possível enxergar Michael Jackson nele. As sequências de dança são tão empolgantes quanto as músicas e a possibilidade de que esse filme faça com que as novas gerações possam, também, conhecer e se encantar com Michael Jackson, é mais um ponto positivo do filme. 

Enquanto as maiores reservas em relação ao filme eram justamente em relação às polêmicas que permeiam Michael, “Michael” toma a decisão mais segura e comedida: simplesmente não as mostra. Tem um motivo para isso, é verdade, mas não deixa de ser estranho assistir a um filme inteiro sobre Michael e vê-lo como muito pouco além de uma vítima do pai e das circunstâncias da vida de uma grande estrela, sabendo que há muito mais do que isso. O filme toma uma direção em que é basicamente impossível não agradar aos fãs, algo que qualquer coisa que não fosse um filme “chapa branca” dificilmente faria e certamente os deixará querendo mais. Como uma cinebiografia, no entanto, o roteiro não faz mais que encenar qualquer resultado do Google para uma pesquisa com seu nome. 

 

Por Júlia Rezende

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